PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 19 ANOS

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 19 ANOS

quarta-feira, 25 de julho de 2018

CATAGUASES - O ESQUECIMENTO DO PATRIMÔNIO CULTURAL






PARA NÃO ESQUECER
Autor: Carlos Henrique Rangel


Tentei falar das memórias e dos homens velhos.
Tentei falar da riqueza contida em corpos gastos pelo tempo que em suas aparentes fraquezas são verdadeiras fortalezas.
Tentei alertar para o descaso e esquecimento dos que não esquecem porque só sabem lembrar...
Falei dos que falam do passado como se fosse presente...
E são. 
Verdadeiros presentes para quem ouve...
Quis ser porta-voz dos que têm muitas vozes em suas mentes e que sabem das origens.
Quis levantar o estandarte dos sábios esquecidos para não esquecer mais...
Quanta sabedoria caminha pelas ruas ignoradas pelos que não sabem e não querem saber?
Quantas histórias perdidas deitadas nos solos quietos dos lugares dos mortos?
Quantas versões de fatos arquivadas no esquecimento?
Quantos dramas individuais e coletivos desterrados para o nada?
Tentei falar dos que suaram os monumentos...
Dos que construíram fontes onde hoje bebemos.
Quis legitimar os legítimos guardiões do que somos.
Quis me redimir pelo que esqueci por nunca ter lembrado.


SOMBRAS

Autor: Carlos Henrique Rangel

Sombras da noite.

Os que foram ainda estão.

Choram o passado no ranger das portas.

Ninguém os vê e estão lá

Ensaiando a vida que não é mais.

Há senhores e servos.

Cúmplices do tempo.

Solidários do que foi...

Somos intrusos, invasores de cotidianos antigos.

O casarão não lhes pertence

E a nós muito menos.

Não sabemos o suor das paredes...

As lágrimas nas janelas...

São deles os sangues na poeira.

As dores no assoalho...

Nós...

Não apreendemos nada.

Não aprendemos nada.

As sombras da noite continuam as rotinas do tempo

Enquanto houver vestígios do tempo...

Enquanto houver tempo.




QUANDO VEJO


Autor: Carlos Henrique Rangel

Quando vejo aquele casarão

Vejo a origem o que fui

O que sou

E me sinto em casa.

E me sinto bem.

Quando vejo aquele casarão

Sem telhado

Vejo o que fui

O que sou

E ainda me sinto em casa

E me sinto bem.

Quando vejo aquele casarão

Sem telhado, sem janela

Vejo o que sou

E ainda me sinto em casa

E me sinto bem.

Quando vejo aquele casarão

Sem telhado, sem janela,

Sem paredes...

Ainda...

Ainda...

Me sinto em casa

Mas não me sinto bem.

Quando não vejo mais o casarão

Sem telhado, sem suas janelas,

Sem suas paredes...

Sem vida

Não vejo a origem.

Não sei o que fui

E o que sou.

Já não tenho casa...

Não sinto...

Já não sinto mais nada...

Não sou...


FIM DO MUNDO
“Quando o altar estiver vazio.
Quando a  guilhotina
For trocada por basculante...
Quando o piso  não for de madeira.
Quando a última igreja cair...
Quando não houver mais coretos,
Nem praças, nem sobrados... Casarões
Quando o fogo consumir
o derradeiro documento.
Quando não conseguir mais lembrar
De quem sou...
Sentarei nas ruínas de um muro
E chorarei o Fim do Mundo.”
                                                              (Proteus).

PERGUNTAS
O que resta quando a omissão se torna a regra?
Quando alguns poucos resolvem dizer o que importa?
O que será das inúmeras vozes quando somente a voz dos descompromissados prevalecer?
Que memória teremos quando os suportes se forem e não conseguirmos nos encontrar em nada mais?
Será esse o fim de tudo?
É assim que tem que ser?  (Proteus).


 MAS A LUTA CONTINUA...
SEMPRE CONTINUA...





sábado, 21 de julho de 2018

CATAGUASES -MUITO ALÉM DO MODERNO - EM DEFESA DO PATRIMÔNIO COLONIAL E ECLÉTICO DE CATAGUASES



AINDA A DEFESA DO PATRIMÔNIO COLONIAL E ECLÉTICO DE CATAGUASES.













