PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CONTO A CIDADE DO SONHO


A CIDADE DO SONHO


 Autor: Carlos Henrique Rangel

Em uma cidade não muito distante, havia um homem que era muito rico, dono de muitas casas e lojas chamado Luciano. Um dia Luciano resolveu demolir uma velha casa que ficava no centro da cidade.

-         Uma cidade precisa crescer... E para crescer é preciso fazer coisas novas e modernas. O futuro é o concreto e os arranha-céus. Cidade progressista é aquela que tem grandes edifícios de concreto. Progresso, progresso, é disto que precisamos, uma cidade que acompanha o seu tempo...Por isso vou demolir esta velha casa e construir um lindo prédio. Nossa cidade não pode parar no tempo. Temos que acompanhar o progresso do mundo... – Dizia a todos o senhor Luciano com orgulho.

Muitas pessoas não se importaram. Alguns garotos e velhos não gostaram.

-      É um absurdo o que o Senhor Luciano vai fazer. Ele não pode demolir o casarão. – Disse o menino Gabriel.

- Bobagem existem tantos... Um não vai fazer falta...- Falou um homem.

-   Vai sim... É assim que começa, primeiro derrubam um, depois outro... Uma casa ali outra acolá... E ai lá se vai a nossa memória... – Rebateu o velho senhor Juca.

-         Deixem que ele faça o que quiser, a casa é dele... – Disse uma moça.

- Não acho isto certo, com a destruição do casarão toda a cidade perde... – Falou o menino Gabriel.

-     Isto mesmo, temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará. – Disse Pedro, o dono do cinema local.

-        Vocês deviam é cuidar das suas vidas, deixem o homem fazer o que quiser. – Falou novamente a moça.

- Isto não está certo... Ele não tem o direito de destruir parte da história de nossa cidade...

-      Tudo bem, mas o que vamos fazer?... O que podemos fazer? – Perguntou o senhor Juca.

- Não há nada a fazer... A não ser que vocês tenham muito dinheiro para comprar o casarão... – Disse um homem rindo.
-       Vamos falar com o Senhor Luciano, quem sabe conseguimos convencê-lo. – Falou Gabriel.

-    Boa idéia menino. Vamos lá na mansão falar com o Senhor Luciano, tenho certeza que ele vai mudar de idéia.

-       Isto mesmo temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará.... Estranho, acho que alguém já disse isto... - Falou um dos velhos senhores.

Montaram uma comissão e foram até a mansão do homem rico, pedir para que não destruísse a casa.

-   Quanta gente, a que devo a honra desta visita? – Perguntou Luciano.

-  Senhor Luciano, Estamos aqui para pedir que em nome da história de nossa cidade não destrua o casarão... – Disse Gabriel.

- Por que não? Ele é muito velho, já deu o que tinha que dar...

- Por isto mesmo. Por que é uma casa do tempo em que a cidade nasceu.

- Quantas coisas aconteceram ali... Alegrias e tristezas. Festas, aniversários... Velórios... – falou o velho senhor Juca.

- Daquelas janelas, quantos olhares viram o tempo passar, a vida passar... – Lamentou outro velho.

- Lembro da Mariazinha sua avó, linda e faceira na janela sorrindo para todos que passavam...Os homens passavam devagar olhando apaixonados... – Continuou o velho senhor Juca.

- Era linda...  Olhos brilhantes, lábios vermelhos como morangos... Dançávamos no grande salão nas festas de aniversários... A banda tocava lindas canções de amor e Mariazinha flutuava... Namorei  ela, lembra?

-    Sim, mas foi o avô do Senhor Luciano que casou com ela...

- Chega de falar em minha avó que já morreu há muito tempo... A casa está  abandonada agora... Ninguém mais vive lá... O que passou, passou... – Gritou Luciano com raiva.

- Pode ser usada. Nossa cidade precisa de uma Biblioteca Pública.

- Uma casa de cultura. – Disse um menino.

- Porque não um museu!? Nossa cidade não tem museu...
-     Chega! Que engraçado, vocês falam da casa como se fosse de todo mundo...Já decidi, vou construir no lugar um prédio enorme, cheio de lojas. E vocês... Saiam da minha casa, me deixem em paz. – Falou Luciano nervoso.
- Mas Senhor Luciano...

- Chega de mas... O casarão é meu e faço o que quiser... No futuro vocês vão me agradecer...

O grupo foi embora triste por não ter conseguido convencer o homem rico.

-    Que atrevimento deste povo vir aqui na minha casa e me dizer o que eu devo fazer com o casarão... Ora bolas, Biblioteca... Vejam só...

Luciano então fechou a porta de sua casa e foi deitar no sofá da sala ainda com raiva.
E dormiu. E sonhou. Sonhou que estava numa rua barulhenta, cheia de carros, onde quase não se via o Sol por causa dos prédios.

