PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL



BLOG VOLTADO PARA A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL - 16 ANOS NO AR

terça-feira, 10 de abril de 2018

POEMAS CONSTRUINDO O SER


POEMAS

CONSTRUINDO O SER



1 - Ser

 Autor: Carlos Henrique Rangel



Cada Ser Humano é o que deve ser.

E pode ser mais.

E o que é se relaciona com o que foi.

Com os que foram.

Com o que construíram os que foram...

O que é

se relaciona com o passado.

Com as coisas do passado.

Com o que foi feito no passado

e continua Presente.

O Ser é fruto  e construção de outros seres.

Somatória.

Complemento.

Continuidade.

 

O Ser é

por que foi.

E será para o futuro se respeitar a herança recebida.

Cada Ser Humano carrega em si o seu mundo

E para onde for,

Onde estiver,

Sua família,

Sua rua,

Sua igreja,

Sua praça,

Seu bairro,

Sua crença,

Sua terra,

LÁ ESTARÃO...

 

Cada Ser é um representante vivo de sua cultura.

Do seu Patrimônio.

Cada Ser Humano é um ser plural, rico e belo.

O produto de uma cultura diversa e rica.

De um modo de ser, fazer e viver.

Cada Ser importa.

VOCÊ IMPORTA!

(O QUE VOCÊ FAZ IMPORTA)



2 - Sobre Pedras No Caminho

Autor: Carlos Henrique Rangel

A pedra no caminho

me fez tropeçar.

A pedra no caminho

me fez pensar.

A pedra...

O caminho...

O caminhar...

Eu me fiz no caminho

ao tropeçar...

A pedra amarga do caminho...

A doce pedra do caminho...

Guardei a pedra do caminho

para lembrar...

Nunca me esquecerei

que a pedra estava

no caminho

E que caminho...







3 - Dependência

Autor: Carlos Henrique Rangel

Eu preciso de você

E você de mim.

Eu te faço.

Você me faz.

Eu te construo.

Você me constrói.

O que você é

Me faz ser o que sou.

Me vejo em você

E você se vê

Em mim.

O UM que sou

Se multiplica

Com você.

Juntos somos

Mais...

Juntos

SOMOS.






4 - Educar

Autor: Carlos Henrique Rangel

Educar é alimentar

E ser alimentado.

É se dá ao outro

E receber...

Educar é troca

É transbordar

Mas também

Se preencher...

Eu dou o que tenho

Recebo o que você tem...

A transformação

É mutua.

Eu serei outro.

Você será outro.

O que fizermos juntos

Será melhor...

E diferente.






5 - O Que Faz Um Homem?

Autor: Carlos Henrique Rangel

Um homem não se faz sozinho.

Um homem se faz com outros homens...

Do Passado e do Presente.

Com coisas feitas por homens...

Idéias, descobertas, crenças, ritos, ritmos, visões, belezas, artes e outras...

 Um homem se faz com troca, transmissão, repetição, continuação, construção dinâmica, viva, sadia...

Um homem se faz com outros homens...

Influenciado pela natureza: clima, fauna, flora...

Um homem são muitos...

Parte dos que foram.

Parte dos vizinhos.

Parte dos que chegam.

Parte de si mesmo.

Um Homem é ETERNO se respeita o seu Passado, seu Presente,

Sua Comunidade e a si mesmo.









6 - Quem Sou?

Autor: Carlos Henrique Rangel

Identidade...

Quem sou?

Sou esse número anotado em cartão envelhecido?

Quem sou?

Uma entidade limitada a um corpo carnal temporal?

Sou isto também, ocupando espaços, intervindo no espaço...

Interagindo com outros seres... Sou isto também...

Mas sou mais: o que penso, como penso, como ordeno o que penso,

como transmito o que penso e o que me levou a pensar...

Sou parte de onde vivo, do que vejo...

Minha relação com os outros seres também ajudam a formar o que sou...

Sou parte dos outros seres: suas idéias, suas coisas, memórias, histórias...

Então o que sou?

Uma colcha de retalhos?

Um quebra-cabeça formado  por ambientes,

seres, coisas, gestos, sabores, modos, lembranças?

Lembranças... As lembranças me individualizam...

São particulares porque são minhas...

Outros lembram também mas as minhas lembranças,

com suas leituras e releituras são só minhas...

As lembranças me constroem...

O ambiente...

Minha cidade: minha casa,

a praça,

a igreja,

a escola,

o clube...

Os amigos...

Sou parte disto tudo...

Sou tanta coisa.

Construção genética: avós, pais, tios...

Culminância de algo.

Pedaço de algo maior...

NOSSA!

Sou peça de uma grande engrenagem...

Indivíduo formado e formador do coletivo.

Construído e construtor...

Modificado e modificador...   

Um elo entre o passado e o futuro.

Fruto do passado e do presente...

Construção e continuação no presente.

Continuação e esperança do futuro.

O QUE  EU SOU?

Não sou apenas um número em um cartão.

Nem mesmo um ponto na multidão.

Sou o PONTO.

E junto com outros pontos formo uma LINHA.

Sou indivíduo...

Mas também sou coletivo,

plural.

Sou maior porque sou muitos.

Parte de um organismo vivo, dinâmico, Especial

que depende de mim... E de todos para continuar...

EU SOU!

MAS VOCÊ TAMBÉM É.



7 - Precisar

Autor: Carlos Henrique Rangel

Eu preciso de você para SER.

Eu me fiz com outros: Pai, Mãe, Irmãos, Professores, Mestres...

E outros...

Eu me faço com você e outros...

No caminho te encontro e continuo...

Me construo...

Eu sou Eu...Você é você.