Uma cidade não é feita apenas de uma categoria estilística de bens imóveis legitimados por um órgão maior – IPHAN (Órgão Federal) ou IEPHA (Órgão Estadual).

A cultura de um povo e a produção de bens culturais, extrapola um estilo arquitetônico ou artístico e se constitui de bens imateriais e materiais diversos, porque não existe na verdade um povo no singular e sim povos/comunidades que possuem identidades próprias e produzem suportes de memória diversos e ricos mesmo em um espaço limitado pelo município/cidade.

A alegação de que bens culturais fora do perímetro de tombamento dos conjuntos tombados pelo IPHAN - não estão protegidos ou não interessam - é um grande erro cometido durante muitos anos por municípios detentores de bens protegidos em nível federal.

O Estado de Minas Gerais concentra inúmeras e diversificadas manifestações culturais espalhadas por toda sua extensão territorial, fruto de suas raízes históricas, suas potencialidades socioeconômica e rica herança cultural.

O empenho para a criação de uma instituição destinada à preservação do patrimônio cultural coube aos intelectuais modernistas, encantados com a homogeneidade das cidades do período colonial mineiro, que preservavam praticamente intacto o seu acervo arquitetônico e artístico do século XVIII. Graças a estes expoentes da intelectualidade brasileira dos anos vinte, foi criado em 1936 o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN, regulamentado pelo Decreto –Lei n.º 25 de 30 de novembro de 1937. Este órgão de Proteção sustentado pelo instituto do Tombamento e sob a direção do Dr. Rodrigo Melo Franco de Andrade empreendeu a proteção dos grandes núcleos históricos e dos monumentos mais expressivos de nossa cultura até os anos 70 superando dificuldades e se consolidando.


Durante décadas, o IPHAN foi a única proteção os bens culturais do país, utilizando o instituto do tombamento – único instrumento de proteção existente até o ano de 1988.


A relação com os municípios por muito tempo foi mesclada por um paternalismo doutrinário e autoritário que teve como consequência uma dependência e submissão que impedia que os municípios das ditas “cidades Históricas” entendessem que havia patrimônio cultural além das fronteiras impostas e definidas pelo órgão federal. Essa visão durou pouco mais de cinquenta anos e a muito custo foi rompida.

Em abril 1970, o encontro de Governadores realizado em Brasília definiu que os Estados e municípios deveriam compartilhar a proteção do Patrimônio de expressão local, criando os seus órgãos de preservação.

Seguindo a orientação do “Encontro de Brasília”, em 1971 o governo do Estado de Minas Gerais, criou o IEPHA/MG, fundação integrante do Sistema Estadual de Cultura com a atribuição básica de preservar o patrimônio cultural do Estado empreendendo a identificação, registro, fiscalização e restauração dos bens culturais tangíveis e a partir de 2002, dos bens imateriais.  

Guardando as proporções, a mesma visão paternalista/autoritária acabou se impondo aos municípios com bens tombados em nível estadual durante algumas décadas, somente rompida a partir da descentralização da proteção do patrimônio cultural ocorrida por meio do Programa ICMS Patrimônio Cultural criado em dezembro de 1995, por meio da denominada Lei Robin Hood. Esse, ainda hoje revolucionário programa de proteção incentivou os municípios mineiros a criar suas leis e institutos de proteção do patrimônio cultural local e por esse motivo temos hoje mais de setecentos municípios com Conselhos Municipais de Proteção do Patrimônio Cultural e mais de quatro mil bens culturais protegidos pelo tombamento e pelo Registro do Patrimônio Imaterial.

A cidade de Cataguases que tem um conjunto de edificações no estilo Moderno protegidas pelo IPHAN, não é só constituída desse patrimônio material reconhecido pelo ÓRGÃO FEDERAL.

Não. Cataguases surgiu muito antes desta produção – importante sim – mas não única.

Se o IPHAN protegeu os bens culturais Modernos isso não quer dizer que os outros estilos arquitetônicos e artísticos não são importantes. 

