PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

UMA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS EM MINAS GERAIS

UMA ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS
EM MINAS GERAIS
Autor: Carlos Henrique Rangel
                                     
A conquista da região do São Francisco, após a morte do sertanista paulista Matias Cardoso, coube a seu filho Januário Cardoso e aos seus antigos subordinados e descendentes destes.

Primeiramente, Januário teria transferido o antigo arraial fundado por seu pai para um local que considerava mais adequado, atualmente denominado Arraial do Meio. As “ruínas de Mocambinho” localizadas no atual município de Jaíba seriam então, o que restou desse antigo povoado de Matias Cardoso abandonado às constantes enchentes.

Constatando as mesmas deficiências do primeiro arraial no arraial do Meio - também sujeito às inundações - Januário mudou-se novamente, desta vez para o local definitivo, origem do povoado de Morrinhos, atual cidade de Matias Cardoso.

Temos como certo que, o arraial novo dos Morrinhos de Domingos do Prado é o arraial de Morrinhos criado por Januário Cardoso.

A conquista definitiva da região teria ocorrido a partir do Arraial de Morrinhos, com a consequente ocupação das terras dos dois grandes redutos caiapós: Guaíbas e Tapiraçaba.

Consolidado o domínio do Rio de São Francisco, estes sertanistas espalharam suas fazendas e arraiais por toda a região do São Francisco e Rio Verde reforçando os vínculos com as Minas para onde remetiam o gado.

Januário Cardoso permaneceu como principal líder da região até a década de trinta do setecentos.  Após a sua morte a liderança do arraial de Morrinhos ficou a cargo de Domingos do Prado. Com os motins do sertão em 1736, as grandes lideranças locais perderam o brilho e a região por este e outros fatores entrou em um período de relativo declínio.

A região mineira do médio São Francisco se relacionou intimamente com as terras auríferas, durante boa parte do século XVIII, tanto pelo abastecimento de carne e outros produtos que vinham pelo sertão, importados das capitanias de Pernambuco e Bahia, quanto pela rota para o descaminho do ouro. 

A relação entre as duas regiões – Sertão do São Francisco e região mineradora – a partir da decadência aurífera terá como consequência certa estagnação do médio São Francisco e a forçosa necessidade de diversificar suas atividades econômicas. Em fins do século XVIII, a vocação agropecuária do sertão do rio São Francisco já estava inteiramente consolidada.

No século XIX, prevalece a economia de subsistência e a exploração de recursos vegetais — frutas silvestres, ervas medicinais, madeiras de lei, palmeiras, etc. — animais de caça e minerais: ouro, diamante e salitre. A agricultura de subsistência com a consequente comercialização do excedente produziu milho, feijão, cana-de-açúcar e o algodão. Este último produto vai ser favorecido na segunda metade do século XIX pela instalação de várias indústrias têxteis que transformam o sertão sanfranciscano no maior fornecedor de matéria-prima e em mercado consumidor de tecidos produzidos pelas fábricas mineiras.

Esse comércio se fazia principalmente pelos rios trafegados por incontáveis barcas e canoas desde o século XVIII. Por meio dessas pequenas embarcações se fazia o comércio entre Juazeiro - na Bahia - e Januária - em Minas Gerais e subsequentemente entre Guaicuí e Pirapora. Assim, em 1847, trafegavam no rio São Francisco 54 barcas.

Os barcos a vapor dinamizavam o comércio e o transporte na região a partir da segunda metade do século. Em 1870, calculavam-se entre 250 a 300 embarcações percorrendo aquele rio. No final do século XIX -  já na república - o estado de Minas Gerais criou a Companhia Viação Central do Brasil – mais tarde Empresa Banco Viação do Brasil –, com o intuito de promover o transporte fluvial da bacia do rio São Francisco.

Em setembro de 1892, o Banco Viação do Brasil contava nos rios das Velhas e São Francisco com quatro embarcações de aço movidas a vapor, dois navios de madeira e o vapor Saldanha Marinho, adquirido por volta de 1890.

No início do século XX, a cidade de Pirapora, anteriormente favorecida pela instalação do depósito da empresa Cedro Cachoeira, passou a ser a principal cidade da região, posição fortalecida com a chegada da estrada de ferro, em 1911, vindo a substituir desta forma a cidade de Januária. Nos novecentos, as relações comerciais com a Bahia continuaram fortes. Os vapores continuaram como os grandes transportadores de mercadorias durante toda a primeira metade do século.