Juntos somos NÓS.

Maiores... Fortes...

Te completo.

Me completa...

Você me faz.

Eu te faço.

Nós nos fazemos SEMPRE.






8 - Pedaços

Autor: Carlos Henrique Rangel



Um pedaço de mim é branca ambição e veio de longe...

Do mar sem fim.

Outro pedaço de mim também veio do mar e é negra solidão.



Um pedaço de mim estava aqui e é rubra intuição.

Um pouco de mim é verde floresta. Outro amarelo ouro.

Um pedaço de mim é pura sensualidade.

Outro é devoção medrosa.



Um pouco de mim decora as igrejas. Outro tinge a terra de sangue.

Um pouco de mim observa das sacadas.

Um pedaço brinca nas praças...

Um pedaço de mim é ancião.

Outro é jovem canção.



Uma parcela de mim morreu em guerras.

Outra embriagou-se em festas.

Um tanto está na poeira das estradas.

Outro tanto nas gotas do rio.



Um pedaço de mim esta nas ferramentas.

Outra parcela nas peças...

Na comida vejo outro tanto. Na roupa um pouco mais...

Na louça, no veículo, na moça...

Eu vejo parte de mim...

Sou parte de tudo e em tudo me vejo. Em tudo estou...

Me faço em tudo.

Me construo com partes de tudo

e no TODO... SOU.



9 - As Coisas e os Nomes das Coisas

Autor: Carlos Henrique Rangel



As coisas e os nomes das coisas...

O nome que dou não

é... A Coisa...

Antes do nome a Coisa é.

As coisas da natureza...

As coisas construídas

com coisas da natureza...

Mas a Coisa passa a ser

Coisa para mim quando a vejo...

Passa a existir o que existia

quando vejo...

O que vejo, manuseio, sinto, cheiro... Nomeio.

Incorporo ao meu mundo.

Incorporo ao que sou.

Incorporo à minha vida...

Assim, conhecendo as coisas,

Nomeando as coisas,

de alguma forma compreendo melhor o mundo

e a mim mesmo.





10 - Sobre Trilhos e Trens

Autor: Carlos Henrique Rangel

“O apito soou longo, profundo, transpassando minha alma. Nos vagões de madeira,vértebras do grande réptil, centenas entraram e se mostraram pelas janelas. O último Trem... O derradeiro... Depois dele, nada mais... O apito de novo... Desejei que fosse eterno. Pisquei os olhos úmidos fotografando a cena...”



“Uma telha caiu quando passei. No chão outras tantas se amontoavam a pedaços de janelas, vidros quebrados... As portas não existiam há dois anos e uma fogueira foi alimentada pelas tábuas que ajudei a fechar muitas vezes. Quem diria que apenas há alguns anos esperei Anita no banco perto da bilheteria cercado de gente-que-esperava e gente-que-ia e gente-que-vendia... Agora apenas a solidão de ruínas...”



“Quando pequeno, pulava dormentes... Andava sobre os trilhos quentes equilibrando, equilibrando... Caindo com os pés sobre as pedras azuis esbranquiçadas ... Ás vezes punha o ouvido sobre os trilhos: podia-se ouvir o Trem chegando... Outras vezes era o apito que nos assustava e saiamos dos trilhos para ver passar a Máquina, os vagões... Um, dois, três... Quarenta... Perdia a conta... Não ando mais nos trilhos. Mas até hoje conto os vagões: um, dois, três... Quarenta...”

“Na época da construção da Estrada de ferro havia mata e até onça. O Trem atropelou uma um dia... A malária matou muitos trabalhadores. A gripe outro tanto... Mas a Estrada saiu... Aquela Estação ali tem o nome de comida de onça: um engenheiro distraído...”

“A menina levava comida. Passava de saia rodada da escola local. Passava e agente olhava... Pulava os trilhos ao vento e agente olhava...

- Que comida cheirosa! – Gritava Manuel... O maquinista, pai da menina, não ouvia... Surdo que era..."



SERÁ O FIM?











11- Entre o Sim e o Não

Autor: Carlos Henrique Rangel



Sim, vou demolir!

Sim, vou destruir!

Sim, um pouco de ti.

Sim, um pouco de mim:

Minha Alma...

Minha calma...

Sua calma...

Sua Alma...



Não!

Vou Preservar.

Não!

Vou conservar.

Não!

Vou cuidar.



Não!

Vou usar.

Não!

Vou salvar:

Um pouco de ti.

Um pouco de mim.

Minha Alma.

Minha calma.

Sua calma.

Sua Alma...





12 - O Carro de Boi

Autor: Carlos Henrique Rangel



O boi.

E o Carro de Boi.

Ihhhhhhhhhhh!

E o Carro de Boi...



O caminho.

O boi.

E o Carro de Boi...

Ihhhhhhhhhhh!

Uma roda.

Duas rodas...

O homem...

O boi.

O Carro de Boi...

 



O caminho:

Mato ao lado.

Terra no chão.

O homem.

O boi.

E o Carro de Boi...

Ihhhhhhh!

E o Carro de Boi....










13 - O Rio  - 

Autor: Carlos Henrique Rangel



No mesmo rio não piso...

Ainda assim é o mesmo rio.

O caminho que sigo todos os dias

É o mesmo caminho.



Os dias...

Os dias não são os mesmos...

Nem mesmo eu sou o mesmo.



A cada minuto mudo

e o mundo.

No entanto me sinto seguro

pisando o rio.



Seguindo o caminho...

Mesmo mudando a cada passo.

A cada minuto.



Ainda sou.

E o mundo que vejo mudando

me é familiar e me faz bem...



Sou contemporâneo

do agora...

Sou contemporâneo

da mudança...