Cabe ao Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Cataguases proteger esses resquícios do patrimônio mais antigo de estilos que remontam à origem da cidade e parar de usar o tombamento do IPHAN como desculpa para não agir.

Os resquícios coloniais do século XIX e os casarões ecléticos do início do século XX, hoje ameaçados pela omissão e negligência do Conselho Municipal do Patrimônio Cultural que se esconde por trás do tombamento federal para justificar a sua “não ação”, precisam e devem ser protegidos. 


Uma coisa é o tombamento do IPHAN que tem uma motivação específica. Outra coisa é o patrimônio que só interessa ao município. Este é responsabilidade do instituto local que foi criado por esse motivo.

Cataguases não é somente uma cidade moderna. Vai além.

O IPHAN cumpriu o seu papel de proteger aquilo que extrapola o interesse local e interessa a todos os brasileiros enquanto um povo diverso e rico em cultura.

Cabe ao município proteger o que interessa a sua localidade.

Aquilo que fala e transpira a alma de Cataguases muito além do moderno. 


(Carlos Henrique Rangel - Historiador - Conselheiro do CONEP).


























terça-feira, 17 de julho de 2018

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL - A CIDADE DO SONHO


A CIDADE DO SONHO

Autor: Carlos Henrique Rangel

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livre




Em uma cidade não muito distante, havia um homem que era muito rico, dono de muitas casas e lojas chamado Luciano. Um dia Luciano resolveu demolir uma velha casa que ficava no centro da cidade.



-          Uma cidade precisa crescer... E para crescer é preciso fazer coisas novas e modernas. O futuro é o concreto e os arranha-céus. Cidade progressista é aquela que tem grandes edifícios de concreto. Progresso, progresso, é disto que precisamos, uma cidade que acompanha o seu tempo...Por isso vou demolir esta velha casa e construir um lindo prédio. Nossa cidade não pode parar no tempo. Temos que acompanhar o progresso do mundo... – Dizia a todos o senhor Luciano com orgulho.



Muitas pessoas não se importaram. Alguns garotos e velhos não gostaram.



-          É um absurdo o que o Senhor Luciano vai fazer. Ele não pode demolir o casarão. – Disse o menino Gabriel.



-          Bobagem existem tantos... Um não vai fazer falta...- Falou um homem.



-          Vai sim... É assim que começa, primeiro derrubam um, depois outro... Uma casa ali outra acolá... E ai lá se vai a nossa memória... – Rebateu o velho senhor Juca.



-          Deixem que ele faça o que quiser, a casa é dele... – Disse uma moça.



- Não acho isto certo, com a destruição do casarão toda a cidade perde... – Falou o menino Gabriel.



-          Isto mesmo, temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará. – Disse Pedro, o dono do cinema local.



-          Vocês deviam é cuidar das suas vidas, deixem o homem fazer o que quiser. – Falou novamente a moça.



- Isto não está certo... Ele não tem o direito de destruir parte da história de nossa cidade...



-          Tudo bem, mas o que vamos fazer?... O que podemos fazer? – Perguntou o senhor Juca.



- Não há nada a fazer... A não ser que vocês tenham muito dinheiro para comprar o casarão... – Disse um homem rindo.


-          Vamos falar com o Senhor Luciano, quem sabe conseguimos convencê-lo. – Falou Gabriel.



-          Boa ideia menino. Vamos lá na mansão falar com o Senhor Luciano, tenho certeza que ele vai mudar de ideia.



-          Isto mesmo temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará.... Estranho, acho que alguém já disse isto...



Montaram uma comissão e foram até a mansão do homem rico, pedir para que não destruísse a casa.



-   Quanta gente, a que devo a honra desta visita? – Perguntou Luciano.



-  Senhor Luciano, estamos aqui para pedir que em nome da história de nossa cidade não destrua o casarão... – Disse Gabriel.



-          Por que não? Ele é muito velho, já deu o que tinha que dar...



-          Por isto mesmo. Por que é uma casa do tempo em que a cidade nasceu.



-          Quantas coisas aconteceram ali... Alegrias e tristezas. Festas, aniversários... Velórios... – falou o velho senhor Juca.



- Daquelas janelas, quantos olhares viram o tempo passar, a vida passar... – Lamentou outro velho.