Importante salientar que, devido às constantes destruições das matas ciliares do rio São Francisco e de seus afluentes, a profundidade de seu espelho d’água vem diminuindo de ano para ano, causando o surgimento de bancos de areias que prejudicam a sua navegabilidade. O final do século XX assiste ao fim da era dos vapores transportadores de passageiros e mercadorias.

As escolas de aprendizes marinheiros surgidas na segunda metade século XIX se espalharam pelas cidades litorâneas, chegando a 18 instituições durante o Império. No início do século XX, após reformulação, somavam 17 escolas.

É neste contexto que surge a Escola de aprendizes Marinheiros de Buritizeiro, à época pertencente à Pirapora[1]


A verba destinada aos estudos para a fundação da Escola de Aprendizes Marinheiros foi definida em orçamento do Ministério da Marinha para 1910, conforme autorização dada ao Presidente da República em função do artigo 2º n. VI do Projeto n.º 297, aprovado no Congresso Nacional em 13 de novembro de 1908.[1]

Art. 2º O Presidente da República fica autorisado:
VI – a mandar proceder aos estudos necessários para a fundação de uma Escola de Aprendizes Marinheiros em Pirapóra, terminus da Estrada de Ferro Central do Brasil ou em suas proximidades, correndo a despesa por conta das verbas 8. 27ª e 28ª do orçamento da Marinha para o exercício de 1909. (SENNA, 1911, p.86).

Na discussão ocorrida na Câmara no mês de novembro de 1908 - referente às emendas sobre o orçamento da Marinha para a criação da Escola em Pirapora - o Deputado José Carlos de Carvalho foi contra a emenda. Defenderam a emenda os senhores Rodolpho Paixão, seu autor e Homero Baptista relator do parecer.   

Mesmo aprovada a construção da Escola de Aprendizes Marinheiros, algumas vozes discordantes faziam troças sobre a instalação do estabelecimento de ensino da Marinha em território mineiro, no interior do país. Segundo o Deputado José Carlos, havia um engano, a cidade a ser contemplada deveria ser Mar de Espanha e não Pirapora.

Andam há muito tempo a troçar a escola de aprendizes marinheiros em Pirapora... Percebe-se logo, com as referencias ao decantado Mar de Hespanha, que, a despeito do local em nheengatu, afirmar que é o salto do peixe e sabermos todos que peixe, no mínimo, requer um ribeirão, pois só piabas e trhiras vivem em aguas inferiores, Pirapora não é muito próprio para escola de marinhagem...
Desconfio que eles desclassifiquem o S. Francisco, que toda gente chama logo de magestoso, pondo-o em paralelo com o rio das Moças, das Maracanãs, no máximo com o Parahyba, ainda assim conhecendo deste somente o trecho marginado pela Central...
Alem disso eles julgam que só a costa do paiz é que póde fornecer menores aprendizes e que os menores das escolas de marinhagem se fazem marujos arrostando desde logo o oceano...
Que diacho! A coisa não presta pra trocadilhos sem um triste recibo do quanto conhecemos nossas coisas... (Jornal O Paiz, 3 de dezembro de 1909, p.2, col.6).


O projeto do conjunto da Escola de Aprendizes Marinheiros foi elaborado pelo arquiteto de origem italiana, Miguel Micussi, ficando a coordenação das obras – iniciadas em 6 de maio de 1909 - sobre a responsabilidade do engenheiro Capitão de Fragata Tancredo Burlamaqui de Moura. Segundo o Jornal Correio da Manhã, as obras foram iniciadas de fato em 15 março de 1910, conforme inscrição encontrada  na entrada do prédio principal da Escola .[2]

A construção dos imóveis foi concluída em 28 de abril de 1911 e em 13 de junho daquele ano, o Comandante Tancredo Burlamaqui, empreendeu a inauguração da nova Escola de Aprendizes Marinheiros.

A Escola começou a funcionar efetivamente somente em 21 de abril de 1913, contando inicialmente com 20 alunos. Esse número aumentou durante o ano de 1913, chegando a 82 alunos segundo Relatório do Ministério da Marinha[3] ou 94, conforme o exposto na “Revista Marítima Brazileira”[4]

Única escola de marinheiros em território mineiro, o complexo arquitetônico construído pela Marinha durante os anos de 1910-1911, funcionou cerca de sete anos apenas, fechando em 9 de dezembro de 1920.