E mesmo sabendo do efêmero me quero eterno.









14 - Eu Vi 

Autor: Carlos Henrique Rangel



Meninos

Eu vi!

Os sobrados coloniais.

As igrejas quase iguais... (Mas diferentes...).



Meninos

Eu vi!

O Boi passar

colorindo a Rua

com a alegria dos brincantes.

Eu vi... Eu senti

a adoração à velha imagem...



Meninos

Eu vi!

O brilho dourado dos altares

destilando o sagrado.

Eu ouvi

o som antigo do órgão

espalhando emoção...



Eu ouvi

o canto dos sinos

e suas mensagens...



Meninos

Eu senti

o cheiro de suor

dos devotos em procissão...

Eu respirei história

nas curvas das ruas...

Eu me alimentei

da comida dos antigos...



Meninos

Eu me emocionei

com o passado presente

e me senti eterno...



15 – Imagine

Autor: Carlos Henrique Rangel

IMAGINE

Imagine...

As igrejas barrocas, ecléticas,déco

preservadas...

Os sobrados...

Imagine

Que todos respeitam

as tradições, festas, histórias...

Imagine...

Os proprietários

empenhados em restaurar

seus casarões centenários...

Imagine...

Que todas as imagens

desaparecidas apareceram

junto às suas comunidades...

Que os órgãos de preservação

têm recursos e técnicos preparados

e bem remunerados...

Você pode achar

que sou um sonhador

mas não sou o único...

Imagine...

A convivência 

do passado com a modernidade...

As produções culturais

convivendo harmoniosamente...

A diversidade respeitada...

Você pode pensar

que sou um sonhador

mas não sou o único...

Junte-se a nós...

IMAGINE!





































16 - Se Fosse Minha

Autor: Carlos Henrique Rangel



Se essa rua

Se essa rua

Fosse minha...

Eu mandava...

Eu mandava preservar.

Com essas casas...

Com essas casas tão antigas

Só para todo mundo olhar

Se essa rua

Se essa rua



Fosse minha...

Eu não deixava asfaltar.

Preservava o calçado de pedra

Que permite transpirar...

Se essa praça

Se essa praça

Fosse minha...

Eu poria a fonte

Para funcionar...

O lago com pequenos peixes

Para agente alimentar...

Se essa praça

Se essa praça

Fosse minha

Mais árvores eu iria plantar.

Para substituir as antigas,

Que mandaram arrancar.

Se essa igreja

Se essa igreja

Fosse minha...

Eu mandava

Eu mandava restaurar...



Resgatando o brilho antigo,

Para o meu povo rezar.

Se essa rua...

Se essa praça...

Se essa igreja...

Fossem minhas,

Eu mandava conservar...

Para deleite da minha gente:

Dos antigos e dos que vão chegar...

( A verdade...

A pura verdade...

A rua, a praça e a igreja são minhas e suas também.)











17 - Lembrar

Autor: Carlos Henrique Rangel



Ouvi a música

e ela me lembrou...

Lembrou meu Pai

e o mesmo disco

tocado no domingo...

O frango com quiabo

do domingo...

A casa antiga...

Eu lendo no alpendre...

O mesmo programa de TV...

A cerveja gelada...

O refrigerante negro...

Me lembrou a sobremesa...

O queijo e o doce de figo...

A mesma música

me lembrou um filme,

que me lembrou o velho cinema...

Que me lembrou VOCÊ...

Não há mais...

O Pai se foi.

O disco não toca mais...

A casa antiga cresceu, virou prédio...

O cinema virou igreja...

E você...

Você se perdeu nos anos...



O frango com quiabo

ainda freqüenta a mesa de domingo,

acompanhado do refrigerante,

esperando o queijo e doce de figo...

O programa? Não assisto mais.





18 - Apologia

 

Autor: Carlos Henrique Rangel

 

Faço a apologia do Homem.

Do Homem simples

Que molda a Terra.

Que tira da Terra

O seu sustento.

Que constrói na Terra

Com elementos da

Terra,

A sua morada...

A sua História.

Que interpreta

Na Terra

A sua fé,

A sua celebração...

A sua diversão...

 

Faço apologia

Do homem que se

Faz eterno

Na transmissão

Do conhecimento,

Na permanência

De seus vestígios,

No respeito às

Tradições...

Faço apologia

Do Homem...

Do Homem heroico

Dos primeiros tempos

 

E das coisas deste

Homem e de todos

Os outros após este.

Faço apologia

Das coisas dos Homens.

Dos lugares dos Homens.

Das criações belas

Dos Homens...

Faço apologia

Do que há de

Mais belo.

No ser múltiplo

Que é o Homem.

 

Faço apologia

Da Vida...

Da vida dos Homens

Da vida dos seres,

Vivenciados pelos Homens.



Faço apologia do Planeta dos

Homens

E em paralelo,

Na divindade

Que preenche

Tudo e todos.




19 - Tempo

Autor: Carlos Henrique Rangel



 O tempo

Me diz tanto...

A minha história

É a história de tantos...

Um acúmulo

de experiências...

Memórias...

Sou síntese e conclusão.

A interpretação

Contemporânea

De mensagens

Transferidas

transmitidas

Trabalhadas

Digeridas

Relidas...



Sou discípulo biológico

Cultural.

Continuação...

Sou esperança

Ou desilusão.

Sou elo diverso

De um grande cordão...



Na leitura

Do meu chão...

Bíblia da autoestima

Rezo à permanência

Do que me faz eterno...

E aos meus.

(minha história continua no outro).











20 – Minha Terra

Autor: Carlos Henrique Rangel



A Minha Terra

Não é a ilha da

Fantasia...

