PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

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segunda-feira, 11 de junho de 2012

PATRIMÔNIO MATERIAL - ALEGORIA DO PATRIMÔNIO

A ALEGORIA DO PATRIMÔNIO



MONUMENTO E MONUMENTO HISTÓRICO

“Arquiteturas e espaços não devem ser fixados por uma ideia de conservação intransigente, mas sim manter sua dinâmica: este é o caso da pirâmide do Louvre.

Os proprietários, por sua vez, reivindicam o direito de dispor livremente de seus bens para deles tirar o prazer ou o proveito que bem entendam. O argumento se choca, na França, com uma legislação que privilegia o interesse público. Ele continua, porém, a prevalecer nos Estados Unidos, onde a limitação do uso do patrimônio histórico privado é considerada um atentado contra a liberdade dos cidadãos.

As vozes discordantes desses opositores são tão poderosas quanto sua determinação. Cada dia traz uma nova mostra disso. Contudo, as ameaças permanentes que pesam sobre o patrimônio não impedem um amplo consenso em favor de sua conservação e de sua proteção, que são oficialmente defendidas em nome dos valores científicos, estéticos, memoriais, sociais e urbano, representados por esse patrimônio nas sociedades industriais avançadas. Um antropólogo americano pode afirmar que, pela mediação do turismo de arte, o patrimônio representado pelas edificações constituirá o elo federativo da sociedade mundial.

Consenso/contestação: as razões e os valores invocados em favor das duas respectivas posições requerem uma análise e uma avaliação críticas. Inflação: foi atribuída a uma estratégia política; comporta evidentemente uma dimensão econômica e marca, com certeza, uma reação contra a mediocridade da urbanização contemporânea. Essas interpretações das condutas patrimoniais não bastam, porem, para explicar seus extraordinário desenvolvimento. Elas não esgotam o sentido.”(p. 16,18).

(...)

Nesse sentido primeiro, chamar-se-á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorarem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. Não apenas ele a trabalha e a mobiliza pela mediação da afetividade, de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente. Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional, tribal ou familiar. (...)

O monumento assegura, acalma, tranquiliza, conjurando o ser do tempo. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação gerada pela incerteza dos começos. Desafio à entropia, à ação dissolvente que o tempo exerce sobre todas as coisas naturais e artificiais, ele tenta combater a angústia da morte e do aniquilamento.

Sua relação com o tempo vivido e com a memória, ou, dito de outra forma, sua função antropológica, constitui a essência do monumento.”

O monumento histórico é uma invenção, bem datada, do ocidente. Vimos com que sucesso o conceito foi exportado e como progressivamente se difundiu fora da Europa a partir da segunda metade do século XIX.


(...)

Todo objeto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem que para isso tenha tido, na origem, uma destinação memorial. De modo inverso, cumpre lembrar que todo artefato humano pode ser deliberadamente investido de uma função memorial. Quanto ao prazer proporcionado pela arte, tampouco é apanágio exclusivo do monumento.

O monumento tem por finalidade fazer reviver um passado mergulhado no tempo. O monumento histórico relaciona-se de forma diferente com a memória viva e com a duração. Ou ele é simplesmente constituído em objeto de saber e integrado numa concepção linear do tempo – nesse caso, seu valor cognitivo relega-o inexoravelmente ao passado, ou antes à história em geral, ou à história da arte em particular -; ou então ele pode, além disso, como obra de arte, dirigir-se à nossa sensibilidade artística, ao nosso “desejo de arte” (kunstwollen): neste caso, ele se torna parte constitutiva do presente vivido, mas sem a mediação da memória ou da história.

(...)

A destruição positiva, também generalizada, chama menos a atenção. Ela se apresenta sob modalidades diferentes. Uma, ritual, é própria de certos povos, tais como os japoneses, que, sem reverenciar, como nós, as marcas do tempo em seus monumentos, constroem periodicamente réplicas exatas de templos, originais, cujas cópias anteriores são então destruídas. A outra, criativa, tem muitos exemplares na Europa. Para engrandecer e dar mais esplendor ao santuário onde o “bem-aventurado Denis permaneceu durante quinhentos anos”, Surge mandou destruir em parte, no decorrer da década de 1130, a basílica carolíngia que a tradição atribuía a Dagoberto. O mais precioso e venerável monumento da cristandade, a catedral de São Pedro, em Roma, não foi demolida depois de quase doze séculos, por uma decisão de Júlio II? Tratava-se de substituí-la por um edifício grandioso, cuja magnificência e cenografia pudessem lembrar o poder conquistado pela Igreja desde a época de Constantino e as novas inflexões de sua doutrina.

Em contrapartida, uma vez que se insere em um lugar imutável e definitivo num conjunto objetivado e fixado pelo saber, o monumento histórico exige, dentro da lógica desse saber, e ao menos teoricamente, uma conservação incondicional.

FONTE: CHOAY , Françoise. A Alegoria do Patrimônio . São Paulo: Estação Liberdade: Editora UNESP, 2001 P. 17 A 28.



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