AVISO N. 4.074, DE 9 DE DEZeMBRO DE 1920

manda FECHAR A Escola de Aprendizes Marinheiros de Pirapóra.
Snr. Inspector de Marinha. – Tendo resolvido mandar fechar a Escola de Aprendizes Marinheiros do Estado de Minas Geraes, em Pirapóra, assim vos declaro para os devidos efeitos.
Saúde e Fraternidade.
Joaquim Ferreira Chaves.
(RELATÓRIO apresentado ao Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo Dr. Joaquim Ferreira Chaves Ministro de Estado dos Negócios da marinha em abril de 1921, rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1921,p. 317).


No entanto, apesar da prematura falência, a Escola tornou-se um marco da história da região e da marinha brasileira.

Logo em seguida, em 1922, o conjunto foi transferido em regime de comodato para o governo de Minas Gerais, passando a abrigar o Hospital Regional Carlos Chaga, outro importante estabelecimento destinado ao combate às doenças na comunidade ribeirinha. Em meados de abril de 1922, as obras de adaptação da antiga escola para sediar o hospital, executadas pelo engenheiro José Maciel de Paiva, já se encontravam em fase de conclusão.

A inauguração do Hospital Regional - um importante acontecimento para o município de Pirapora e região – ocorreu entre os dias 7 e 11 de outubro de 1922, quando da visita do Presidente da República Epitácio Pessoa[5], do Presidente da República eleito, Arthur Bernardes, do Presidente do Estado Raul Soares e do diretor Samuel Libânio.

Em 1939, por meio do decreto-lei federal n.° 1.569, de seis de outubro, assinado pelo presidente Getúlio Vargas, o conjunto foi definitivamente repassado ao Estado de Minas Gerais em troca de um prédio em Pirapora que se destinaria a sede da Capitania dos Portos no estado.

Apesar de ter se tornado referência regional, o Hospital Carlos Chagas foi fechado, provavelmente devido à inauguração de um hospital municipal em Pirapora em fins dos anos 1940 e início de 1950. Sabe-se que em 1944, o hospital ainda funcionava no prédio da antiga Escola de Aprendizes de Marinheiros.

Em 1951, o conjunto de imóveis da antiga Escola de Aprendizes Marinheiros foi destinado à sede de uma das Escolas Caio Martins - importante instituição assistencialista do estado de Minas Gerais, que teve sua origem em 1948, quando a matriz das escolas foi instalada pela Polícia Militar na Fazenda Santa Tereza, no município de Esmeraldas.

A criação do novo estabelecimento de ensino em Buritizeiro ocorreu em 2 de janeiro de 1952, por Manoel José de Almeida.

As Escolas Caio Martins foram transformadas pela lei n.° 6.514, de 10 de dezembro de 1974, em Fundação Educacional Caio Martins – Fucam - vinculada à Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude (SEEJ), subdividida em seis centros educacionais: Buritizeiro, Carinhanha, Esmeraldas, Januária, São Francisco e Urucuia.

Atualmente a Fundação encontra-se subordinada à Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social – SEDESE –, tendo como principal objetivo “o desenvolvimento sustentável e integrado de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social, prioritariamente da zona rural, para a participação cidadã.”

O Centro Educacional de Buritizeiro – Fucam –, sediado no antigo prédio da Escola de Aprendizes Marinheiros, apresenta salas de aulas para oficinas de educação complementar, cozinha, refeitório, biblioteca, sala da sede do 61º Grupo Escoteiro Hélio Marcos, salão para eventos e, na parte externa, quadras de areia e de futebol. O curso ensina artesanato de raiz, informática, música, olericultura orgânica, jardinagem, esportes, além de fornecer apoio pedagógico e ao escotismo. Nos seus 2.117 hectares das fazendas Varginha e Porto, a Escola conta com horticultura, bovinocultura e avicultura e realiza visitas guiadas voltadas para o ensino, pesquisa e extensão.