Luciano andava pela rua em meio a multidão nervosa. Havia muita gente. Gente triste e suada por causa do calor que fazia. Luciano olhava para um lado e para o outro e não via uma árvore. Os prédios pareciam iguais. As pessoas pareciam iguais. Caminhou então pela rua até chegar em uma praça. Uma praça sem árvores, com uma igreja enorme de concreto.
Luciano a achou feia. Sentou em um banco da praça e ficou vendo todo aquele barulho, sentindo muito calor e muita saudade de sua cidade.
- Que cidade é essa? Que lugar triste e feio. Onde será que estou? – Lamentou sem entender nada.
Resolveu saber perguntando a alguém: Um menino que passava.
- Ei menino, que cidade é essa?
O menino riu.

- Ora senhor Luciano, não reconhece? Essa é a sua cidade.
- Minha cidade? Mas onde estão os casarões? Onde está a Matriz? E a praça?
- Os casarões foram demolidos, eram muito velhos. A Matriz, ora, o Padre quis uma igreja maior.
- E a praça? Onde está aquela bela praça cheia de árvores?
- Está aí, não esta vendo?

- Mas não pode ser... Onde está a casa do Manuel, meu amigo? E a casa da Dona Cotinha...? Onde está a padaria do seu Juca? E o cinema, onde eu costumava ir ver os filmes de aventuras...?
Luciano não conseguia entender. Aquela não parecia a sua cidade.
Não havia mais nada que lembrasse o seu passado.
- Ei você, O que aconteceu com o cinema? – Perguntou a um transeunte.

- Ah... Aquele monstrengo? Foi demolido, Ninguém mais ia assistir filmes lá.

- Mas era tão bonito... E a padaria do seu Juca, o que aconteceu com ela?

- Ora seu Luciano, Todo mundo agora compra pão na padaria moderna lá do Supermercado.

- Eu não entendo mais nada... Onde será que está a minha mansão... Ficava aqui nesta rua...

Saiu andando procurando a sua mansão. Não encontrou.
Em seu lugar havia um feio edifício de vinte andares.

- Nossa Senhora, cadê a minha casa? Quem foi o atrevido que construiu este prédio aqui?

Saiu caminhando triste pela avenida Principal. Barulhenta e cheia de placas, não lembrava em nada a avenida que conhecia, cheia de árvores e casarões coloridos.
Chegou finalmente enfrente a um velho prédio que estava sendo demolido.

- O que está acontecendo?

-    Estamos demolindo este prédio. Foi o primeiro da cidade, mas agora não serve mais, vão construir um prédio mais moderno em seu lugar.

- O primeiro?

- É, não se lembra Senhor Luciano? O senhor demoliu o casarão que existia aqui e construiu este prédio.

- Eu? – Perguntou espantado Luciano.

- Sim Senhor. Depois deste vieram os outros.

-          o padre gostou da idéia e demoliu a velha igreja...

    -    O prefeito achou que as árvores da praça e da avenida escureciam a cidade e mandou cortar...
- Ficou melhor não acha?
- Não, não acho... Faz um calor danado aqui... Não tem sombra, nem canto dos pássaros... O povo parece triste e apressado... Os prédios são feios e iguais...  Não sobrou nenhum casarão?
- Claro que não. Nossa cidade é moderna. – Disse o homem.
- E ser moderno é isso? Não reconhecer mais nada na nossa cidade? É ficar perdido como se estivéssemos em terra estranha?

Luciano começou a chorar... E foi chorando que acordou. Levantou depressa e correu para a janela. Lá fora a cidade brilhava com seus velhos casarões coloridos. A torre da igreja despontava alta e pássaros cantavam nas árvores da avenida. Luciano limpou o suor da testa aliviado e correu para o casarão. Aquele que ele queria demolir e os velhos e garotos queriam salvar.
Luciano chegou a tempo de impedir a sua demolição.
- Parem os trabalhos. – Gritou com toda sua força.
- O senhor não vai mais demolir o casarão? – Perguntou um operário.
- Não. Este casarão faz parte da nossa história. Vamos transformá-lo em uma biblioteca, ou quem sabe em um museu. O certo é que não será mais demolido e voltará a fazer parte da vida de nossa cidade.
- E o progresso?
- Preservar nosso passado também é progresso. Os nossos casarões, sobrados, casas simples, nossas igrejas... Cheios de suor, lágrimas, alegrias, vivências, esperanças e fé do povo é que diferenciam a nossa cidade das outras. Nossas praças e ruas estão impregnadas das vidas de nossos bisavôs, avós e pais e merecem respeito. Nossas festas são as nossas festas... Diferentes das festas das outras cidades vizinhas.  Progresso não é viver em uma cidade sem rosto igual a tantas outras. Progresso é conciliar o velho e o novo, as manifestações tradicionais com as novas tecnologias. Os prédios novos podem ser construídos em outro lugar fora do centro da cidade, sem afetar o nosso passado.
- Isto mesmo Senhor Luciano. Preservar é crescer com identidade... – Gritou um menino todo alegre.
- É continuar com dignidade... – Falou o Senhor Juca.

- Viva o Senhor Luciano! – Gritou um outro senhor.
-    Viva ! – Gritaram todos.
E assim, gritando vivas o grupo de preservacionistas, operários e o Senhor Luciano se abraçaram felizes. Alguém trouxe um pandeiro, outros um tambor, uma cuíca e uma viola.
Toda a avenida Principal virou uma grande festa.

FIM

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