Mas a ilha da Fantasia

Não é mais bela

Que a Minha Terra.

A ilha da Fantasia

Com toda a sua fantasia

Não é a Minha Terra...



A igreja de Minha Terra

Não é mais bela que a

Catedral de São Pedro

Nem mesmo a São Pedro

É dedicada... 



Mas a Igreja de Minha Terra

É mais bela que a Catedral

De São Pedro...



A Praça ...

A Praça da Minha Terra

Não é a praça de São Marcos

Nem pombos tem...

Nem turistas...

Tem árvores, bancos...

E a gente conhecida

Da minha Terra...



O Rio da Minha Terra

Não é o Sena ou o Tamisa

Tem o nome simples

Como o seu povo

Que vê suas águas

Que bebe suas águas

Que se alimenta

Dos frutos de suas águas.



O dia a dia

Da Minha Terra

Tem o tempo certo

Da rotina gostosa

Regida pelos dias santos

Pelos bons dias, boas tardes, boas noites

E o grito das maritacas no entardecer...



As festas da Minha Terra

São cheias de devoção.

Devoção estampada

No sorriso enrugado dos anciãos

Ou no olhar espantado das crianças...

Não tem roupas de luxo

Nem aparecem na televisão.



A Minha Terra não

É a melhor das terras

Nem tem tal pretensão.

Mas a Minha Terra

É, para mim,

A melhor das terras...



A terra do coração...











21- Se Eu Fosse Você

Autor: Carlos Henrique Rangel



Se eu fosse você

Cuidaria de mim

E dos meus

E dos meus lugares

E minha memória

E minha história...

E o que lembra minha história...

Para ser mais “Eu”

Quero dizer, “Você”...



Se eu fosse você

Não seria você...

Seria eu em você...

Você se perderia

No meu “Eu”...

Não Seria “Você”...



Se eu fosse você...

E não sou... Graças a Deus!

Para o seu bem

E o meu...

E o da humanidade...



O melhor

Seria... E é

Que você seja “Você”

Em toda sua sabedoria

E eu seja “Eu”

Com a minha falsa modéstia...



Em nossa singularidade

A certeza da diversidade

Da renovação...

Da compreensão...

Da transformação consciente...

Da preservação dos “Eus”

No contexto coletivo.













22 – Cotidiano o Espírito do Lugar

Autor: Carlos Henrique Rangel



As meninas passaram sorrindo.

Duas crianças e uma adolescente...

O carro virou a esquina...

A moça loura passou a mão no cabelo...

O velho com a flor...



O vento soprou e uma flor voou sobre o carro.

Uma buzina tocou...

A mãe xingou a criança...

E o velho com a flor...



O homem de preto olhou.

Outro carro virou.

A música ... Era linda...

A moto berrou...

E o velho com a flor...



O namorado beijou a menina.

Um carro vermelho desfilou sua beleza.

A farmácia fechou...

E o velho com a flor...



A polícia olhou.

Um menino correu.

Uma cerveja chegou...

Gente com compras...

Uma bíblia na mão...

Um moço de óculos escreveu...

E o velho com a flor...

Uma moça passou.

Um moço mexeu...

Mãe e filha...

Moço e moça...

Carro...

Um jovem andou.

Outro carro passou.

Um neném chorou...

Outra folha voou...

Nuvens de chuva...



Na esquina

O VELHO COM A FLOR...




23 – Consideração

Autor: Carlos Henrique Rangel



Não sei sempre o que pensam.

Não sei muitas vezes

o que consideram.

Sei o que penso

E o que considero...

Que pode ser

O que pensam

E consideram...



Ou não...



Muitas vezes

O que considero

E penso

É o que considera

O meu grupo

Os que estão comigo

Naquele espaço.

Outras...

Não...



Mas o que considero

E penso e gosto

E que também

Os meus

Gostam, pensam

E consideram

É  bom e queremos

Que fique

Para que outros

Depois de nós

Considerem, gostem

Pensem, repitam,

Melhorem

E transmitam.















24 - Provocação

Autor: Carlos Henrique Rangel



TODA PRODUÇÃO CULTURAL

É DIGNA DE PROTEÇÃO?



E a produção em si?

É digna de proteção?



Proteger o quê?

Proteger como?

Proteger por que?

Por que quero?

Por que outro quer?

Por que muitos querem?

Um grupo quer?



TODA PRODUÇÃO CULTURAL

É DIGNA DE PROTEÇÃO?



Por que sim?

Porque não?

Quem decide?

Eu?

Você?

Nós?

O culto?

O oculto?

O de fora?

O de dentro?

O alienígena?



TODA PRODUÇÃO CULTURAL

É DIGNA DE PROTEÇÃO?










25 - Mineiro

AUTOR: Carlos Henrique Rangel



Quando nasci

um anjo negro

Me disse: Vai Carlos

ser mineiro no mundo.

EU FUI...

E na corrida pelos quatro cantos

do mundo mineiro

tento mineirar o mundo...

Por que Minas

já disseram: São Muitas...

cercadas de Brasil

por todos os lados...

E de Mundo...



Mas o mundo mineiro,

de uais e trens

de palavras escondidas

e sotaque de poeta

é um só em sua

diversidade

Quando nasci

um anjo branco e cabelos dourados

com olhos de diamante

e mãos de ferro

disse: Vai Carlos,

mineirar o mundo.

Diga a todos o que é

que o mineiro tem...

E tem: ouro na lembrança.

Medos barrocos.

Igrejas aos montes

e montes... Verdes

E montes de ferro e café...

E leite...

E tem mineiro,

esse ser tão brasileiro...

Quando nasci

um anjo vermelho me disse:

Vai Carlos,

ser um mestiço mineiro...