O conjunto arquitetônico e paisagístico da antiga Escola de Aprendizes de Marinheiros se destaca por ter servido de sede a três instituições de importância inquestionável para a região sanfranciscana:

- A Escola de Aprendizes Marinheiros – única escola desta categoria criada em Minas Gerais, devido à importância do comércio fluvial interestadual da região.

- O Hospital Regional Carlos Chagas – importante baluarte na luta contra as epidemias que assolavam o sertão sanfranciscano.

- O Centro Educacional de Buritizeiro da Fucam - ainda hoje uma das mais prestigiadas instituições de ensino de Minas Gerais.

O conjunto arquitetônico é a junção de suas funções ao longo do tempo, numa sobreposição emoldurada pelo Rio São Francisco e o Sertão. O sertanejo, seu habitante aprendiz, determinou os usos na medida de suas necessidades, impregnando os espaços de um simbolismo além da pedra e cal. À qualidade arquitetônica do conjunto soma-se toda uma aura atribuída desde a sua origem para servir e engrandecer o homem sanfranciscano. Seu valor histórico e arquitetônico desponta como um importante marco da cultural da Região Norte de Minas Gerais.



[1] O distrito São Francisco de Pirapora passa a ser denominado Buritizeiro pela Lei Estadual n.º 843, de 07 de setembro de 1923.
- A emancipação veio em 30 de dezembro de 1962, pela lei 2.764, com o nome de Buritizeiro.
[2] Informação encontrada em inscrição pelos jornalistas do Jornal Correio da Manhã existente na entrada do prédio principal.  (Jornal O Correio da Manhã, 19 de junho de 1911, p.2).
[3] Brasil, Ministério da Marinha, 1913, p.306.
Em nota no Jornal do Brasil de 4 de Setembro de 1913, p.9, há informação de que a Escola possuía matriculados, 88 alunos.
[4]  Revista Marítima Brazileira, dezembro de 1913, vol.XXXIII, n.º 6, p. 767.
Em julho de 1913, a escola possuía 24 alunos. Outros 23 novos alunos vieram do Rio de Janeiro e outros pontos. (Jornal O Pirapora, 6 de julho de 1913, p.2).
[5] A matéria sobre a inauguração foi publicada em 11 de outubro e não informa a data da inauguração. (Jornal O Paiz, 11 de outubro de 1922, p.2).










quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BARCOS A VAPOR NO RIO DAS VELHAS E SÃO FRANCISCO

BARCOS A VAPOR NO RIO DAS VELHAS E SÃO FRANCISCO
Autor: Carlos Henrique Rangel




Em 1832, o Governo Regencial por meio de decreto, autorizou a navegação dos rios Doce e Jequitinhonha com a intensão de promover a organização de companhias navais nacionais ou estrangeiras.[1]
Em 26 de agosto de 1833, o Decreto n.º 34, sancionou e mandou que se executasse a resolução da Assembleia Geral que concedia ao inglês Guilherme Kopke, o privilégio exclusivo da navegação no rio das Velhas por um período de dez anos.[2] Em 14 de novembro do ano seguinte – 1834 – outro decreto confirmou o monopólio em favor de Kopke.[3] 

Trafegavam no rio São Francisco - em 1847 - 54 barcas.[4] Em 1870 – calculavam-se entre duzentas e cinquenta a trezentas embarcações percorrendo o rio São Francisco.

Importante destacar a utilização de vapores para dinamizar o transporte de passageiros e produtos da região sanfranciscana para o litoral. Dom Pedro II, que se interessava pela viabilização do transporte fluvial na região, encarregou ao engenheiro Henrique Guilherme Halfeld, estudos objetivando a sua navegação por vapores até o oceano Atlântico.




O vapor “Saldanha Marinho”, construído em 1867, na cidade francesa de Bordeaux[6] foi arrendado pela Cia Cedro Cachoeira. Em 1869, o engenheiro Henrique Dumont – pai de Santos Dumont – comandou uma viagem do vapor Saldanha Marinho de Sabará à fazenda Jaguara. Em 28 de setembro de 1870, o vapor Saldanha Marinho recebia instruções para se deslocar do porto do Jaguara pelo rio das Velhas ao São Francisco.  Essa primeira viagem do vapor ao rio São Francisco iniciou-se em 10 de janeiro de 1871, alcançando Guaicuí em 3 de fevereiro daquele ano.[7]