-          Lembro da Mariazinha sua avó, linda e faceira na janela sorrindo para todos que passavam...Os homens passavam devagar olhando apaixonados... – Continuou o velho senhor Juca.



-          Era linda...  Olhos brilhantes, lábios vermelhos como morangos... Dançávamos no grande salão nas festas de aniversários... A banda tocava lindas canções de amor e Mariazinha flutuava... Namorei ela, lembra?



-    Sim, mas foi o avô do Senhor Luciano que casou com ela...



-          Chega de falar em minha avó que já morreu há muito tempo... A casa está abandonada agora... Ninguém mais vive lá... O que passou, passou... – Gritou Luciano com raiva.



-          Pode ser usada. Nossa cidade precisa de uma Biblioteca Pública.



-          Uma casa de cultura. – Disse um menino.



-          Porque não um museu!? Nossa cidade não tem museu...


-          Chega! Que engraçado, vocês falam da casa como se fosse de todo mundo...Já decidi, vou construir no lugar um prédio enorme, cheio de lojas. E vocês... Saiam da minha casa, me deixem em paz. – Falou Luciano nervoso.

-          Mas Senhor Luciano...



- Chega de mas... O casarão é meu e faço o que quiser... No futuro vocês vão me agradecer...



O grupo foi embora triste por não ter conseguido convencer o homem rico.



-          Que atrevimento deste povo vir aqui na minha casa e me dizer o que eu devo fazer com o casarão... Ora bolas, Biblioteca... Vejam só...



Luciano então fechou a porta de sua casa e foi deitar no sofá da sala ainda com raiva.

E dormiu. E sonhou. Sonhou que estava numa rua barulhenta, cheia de carros, onde quase não se via o Sol por causa dos prédios.



Luciano andava pela rua em meio a multidão nervosa. Havia muita gente. Gente triste e suada por causa do calor que fazia. Luciano olhava para um lado e para o outro e não via uma árvore. Os prédios pareciam iguais. As pessoas pareciam iguais. Caminhou então pela rua até chegar em uma praça. Uma praça sem árvores, com uma igreja enorme de concreto.

Luciano a achou feia. Sentou em um banco da praça e ficou vendo todo aquele barulho, sentindo muito calor e muita saudade de sua cidade.

 -          Que cidade é essa? Que lugar triste e feio. Onde será que estou? – Lamentou sem entender nada.

Resolveu saber perguntando a alguém: Um menino que passava.

-          Ei menino, que cidade é essa?

O menino riu.



-          Ora senhor Luciano, não reconhece? Essa é a sua cidade.


-          Minha cidade? Mas onde estão os casarões? Onde está a Matriz? E a praça?


-          Os casarões foram demolidos, eram muito velhos. A Matriz, ora, o Padre quis uma igreja maior.


-          E a praça? Onde está aquela bela praça cheia de árvores?


-          Está aí, não está vendo?



-          Mas não pode ser... Onde está a casa do Manuel, meu amigo? E a casa da Dona Cotinha...? Onde está a padaria do seu Juca? E o cinema, onde eu costumava ir ver os filmes de aventuras...?

Luciano não conseguia entender. Aquela não parecia a sua cidade.

Não havia mais nada que lembrasse o seu passado. 


- Ei você, O que aconteceu com o cinema? – Perguntou a um transeunte.



-          Ah... Aquele monstrengo? Foi demolido, ninguém mais ia assistir filmes lá.



-          Mas era tão bonito... E a padaria do seu Juca, o que aconteceu com ela?



-          Ora seu Luciano, todo mundo agora compra pão na padaria moderna lá do Supermercado.



-          Eu não entendo mais nada... Onde será que está a minha mansão... Ficava aqui nesta rua...



Saiu andando procurando a sua mansão. Não encontrou.

Em seu lugar havia um feio edifício de vinte andares.



-          Nossa Senhora, cadê a minha casa? Quem foi o atrevido que construiu este prédio aqui?



Saiu caminhando triste pela avenida Principal. Barulhenta e cheia de placas, não lembrava em nada a avenida que conhecia, cheia de árvores e casarões coloridos.

Chegou finalmente enfrente a um velho prédio que estava sendo demolido.