EU FUI.




26 -Velhas

Autor: Carlos Henrique Rangel



Havia um Rio.

E no Rio havia velhas

E no Rio das Velhas

Havia peixes

E ao redor,

onças, pacas, cutias...

E o verde das matas

E o ouro...

E o ouro...



Havia um Rio

com velhas...

E depois

Homens e bateias...

Homens e mulheres

E crianças

E igrejas

E roças

E cidades...



Havia um Rio

que foi das velhas

Que foi dos peixes...

Que em seu redor

um dia teve matas

com onças

com pacas

E cutias...

Agora...

cidades

E seus vestígios...



Há um Rio

de nome Velhas

com velhas histórias

com velhas lembranças...

Sem peixes

Sem mata

Sem onça, pacas, cutias...

Sem ouro...

Levando ao Mar

o descartável

o podre

o nojento

do mundo ao seu redor...

 Ainda há um Rio...

De nome Velhas

Resistente

Persistente

paciente ... Doente...

PACIENTE...



Ainda há um Rio...

E ao seu redor, gente

Até quando?










27 - Pitangui

      (Mas poderia ser a sua cidade)

Autor: Carlos Henrique Rangel



Casarões brancos em verdes,

azuis, amarelos,vermelhos,

vinhos, cinzas...

São tantos...

Coloniais, ecléticos,

déco, modernos.

Singelos, grandiosos...

Povoam quarteirões, esquinas,

adros e praças

em harmonia desordenada.

Vivos em experiências,

vivências... Belezas.

Filhos dos tempos,

seguem os homens

e com eles sofrem os dissabores

das horas

da riqueza,

da pobreza,

da fé, da descrença,

da inseparável esperança.



Brilham ao Sol

Os casarões

Brancos, azuis,

vermelhos, cinzas...

De todas as cores

como são os seus

homens,

mulheres,

e crianças.

Brilham em vida

dinâmicos,

decadentes,

reverentes,

irreverentes,

ardentes...

Perigosos

pelos segredos

acumulados em portas,

janelas, quartos, corredores, pátios,

nas seculares noites

e nos grandes dias quentes.



São tantos...

Em tantas ruas e becos,

praças, adros...

casas de homens

ao redor

das casas de Deus.

Fincadas em solos

outrora dourados...

São tantos...

Belas joias de vários tempos

como são os seus homens.

Versos de um poema

ou notas de uma bela canção.

Na Dinâmica dos séculos

falam de homens

e de tudo que é familiar aos homens.

Símbolos de riqueza,

poder, beleza, alegria,

tristezas, desejos, sonhos...

Falam dos homens da terra

que constroem em solo firme

uma visão de Céu. (um novo começo)

















28 – Todos diziam - Para Cecília Meireles

Autor: Carlos Henrique Rangel



O Sol iluminava as ruas da cidade.

As janelas brilhavam.

O chafariz jorrava a sua água límpida.

As pessoas andavam,

Ou apenas olhavam,

Ou apenas conversavam.

E todas pareciam dizer:

BOM DIA.



As árvores brincavam sobre o vento.

Folhas caiam sobre o lago da praça.

Beatas caminhavam para a igreja em passos lentos.

Alguém cantava acompanhando os pássaros...

E todos pareciam dizer:

BOM DIA.



O velho sentado no banco olhava.

A velha na janela olhava.

O moço sonolento no balcão do bar olhava.

Crianças a caminho da escola olhavam...

As casas antigas quase novas eram olhadas...

Todos olhando, pareciam dizer:

BOM DIA.



A estação pintada de novo vendia artesanato.

A igreja cheia de fieis apresentava Deus...

A Prefeitura em seu labor burocrata governava...

A Escola, velha anciã ensinava...

E todos os prédios com suas funções, pareciam dizer:

BOM DIA.



A menina via o menino e amava...

O menino via a bola e jogava...

O cavalo puxando a carroça... Galopava...

Um carro trotava nas pedras antigas da rua e balançava.

A mãe puxava a filha...

A filha puxava a boneca...

O velho olhava a velha...

O padre olhava o altar e adorava...

O bêbado olhava a garrafa e desejava...

O turista encantado se encantava...

E Cecília, no Céu, a todos olhava e parecia dizer: BOM DIA.



29 – As Coisas Falam

Autor: Carlos Henrique Rangel



A Praça fala:

Falam os bancos.

Os jardins.

Falam as pedras.

Falam as Fontes.

E as Estátuas...

E os bustos...



As ruas Falam:

As pedras falam.

O asfalto fala.

As esquinas... Estas também falam.

Falam as árvores.

Os postes...

Os faróis... Os sinais...



A Igreja fala:

Falam as escadas.

Falam as portas.

Falam os vitrais.

E os bancos.

E os altares.

E as Imagens...

Estas falam muito...

E ouvem.



A Escola fala:

E suas carteiras.

E seus quadros negros...

A cantina...

E o Sino?

Esse fala, quase berra.



As casas falam:

Os telhados falam.

As paredes...

As janelas...

Os quartos...

As salas...

As cozinhas também falam.

E como falam...



A natureza fala:

Fala para os homens.

Também canta.

Também chora...

E como chora:

por causa dos homens...

Pelos homens...

As coisas falam:

De homens.

De homens do passado.

De homens do presente...

As coisas falam de vidas:

Tristezas, alegrias, sonhos...

Amores, dores, perdas...



As coisas falam dos passos dos homens.

Das construções dos homens.

Da construção de homens.

Da destruição de homens.

De homens entre homens.

De homens versos homens...



Todas as coisas falam...

TODAS!

De homens entre coisas.