A Companhia Cedro Cachoeira dinamizou o comércio com a Bahia via São Francisco utilizando o vapor “Saldanha Marinho” para o transporte de tecidos e compra de algodão. Esse barco transportava algodão de Juazeiro para Guaicuí e levava para a Bahia os tecidos fabricados. Atualmente o Saldanha Marinho encontra-se em Juazeiro – Bahia - estacionado em uma praça da cidade:

Para abastecer-se convenientemente, a Companhia decidiu intensificar o serviço de compra de algodão no Nordeste. (...) o vapor “Saldanha Marinho” esteve à frente da Companhia para levar tecidos e trazer algodão, viajando até Juazeiro. Esse famoso vapor, de muita pequena tonelagem, mas o pioneiro da navegação da bacia do S. Francisco, nos períodos de águas altas viajava de Sabará até Guaicuí e daí, durante todo o ano, até Juazeiro, terminal norte da navegação do S. Francisco. (MASCARENHAS, sd. p. 159).


Ainda em fins do século XIX, o Estado de Minas Gerais criou a Companhia Viação Central do Brasil – mais tarde Empresa Banco Viação do Brasil – com o intuito de promover o transporte fluvial da bacia do rio São Francisco.

Em setembro de 1892, o Banco Viação do Brasil contava no rio das Velhas e no São Francisco, com quatro embarcações de aço movidas a vapor, dois navios de madeira e o vapor Saldanha Marinho adquirido por volta de 1890.[8]

Em 22 de setembro de 1905, essa empresa foi transferida para o Estado da Bahia recebendo a denominação de Empresa Viação do São Francisco. Essa nova empresa durante décadas se responsabilizou pela navegação no rio entre as cidades de Juazeiro, Pirapora e afluentes, sendo proprietária dos vapores: Antônio Olinto, Amaro Cavalcanti, Barão de Cotegipe, Cordeiro de Miranda[9], Costa Pereira (ex-Pirapora), Delsuc Moscoso, Djalma Dutra (ex- Prudente de Morais), Juracy Magalhães, Matta Machado[10], Saldanha Marinho, Siqueira Campos (ex- Carinhanha); dentre outros.[11]

O vapor Benjamim Guimarães foi construído em 1913, pelo estaleiro norte-americano James Rees & Sons e navegou alguns anos no rio Amazonas sendo transferido para o rio São Francisco a partir de 1920.[12] Atualmente transporta turistas pelo rio, sendo o único em funcionamento.[13]

A região do São Francisco entra o século XX com fortes relações comerciais com a Bahia, reforçadas pela instalação ainda no século passado, da navegação a vapor. Já em 1909, onze vapores baianos navegavam as águas do grande rio transportando mercadorias para Juazeiro.

Este comércio com a Bahia, no entanto, foi reduzido nas décadas seguintes, principalmente por causa da instalação da Estrada de Ferro Central do Brasil, que possibilitou a aproximação com centros como Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

A Companhia Indústria e Viação de Pirapora - CIVP - responsável pela implantação de um parque industrial na cidade de Pirapora surgiu em 1917. Em 31 de agosto de 1918, essa empresa firmou contrato com o Governo Federal objetivando o transporte fluvial no rio São Francisco, recebendo para esse fim, o vapor Wenceslau Braz.[14] Sediada no Rio de Janeiro, tendo instalações em Pirapora, a CIVP exercia atividades industriais e comerciais na região com uma frota admirável, composta dos vapores: Bahia, Benjamim Guimarães, Coronel Ramos, Francisco Bispo, Iguassu, Júlio Vito, Otávio Carneiro, Santa Clara, São Francisco, São Salvador, Sertaneja e o já citado Wenceslau Braz.[15]

Em 1925, o governo do Estado de Minas Gerais criou a empresa Navegação Mineira do Rio São Francisco ligada à Secretaria de Viação e Obras Públicas. Sua frota foi composta pelos vapores: Wenceslau Braz, Affonso Arinos[16], Antônio Nascimento, Baependi, Curvello, Engenheiro Halfeld, Fernão Dias, Governador Valadares, (ex-Pires do Rio), Mauá, Paracatu[17] e Raul Soares (ex- Melo Viana).[18] A iniciativa do Governo Estadual reconhecia a importância do transporte fluvial do rio São Francisco e visava implementá-la.