-          O que está acontecendo?



-          Estamos demolindo este prédio. Foi o primeiro da cidade, mas agora não serve mais, vão construir um prédio mais moderno em seu lugar.



-          O primeiro?



-          É, não se lembra Senhor Luciano? O senhor demoliu o casarão que existia aqui e construiu este prédio.



-          Eu? – Perguntou espantado Luciano.



-          Sim Senhor. Depois deste vieram os outros.



-          O padre gostou da idéia e demoliu a velha igreja...



-          O prefeito achou que as árvores da praça e da avenida escureciam a cidade e mandou cortar...

 Ficou melhor não acha?


-          Não, não acho... Faz um calor danado aqui... Não tem sombra, nem canto dos pássaros... O povo parece triste e apressado... Os prédios são feios e iguais...  Não sobrou nenhum casarão? 


-          Claro que não. Nossa cidade é moderna. – Disse o homem.


-          E ser moderno é isso? Não reconhecer mais nada na nossa cidade? É ficar perdido como se estivéssemos em terra estranha?



Luciano começou a chorar... E foi chorando que acordou. Levantou depressa e correu para a janela. Lá fora a cidade brilhava com seus velhos casarões coloridos. A torre da igreja despontava alta e pássaros cantavam nas árvores da avenida. Luciano limpou o suor da testa aliviado e correu para o casarão. Aquele que ele queria demolir e os velhos e garotos queriam salvar.

 Luciano chegou a tempo de impedir a sua demolição.


-          Parem os trabalhos. – Gritou com toda sua força.


-          O senhor não vai mais demolir o casarão? – Perguntou um operário.


-          Não. Este casarão faz parte da nossa história. Vamos transformá-lo em uma biblioteca, ou quem sabe em um museu. O certo é que não será mais demolido e voltará a fazer parte da vida de nossa cidade.


-          E o progresso?


-          Preservar nosso passado também é progresso. Os nossos casarões, sobrados, casas simples, nossas igrejas... Cheios de suor, lágrimas, alegrias, vivências, esperanças e fé do povo é que diferenciam a nossa cidade das outras. Nossas praças e ruas estão impregnadas das vidas de nossos bisavôs, avós e pais e merecem respeito. Nossas festas são as nossas festas... Diferentes das festas das outras cidades vizinhas.  Progresso não é viver em uma cidade sem rosto igual a tantas outras. Progresso é conciliar o velho e o novo, as manifestações tradicionais com as novas tecnologias. Os prédios novos podem ser construídos em outro lugar fora do centro da cidade, sem afetar o nosso passado.


-          Isto mesmo Senhor Luciano. Preservar é crescer com identidade... – Gritou um menino todo alegre.


-      É continuar com dignidade... – Falou o Senhor Juca.



-      Viva o Senhor Luciano! – Gritou um outro senhor.


-    Viva! – Gritaram todos.

E assim, gritando vivas o grupo de preservacionistas, operários e o Senhor Luciano se abraçaram felizes. Alguém trouxe um pandeiro, outros um tambor, uma cuíca e uma viola.

Toda a avenida Principal virou uma grande festa.



FIM


quinta-feira, 12 de julho de 2018

ARAXÁ - EM DEFESA DO PATRIMÔNIO CULTURAL DE ARAXÁ


IEPHA ABRE PROCESSO DE TOMBAMENTO PARA PROTEGER O CASARÃO DE ARAXÁ



JOSÉ E O CASARÃO
Uma História sem fim...
Autor: Carlos Henrique Rangel 


José era um operário destes que fazem casas.
Que destroem casas.
Erguem edifícios onde havia casas.

Neste dia José não estava fazendo nem construindo edifícios.
Junto com outros operários estava demolindo uma grande e antiga casa.