De coisas de homens...

De coisas transformadas por homens.

De espaços modificados por homens...

As coisas falam...

Os lugares falam...

Ouçam...

Ouçam...

Ouçam...

(Estão ouvindo?)











30 – Tantas Coisas

    (Coisas que falam)

Autor: Carlos Henrique Rangel

                                

Pequenas coisas

Dizem tanto.

Tantas coisas dizem

Coisas...

Um olhar

O caminhar

Um lugar...



Tantas coisas

Dizem...

Um peixe no lago

O lago...

Um pescador no lago

O pescador...

A praça...

Um coreto na praça.

No coreto uma banda.

A banda...



Tantas coisas dizem

Coisas...

Um menino com bola.

A bola...

A moça na missa.

A missa...



Tantas coisas

Dizem...



Um sorriso de um ancião.

Um ancião...

Um sorriso de criança.

Uma criança...

A escola

O sino da escola.

A fábrica...

A sirene da fábrica.

O burro no pasto.

O pasto...

O burro...

A moça do sobrado.

O sobrado...



Pequenas coisas dizem

Tanto...

Tantas coisas dizem

Coisas...



O cheiro de churrasco.

O churrasco...

A rua...

O carro na rua...

O calçamento da rua...

Tantas coisas...

Os que gostam.

Os que não gostam...

Os que enxergam.

Os que não enxergam...

Os que ouvem

Os que...



Tantas coisas

Dizem coisas...



O velho que diz

Sem dizer.

O chafariz que diz

Sem querer...

A montanha ferida

Que berra

E ninguém ouve ou vê.



Pequenas coisas

Dizem tanto...

Tantas coisas

Dizem coisas...

Tantas coisas...

TANTAS...

TANTAS...















31 - Encantamento



AUTOR: Carlos Henrique Rangel



Tantas coisas me encantam...



Me encanta

O caminho da chuva.

O cheiro de comida.

O bezerro mamando.

O velho com a flor...



Me encanta

O choro de criança.

A torneira pingando...

A moça na janela

O moço olhando...



Me encanta

O casarão colorido.

O carro de boi.

O peixe no lago...



Me encanta

O plástico voando.

A rosa solitária...

O sino da igreja.

A imagem da igreja.

A beata na igreja...



Me encanta

O apito do trem.

O vento no cabelo.

O congado passando...



Tanta coisa me encanta...



Me encanta

A moça sambando.

Os profetas de Congonhas

Como me encantam...



Me encanta

O ontem lembrado.

Minha mãe no mercado.

A pizza de domingo...

A cama do hotel...



Me encanta

A novidade do amanhã

E sua insegurança...



Me encanta

O postal.

O e-mail.

O jornal...



Me encantam

Os pombos da praça.

O suor do trabalhador.

A fotografia na parede...



Tantas coisas me encantam...



A cor da pele.

A pele...

A cor do cabelo.

O cabelo...



A calçada portuguesa...

O ônibus lotado

Também me encanta...



A dança

E quem dança...

E quem olha a dança...



Tantas coisas...



A mosca na sopa.

A pedra no caminho.

O caminho...

O caminhar...



Me encanta

O artista de rua

A rua...

O vendedor de bala...

A bala...

A moça bonita.

A bala...



Tantas coisas me encantam

Que fico encantado

E maravilhado

Com tantos encantos...



A vida...

A VIDA ME ENCANTA!






32 - Quero

Autor : Carlos Henrique Rangel



Não quero te ver

Construindo Castelos monstruosos

Onde haviam casarios De adobe.

Não,

Não quero ver

Ao entardecer Os bancos Vazios enfrente

As casas Sem causos...

Sem prosas.



Não quero ver As imagens Carcomidas

Ignoradas, Maltratadas, Mutiladas, Sumidas...

Os templos de pisos vulgares

De gosto duvido e paredes lisas...

Não,

Não agüento ver

O chão de asfalto cobrindo o passado de pedras

As roupas balançando nos telheiros agressivos.

Os gigantes letreiros escondendo platibandas...

Quero você após a missa.

A procissão da santa moça.

O chacoalhar do congado.

A folha de guilhotina

Levantada no sobrado.

Quero o padeiro gritando seu pão

A viola e sua canção.

A feira de domingo

E as carroças coloridas.

Quero a paz sonolenta da praça

E seus pássaros.

Quero nadar no rio...

A gente pequena saindo da escola...

Os bons dias, os boas tardes e noites...

O caminhar sem medo.

Quero Dona Maroca

João da Zezé

Maria do Morro

Pedro Banguela

E outros...

Quero a hora dos anjos

O menino da porteira

O apito do trem.

Não, não quero

Congelar o mundo

Ou viver do passado.

Eu só quero o continuar tranquilo

De tempos quase iguais.

O meu pequeno grande mundo

Complementando o globo

Em sua singularidade.

Quero apenas ser igual na diferença.

E diversidade ser feliz.





São queres saudosistas .





33- Caminhos do Mundo

Autor: Carlos Henrique Rangel



Eu não sei dos caminhos do mundo.

CAMINHO.



O não saber me guia

E me faz sábio na descoberta.



Caminho vendo

Observando

Reparando

Desfrutando

Aprendendo

Acumulando

Trocando...

Os caminhos do mundo

Eu sei caminhando.



Sem escolhas

Aceitando

O caminho...

O caminho

Se faz caminhando.



São tantos...

Os bons

Os não tão bons.

Os certos

Os não certos.

Os que nos levam.

Os que nos deixam levar...

Há caminhos

Que não são caminhos...

São becos

São trilhas.

Outros,  estradas

Pavimentadas

Saneadas

Limpas.



Eu não sei

Dos caminhos...