Em 1963, foi constituída a FRANAVE – Companhia de Navegação do São Francisco – que encampou os barcos que percorriam o rio São Francisco entre o século XIX e meados do século XX e que ao longo dos anos pertenceram a várias companhias de navegação.[19]

A FRANAVE atuou no rio São Francisco e em alguns afluentes transportando cargas e passageiros. Seu acervo se constituía de chatas, pequenas embarcações e muitos dos já citados vapores: Benjamim Guimarães, São Francisco, São Salvador, Otavio Carneiro, Sertanejo, Iguassu, Coronel Ramos, Bahia, Comendador Peixoto, Francisco Bispo, Engenheiro Halfeld[20], Wenceslau Braz, Fernandes da Cunha, Barão de Cotegipe, Djalma Dutra, Delsuc Moscoso, Siqueira Campos, Cordeiro de Miranda e Jasen Melo.  No final dos anos 1960, a Companhia de Navegação do São Francisco possuía vinte e uma (21) chatas fazendo o trajeto de Pirapora a Juazeiro.[21]

No início do século XXI a FRANAVE possuía em Joazeiro, um estaleiro para construção de navios e manutenção da frota composta de 8 empurradores de 540 HP e 62 chatas.[22]

Em 22 de janeiro de 2007, a FRANAVE foi extinta pelo Decreto Federal n.º 6.020.[23]

Ainda antes da extinção da FRANAVE, sobre o pretexto de se modernizar a navegação do rio São Francisco, toda a frota de vapores foi desativada. Em 23 de setembro de 1984, o Jornal do Brasil relatou um dos últimos episódios da saga dos vapores: “A paralisação total dos velhos vapores naquela região aconteceu com o incêndio do “gaiola” São Francisco, no porto de Pirapora, e selou a vontade antiga da Franave de pôr fim ao transporte de passageiros.”[24]

O fim da Franave teve como consequência o fim da movimentação de cargas do Porto de Pirapora.[25]

A navegação no rio São Francisco é atualmente realizada pela empresa Icofort[26], possuidora de dois comboios de empurradores e chatas, que levam algodão para os municípios baianos de Ibotirama e Juazeiro.[27] Após a construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Três Marias em 1961 e da barragem da Usina Hidrelétrica de Sobradinho (BA) em 1978, a navegação dos vapores foi bastante prejudicada. Outros problemas também afetam o Rio São Francisco e paralelamente a sua navegação: a falta de esgotos residenciais e industriais tratados e o assoreamento.