Neste dia trabalhou muito, derrubando paredes com sua marreta, quebrando tijolos, destruindo pinturas.
Quando o dia terminou, sentou cansado em um degrau de escada.
Seus amigos foram embora, mas ele ficou mais um pouco olhando o trabalho feito. Adiantado, mas ainda não terminado.
Foi então que ouviu uma voz.
Voz rouca, quase distante.
- José...
- Quem está me chamando? Quem está aí? – Perguntou José se levantando.
- Sou eu José – disse a voz.
- Quem? Se mostre, por favor... – Pediu José assustado.
- Já estou me mostrando, estou em toda parte – Disse a voz.
- Não entendo... Que brincadeira é essa? – Perguntou José preocupado.
- Não é nenhuma brincadeira, José. Sou eu, a casa que você destrói.- Disse a voz.
- A casa? – Espantou José.
- Sim, a casa.
- Mas casas não falam – Respondeu José.
- Casas falam e sentem José...
- Devo estar sonhando...
- Não José, você não esta sonhando. Te vi aqui sozinho e achei que podia conversar com você.
- O que quer de mim? – Perguntou o operário tremendo.
- Apenas conversar... Apenas falar... Apenas lamentar...
- Lamentar?
- É... Eu sofro sabia? Sofro por deixar esta terra que eu vi crescer.
- Não sabia que as casas sentiam... – Exclamou José.
- As casas sentem sim. E têm memória também. – Disse a voz.
- Memória?
- É, me lembro ainda do primeiro tijolo que fui, da casa que me tornei... O belo casal que abriguei... Marina nasceu no quarto lá em cima. Depois veio Manuel... Manuel cresceu e se casou. Veio morar em mim. Marina também se casou mas não ficou. Foi para longe... Vinha de vez em quando... Quando os pais morreram parou de vir...
Foi Manuel que me mandou pintar com os barrados coloridos de frutas. Sua mulher me trocou os vidros por estes que você ajudou a quebrar...
- Desculpa – Pediu José.
- Eh ... Ao meu redor a cidade ia mudando...Crescendo, se povoando... Os carros puxados a cavalo foram substituídos pelos carros a motor... Manuel comprou um Ford... Um dia a mulher do Manuel faleceu e ele ficou só com os filhos.
- Coitado... – Lamentou José.
 Marcos, Maria e Fernanda brincavam muito descendo e subindo estas escadas... Rabiscavam-me com seus lápis, me derramavam tinta... Manuel ficava com raiva e me consertava. Eu não ligava... Até gostava...
 Quietinha em meu lugar ouvia falar de guerras e rumores de guerras...Uma doença que matou muita gente... Gripe Espanhola...Manuel reformou o banheiro... Ficou lindo...
- O que aconteceu depois? – Perguntou José.
- Manuel ficou velho, os meninos cresceram, estudaram, casaram, mudaram... Quase não vinham mais... Eu e Manuel assistíamos as mudanças...As modas indo e vindo... O som do rádio, depois a televisão... Os prédios substituindo as casas amigas da vizinhança... Barulho, muito barulho... Aí Manuel morreu... Fiquei só de vez.
- Os meninos não vieram ficar com você? – Perguntou José com os olhos cheios de lágrimas.
- Ninguém me quis...Fiquei fechada um tempo...Os vidros sendo quebrados por meninos...Doía... A solidão doía mais...
De vez em quando um mendigo dormindo na varanda... O fogo de sua fogueira queimando as paredes... Depois...Venderam-me, me esqueceram e aqui estou sendo demolida por vocês...
- Mas que injustiça – Disse José.
- É a vida José... – Disse a casa com sua voz fraquinha.
- Mas toda esta história... Tudo será destruído com você... – Exclamou José.
- Infelizmente é assim... Mas estou aliviada, pelo menos uma pessoa sabe.
- Em tantos anos destruindo e construindo casas, nunca havia pensado que as casas pudessem ter vida.
- Elas têm. Vidas impregnadas das vidas dos que a fizeram e habitaram. Nas paredes, nos lustres, no ranger de cada porta, um pouco dos habitantes permanece. A alma de um tempo, de vários tempos... Seus amores, suas dores, seus modos de viver e ver o mundo... Somos vivas porque abrigamos vidas... Muito mais que isto, abrigamos memórias...
José ficou pensativo.
- É noite José, eu já não tenho mais luz para te iluminar. Vá para sua casa e pense em tudo que te contei. Amanhã eu
sei, não estarei mais aqui.
José não disse nada. Pegou sua mochila e saiu da casa em ruínas.
Amanhã ele não voltaria.
FIM