Caminho.



Não tenho respostas...

Nem perguntas.

Paro nas encruzilhadas

E sigo o bom vento.

Não sou guia nem guiado.



Sigo trilhas, Picadas, Estradas...

Retas , Curvas, Desfiguradas.



Sigo compulsivo

(uma missão?)

O caminho é a minha Sina

Minha obsessão

Minha maldição.



Carrego o meu fardo

Desabotoado

Recebendo dádivas.



Eu não sei dos caminhos do mundo...

Caminho...























34 – Línguas dos Homens

AUTOR: Carlos Henrique Rangel



Falo a língua dos Homens...

De alguns Homens...

Dos que vivem ao meu redor.



Penso na língua dos Homens...

Quase como pensam todos os Homens

Que falam a língua dos Homens...



Sou filho do tempo dos Homens.

Medido, Pesado, aprovado pelos Homens.

Carrego o fardo dos Homens.

Às vezes leve como pluma.

Outras, pesado como chumbo.



Vejo com os olhos dos Homens,

As coisas dos Homens...

E as coisas vivenciadas pelos Homens...



Sou homem presente cheio de passados

Cheio de outros Homens...



Ouço com os ouvidos dos Homens

O mundo que rodeia os Homens

E reproduzo os sons com ritmos dos Homens.

Os mesmos Homens do passado, do presente.



Sinto o mundo dos Homens

Como se realmente fosse dos Homens.

Áspero, macio, maleável, duro...

Um mundo de Homens...



Cheiro o mundo com o vento dos Homens.

Aprendido com os Homens.

Definido, codificado por Homens.

Agradável, desagradável, cheio de lembranças de Homens...



O gosto dos Homens permeia o meu ser

E define o que é bom ou ruim.



Sou homem entre Homens...



Faço-me com os Homens.

Vivo entre Homens.

O que construo

Construo com e para Homens.



Falo, penso, vejo, e sinto

Por que sou

Sobre tudo HOMEM.




35 - DIFERENÇAS

Autor: Carlos Henrique Rangel



Somos diferentes

Demais para sermos

Iguais.

Iguais o suficiente

Para percebermos

As diferenças...



Somos iguais

O suficiente

Para pensarmos

Quase iguais

E entendermos

Uns aos outros.

Para discordarmos

Ou não...



Somos diferentes

Demais...



A diferença

Nos faz.









36 – Sobrado

Autor: Carlos Henrique Rangel



Sacada:



Na sacada

Tudo vi...

O ontem

E o depois.

Na sacada

Namorei

O mundo

Do alto...

Descansei

Meu cansaço.



Janela:



A janela

Do mundo

Me enquadra...

O tempo

Brinca

Nos vidros

Em gotas

E grãos de poeira.

As mudanças

Ocorrem

Dentro e fora...



Grades:



Ah essas

Grades

Em flores

Em formas...

Belezas metálicas

Que me protegem

Do medo...

Vejo o mundo

Da sacada...



Paredes:



Paredes

Me separam

E me unem.

Me isolo

Do mundo

No sobrado.

Me completo

De mundo

No sobrado...

Histórias

E estórias

Me rodeiam...



Porta:



Pela porta

Entro

E saio...

Ensaio

Cotidianos

De conteúdos

Diversos:

Isso importa?



Telhado:



A telha...

O telhado...

Proteção em

Curvas.

Seguro do mundo...

Das intempéries

Do mundo...



Proteção

Enquanto houver...



O que me protege

Do interior.





37 - Mudança

Autor: Carlos Henrique Rangel



Os cômodos vazio...

Não mais os passos da família...

A algazarra das crianças correndo no corredor...



Na sala, não vejo o sofá...

Apenas a marca na parede identifica o lugar...

A poltrona do Pai ficava ali...

Quase um Trono...

Mesmo sem ela sinto a presença...

O olhar fixo na tela da TV...

Na parede, os furos...

Os quadros infantis das meninas

não estão mais...



Ouço sem ouvir um som na cozinha...

Não há mais fogão

nem louças para lavar...

O sorriso da Mãe, no entanto, está no ar.

O cheiro da comida fresquinha está no ar.



Ando pelo corredor procurando os que não estão mais...

No quarto... Na estante vazia vejo as sombras dos livros adivinhando seus lugares...

As lágrimas nublam os detalhes...

O quarto da Mãe ... E do Pai para onde corria nas madrugadas de chuva me abrigando no ninho protetor...

Lugar sagrado de confidências juvenis...



A casa vazia está cheia...

E o meu peito

E minha alma...

Abro a janela

E vejo a vizinhança mudada...



Também eu mudei...

E a Casa...



(mudar é um começo ou o fim?)











38- Há um Tempo

 Autor: Carlos Henrique Rangel



Há um tempo para

Nascer

Um tempo para

Crescer

Para aprender...



Há um tempo para

Acrescentar

Um tempo para

Descartar... 

Há um tempo para

Sorrir

Um tempo para

Chorar...

Um tempo para

Amar

E muitas vezes

Odiar... 



Há um tempo para

Esquecer

Há um tempo para

Rejeitar

Um tempo para

Valorizar

E respeitar

Um tempo para

Construir

Um tempo para

Destruir...

Muito tempo para

Lamentar...



Há um tempo para

Restaurar

Para valorizar

Para reproduzir

E transformar...



Há um tempo...

Muitos tempos

Para influenciar

Observar

Relembrar...



Um tempo para

Continuar...

Com dignidade...

Com identidade

E respeito às

Identidades.



Há um tempo para

Vivenciar

Compartilhar

Reproduzir...

Para Ser...



Há um tempo

Há um templo

Há...