[1] O rio Jequitinhonha é navegável em alguns trechos por canoas e pequenos barcos a vela. (CRAVO. Telio Anísio. GODOY, Marcelo Magalhães.  Por Estradas e Caminhos no Interior do Brasil Oitocentista: Viajantes e o Desenvolvimento da Infraestrutura de Transportes de Minas Gerais. – CEDEPLAR/FACE/UFMG, S.d., p.5).
[2] A Bacia Hidrográfica do rio das Velhas é atualmente composta por 51 municípios com uma população quase que totalmente urbana.
[3] Guilherme  ou William kopke construiu em Sabará, um barco a vapor e máquina, entre os anos 1833-1834.  (MATTA MACHADO. Dezembro de 2011, p.113).
[4]o viajante inglês -Richard Burton - informava em 1867, a existência de uma barca de 15 metros de comprimento por 5 de largura. Menciona a barca denominada “Nossa Senhora da Conceição da Prata” construída em Januária, que que tinha 27 metros de comprimento e 2 de largura. (BURTON, 1977, p. 171).
[6] Bordeaux ou Bordéus fica no departamento da Gironda - da região Aquitânia-Limusino-Poitou-Charentes, no sudoeste de França. 
[7] DINIZ, 2009, p. 115
[8] Inicialmente o vapor se chamava Conselheiro Saldanha. (MATTA MACHADO, 2002, p.103).  Seu nome é uma homenagem ao conselheiro Joaquim Saldanha Marinho, que foi presidente da província de Minas Gerais. Saldanha Marinho faleceu em 1895.  (DINIZ, 2009, p. 121).  O Saldanha Marinho foi o primeiro vapor adquirido pela Companhia Viação Central do Brasil. (Relatorio Apresentado á Assembléa Legislativa da Provincia de Minas Geraes na sessão extraordinaria de 2 de março de 1871 pelo Presidente, o Illm. e Exm. Sr. Doutor Antonio Luiz Affonso de Carvalho. Ouro Preto, Typ. de J.F. de Paula Castro, 1871, P.75). Em abril de 1890, o vapor já fazia o percurso rio das Velhas e São Francisco. (MATTA MACHADO, 2011, p. 117). Em 1943, o Saldanha Marinho apresentava problemas estruturais e não navega mais no São Francisco. Em 1971, é transferido para uma praça em Joazeiro. Passou por reformas na década de 1990. Em 2000, passou a servir de restaurante e pizzaria.
[9] O vapor Cordeiro de Miranda afundou em fevereiro de 1943. (Jornal Gazeta, Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1943).
[10] O vapor Mata Machado – de fabricação inglesa – foi transportado de Salvador até a cidade de Alagoinhas, por trem. De Alagoinhas foi levado a Juazeiro em carro de bois numa viagem que durou cinco anos. (Revista o Cruzeiro, 1 de dezembro de 1971, p. 87).
[11] 45 vapores navegaram no Médio e Submédio São Francisco. (DINIZ, 2009, p. 119).
[12] (MATA-MACHADO, 1991, p.74, 127, 132).
[13] O Vapor Benjamim Guimarães foi tombado pelo IEPHA/MG – Decreto Estadual nº 24840, de 1º de agosto de 1985. Publicado no dia 02 de agosto de 1985 no diário oficial do executivo e legislativo e publicações de terceiros - Minas Gerais - página 1, col 1. livros do tombo I.
Com capacidade para transportar até 140 pessoas, entre tripulantes e passageiros, o vapor Benjamim Guimarães navega a chamada área 01: rio, lago e correnteza que não tenham ondas ou ventos fortes. Como características construtivas, o vapor é uma embarcação fluvial de popa quadrada, com máquina a vapor de 60 cv de potência alimentada por lenha, e com uma capacidade máxima de estocagem de 28 toneladas de combustível.
[14] Em 1925, esse vapor foi entregue ao governo do Estado de Minas.
[15] DINIZ, 2009, P. 116.
[16] O Vapor Affonso Arinos naufragou em fevereiro de 1947. (Jornal de Notícias, 7 de fevereiro de 1947, p.3).
[17] o vapor Paracatu foi lançado em serviço no rio São Francisco em 1896. (Jornal do Brasil, 17 de julho de 1960, p.8).
[18]A empresa Navegação e Comércio do São Francisco S.A., iniciou suas atividades em Pirapora em 1937, comandada pelo empresário Júlio Mourão Guimarães sendo extinta em 1943. (Diniz, 2009, p.116).
[19] Destacando-se dentre elas: a Companhia Viação Central do Brasil (mais tarde Banco Viação Brasil), a Empresa Viação Brasil; a Viação Baiana do São Francisco; a Empresa de Navegação e Comércio do São Francisco; a Empresa Fluvial Ltda.; a Companhia Indústria e Viação Pirapora e a Navegação do rio são Francisco. (DINIZ, 2009, p.113,114). A FRANAVE foi instalada em Pirapora em 1965. (SILVA, 2000, p.221).
[20] em seus melhores anos era considerado o mais luxuoso do Rio São Francisco. Em 1953 encontrava-se encalhado e abandonado. (Alterosa, 15 de março de 1953, p.32).
[21] Revista O Cruzeiro, 6 de abril de 1968, p. 102.
[22] CAMELO FILHO, 2005, p. 85.
[23] Há registros de 45 vapores que navegaram no rio São Francisco de 1871 aos dias de hoje. (DINIZ, 2009,P.119).
[24] DHOMÉ, Alain.  NAS Águas do Velho Chico. Belo Horizonte: Edição do Autor, 2014, p.52.
[25] Segundo Souza, não existe movimentação no porto de Pirapora desde 2000. (SOUZA, Antônio Carlos da Silva. Pirapora, uma cidade média no Norte de Minas Gerais. Belo Horizonte: PUC, Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2008, p. 84).
[26] A Icofort,- Indústria e Comércio de Rações Ltda. foi fundada pela família Barreto na cidade de Fortaleza - Ceará – no ano de 1989.
[27]dados de 2008.  (SOUZa, 2008, p. 83).