Ar tempo

Há tempo

Há!









39 – Limite

Autor: Carlos Henrique Rangel



Não seja duro comigo

(ou consigo)

Não sou seu inimigo...

Relaxe

Respire fundo,

Veja o que

Há no mundo...



Esqueça as

Suas verdades...

Olha:

Existem mais verdades...

E não são

Minhas

Nem suas.

Estão no ar...

E em tudo.



Não feche seu

Mundo...

Abra o seu coração

E sua mente.



Não determine

Nada.

Tudo pode ser

O limite...

Cultura...

Cultura

Não tem limite

E eu...

Muito menos...











40 - A SEMANA

Autor: Carlos Henrique Rangel



SEGUNDA FEIRA



Os negros escravos sorriam.

O Senhor sorria.

A Senhora devotada admirava o sobrado novo

De novas portas e janelas e sacadas.

Orgulho da família.

Orgulho da rua...

Orgulho da Cidade.



TERÇA FEIRA



A Jovem senhora,

Rosto suado do grande esforço,

Chora ao ver a criança.

Pequeno rebento...

O herdeiro esperado.

A negra sorri para o Senhor:

-      É menino!

O Senhor abre a janela e explode:

-      É menino!

O povo na rua acompanha a alegria:

-É MENINO!



QUARTA FEIRA



O senhor de meia idade

olha com tristeza o sobrado onde nasceu.

No velho paletó desbotado, a foto de outros tempos...

Um último olhar...

O adeus...



QUINTA FEIRA



Presa às sacadas, a placa com o nome da Escola.

O menino despede da mãe e olha o sobrado.

“Templo do Saber”...

Segundo lar...

Primeiro dia de aula...







SEXTA FEIRA



O senhor de cabelos grisalhos, olha com tristeza

O Sobrado abandonado...

Lembra da professora Ana que lhe ensinou

as primeiras letras...

Um grupo de garotos passa

E uma pedra quebra a última vidraça...



SÁBADO 



A chuva caia forte sobre o telhado envelhecido.

A madeira range...

Uma telha cai sobre a rua...

Um pouco mais, outro rangido...

A cobertura cai de vez...

Com ela, duas paredes laterais...

Um carro passa devagar.



O motorista olha sem olhar...



DOMINGO 



Banda de música, foguetes, sorrisos, discursos.

O prefeito admira a nova Prefeitura...

Um velho senhor em cadeira de rodas

não sorri...

Em sua mão enrugada

uma fotografia em preto e branco

mostra um grupo de meninos uniformizados...

Um Sobrado ao fundo...

Discursos, sorrisos, foguetes, banda de música...

Uma lágrima banha a velha foto...



(Segunda feira ninguém sabe o que será...)




41 - A Pessoa Estranha

Autor: Carlos Henrique Rangel



Era uma pessoa estranha.

Falava estranho:

Palavras estranhas, diferentes...



Todos falavam de um jeito...

Ele falava de outro.



Comia outras comidas,

Bebia outras bebidas,

Vestia outros vestidos,

Rezava para outros deuses...  

Diferente!

Estranho!

E todos sabiam.

E todos sentiam.



Vinha de terra distante,

Lugares de outras gentes.



De sabedorias estranhas,

De belezas feias...

De todos distanciava

E todos dele distanciavam.



A pessoa estranha...

O “Diferente”...

O “Distante”...



Um dia, por curiosidade,

O procurei

E de coragem me armei.

A pergunta antiga pronunciei:

- Por que tanta diferença?

Por que você é tão estranho?



O “Diferente” sorriu espantado

E disse em sua fala diferente:

-Estranho Eu?

Não seriam estranhos vocês

Que tudo diferente fazem?

Que caminham por rumos estranhos

Que o meu antigo povo ignora?

Que comem coisas estranhas?

Vestem vestidos estranhos?

Adoram deuses estranhos?





Estranho Eu?

QUE ESTRANHO !



Olhei o Homem Estranho

Com sua fala estranha

E sorri...

Um sorriso que para ele parecia muito ESTRANHO.



(o início de uma convivência)



-------------------------------------------------------------

QUESTIONÁRIO

1- Por quê a pessoa parecia estranha?

2 – Por quê os povos são diferentes?

3 – Compare a sua cidade com a cidade vizinha.

Existem diferenças? Quais?














42 - Arteiro Ou A Arte No Terreiro

Autor: Carlos H. Rangel



A mão amassa o barro.

Massa moldada

Acariciada

Massa que forma

No calor da carne

Algo/alguém  além barro...

Além massa...

A magia

De ser deus menor

Construindo mundos,

Dando nova forma

Ao que não era

Fazendo ser...

Deus domina

Sobre terra

E ar... E fazer.















43 - A Caixa ou ICMS

(para não dizer que não falei das caixas)

AUTOR: Carlos Henrique Rangel



A caixa

Carrega o mundo.

O mundo que importa.

Mundo mineiro

De tamanho diverso

Cheio de vidas locais...



A caixa fala de gente

E fazer de gente.

Quase dá para sentir

O suor dos brincantes

O cheiro de mofo dos casarões

O cheiro de comida salgada/doce

O cheiro de vela adorando...



A caixa respira vida mineira

Centenas de caixas...

Milhões de vidas...



As cores são muitas...

Muitos sobrados

Muitas igrejas

E fazendas

E sítios de homens do passado

Negros e índios...



Espaços de homens

Se  espremem nas caixas.

Parecem iguais

Quase vulgares em seu formato.

Mas as caixas...

As caixas são diversas

Mineiramente diversas

E belas

Como os seus fazedores

Esse povo culto e oculto

De Minas Gerais.








Nenhum comentário:

Postar um comentário