PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

quinta-feira, 17 de junho de 2010

LEMBRANÇAS II

LEMBRANÇAS II
Autor: Carlos Henrique Rangel

Eu preciso lembrar...
Lembrar é a minha natureza...
O que sou
Depende da minha lembrança.
Tudo o que passou
Eu lembro ou tento.
E algumas coisas
Que não lembro,
Coisas me fazem lembrar.
É isso que sou:
Um poço de lembranças
Do que quero lembrar.
Do que quero esquecer.
Minha lembrança me trai
Muitas vezes.
Mente para mim.
Mas é para o meu bem.
Eu sei...
Eu preciso lembrar
Para ser.
Lembrar é a minha natureza.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

IDENTIDADE

IDENTIDADE - O QUE SOU?
Autor: Carlos Henrique Rangel

Esse planeta em que vivemos é formado de coisas e seres.
Estamos aqui e sabemos que fazemos parte da humanidade.
A nossa identidade é construída todo dia e, no entanto, antes que fossemos ela já existia.
O embrião de parte do que sou já existia em meus antepassados.
Essa construção diária do que sou sofre influências também do meio onde vivo.
O que sou está no passado, no presente e nos espaços físicos que me rodeiam.
Sou influenciado pelos lugares e pelos outros seres humanos.
O que sou eu aprendi e construí com os meus e guardo em minha memória.
Devo aprender sempre e também transmitir, ensinar para que outros possam lembrar.
No entanto, teimo em esquecer por que infelizmente não lembro de tudo.
Para não esquecer eu guardo o que pode me fazer lembrar.
Posso escrever, posso documentar e posso incorporar valores e lembranças às coisas para que elas me façam lembrar.
Então, se quero lembrar quem sou preciso preservar esses suportes/guardiões da memória para continuar sendo sempre.
Só preservo o que sei, o que conheço e me importa.
Importo-me com meu presente e com o meu futuro.
Minha identidade é a minha fortaleza para entender o mundo.
Assim, essas coisas que são meus bens individuais e coletivos, me importam por que falam de mim e dos meus.
Não são eternas assim como eu também não o sou. Mas, se eu cuidar, conservar, preservar, divulgar poderão continuar transmitindo conhecimento quando eu não mais estiver.

Vejo os bens culturais com vitaminas da identidade e da cidadania.
Preciso destas vitaminas para continuar crescendo com dignidade.

sábado, 12 de junho de 2010

PATRIMÔNIO CULTURAL - CARTILHA

A CIDADE DO PRIMO MAURO
Autor: Carlos Henrique Rangel


O ônibus parou na rodoviária da pequena cidade e Paulo desceu meio sonolento.

Olhou ao redor e prosseguiu em linha reta em direção à rua que parecia ser a principal.

Logo na primeira esquina encontrou um grupo de pessoas que observava alguns homens trabalhando e resolveu se informar.

- Por favor, poderia me dar uma informação? – Perguntou a um rapaz que estava mais próximo.

- Claro, o que você deseja saber?

- Estou procurando a Rua das Flores.
- É a minha rua. Quem você está procurando? Conheço todo mundo que mora lá. – Disse o rapaz.

- Procuro Mauro Junqueira, meu primo.

- Que coincidência, o Maurinho é meu vizinho. Levo-te lá, mas espera só um instante, deixa eu ver eles colocarem aquela janela.

- O que está acontecendo? Estão demolindo esta casa velha? – Perguntou Paulo.

- Estão restaurando.

- Está muito ruinzinha, não seria mais fácil deixar cair?

- Não, esta casa é muito importante para nós.

- É muito velha, neste terreno poderiam construir um prédio que seria muito mais bonito e importante...

- Esta casa faz parte da nossa cultura.

- Cultura?

- É, foi construída pelo fundador da cidade e está cheia de histórias,lembranças e vivências. Nós não conseguimos imaginar a Rua Principal sem ela. É parte da nossa identidade... Nossa memória.

- Tudo bem, mas vocês vão colocar umas portas e janelas modernas, né?
- A obra não é uma reforma. É uma restauração.

- Não vejo a diferença...

- A restauração não muda nada, mantém as mesmas características da construção, até mesmo as janelas e portas.

- Interessante... Mas e depois de concluída, o que vai ser?

- Vai ser a sede do Bispado.

- Pensei que ia ser um centro cultural.

- Nós já temos um centro cultural que ocupa um outro casarão histórico.

- É, eu já notei que a sua cidade é cheia de casas antigas.

- Tentamos preservar nossa história e as casas construídas pelos nossos bisavós e seus avós. Assim conservamos nossas raízes, nosso elo com o passado, nossa origem, nossa identidade coletiva, ou seja, o que nos diferencia das outras cidades.

- Mas desse jeito como fica o progresso?

- Preservar o nosso patrimônio não impede o progresso. Os dois convivem até muito bem.

- Patrimônio?

- É, patrimônio cultural é a nossa herança deixada pelos antepassados, as festas tradicionais, o nosso modo de falar e agir, os monumentos, as imagens, os acervos Arquivísticos, as construções antigas como os casarões e as igrejas e até mesmo as construções mais recentes que têm uma importância pelo estilo e beleza e que também são nossos bens culturais.

- Interessante, mas o progresso...

- É, eu estava te dizendo: nestes casarões do nosso passado, moram famílias que possuem televisão, vídeo e até computadores. É claro que todas possuem banheiros modernos.

- Assim é diferente. Eu pensei que toda casa antiga era como um museu.

- Não são. Elas podem ter várias utilidades: moradia, clubes, associações... Contanto que não sejam alteradas. O nosso centro histórico é todo tombado e nem por isto deixou de ter vida.
- Tombado?

- É, o tombamento é um instrumento legal utilizado para proteger um bem cultural. Quando uma casa, ou uma imagem, documento ou praça é tombado, não pode ser destruído ou mesmo ser modificado sem autorização.

- Qualquer bem cultural pode ser tombado?

- Infelizmente não... Somente os bens culturais tangíveis como as casas, praças, imagens, documentos é que podem ser protegidos pelo instituto do tombamento. Mas os bens intangíveis, ou seja, os que não podemos pegar podem ser preservados através de incentivos e registros.

- É? Mas quem decide isto?

- Ah, existe o órgão federal, o IPHAN que protege aqueles bens culturais que são importantes para o país. No Estado existe o IEPHA, que preserva os bens que são importantes para todo o Estado de Minas Gerais e nos municípios existem os conselhos municipais do patrimônio cultural que tombam os bens de importância local. O nosso centro histórico é tombado por decisão do Conselho Municipal que é formado por representantes de associações, escolas, prefeitura, câmara, igreja etc.

- Esse Conselho decide tudo sozinho?

- Não, a equipe do Departamento de Patrimônio Cultural da Prefeitura faz um estudo para justificar a importância do bem cultural chamado “dossiê de tombamento”, que é encaminhado ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural para ser analisado.

- Departamento de Patrimônio Cultural?

- É... Aqui em nossa cidade existe um departamento que faz estudos sobre os bens culturais. Em outras cidades existem chefias de cultura ou coordenação de patrimônio, mas têm a mesma função. A equipe técnica normalmente formada por historiadores, arquitetos e restauradores, elabora o dossiê com todas as informações sobre o bem cultural que vai ser tombado e encaminha ao Conselho.

- Interessante...

- O Conselho, depois que analisa o dossiê e decide pelo tombamento, encaminha uma notificação ao proprietário que tem quinze dias para se manifestar contra ou a favor. Vencido o prazo, o prefeito publica a decisão através de decreto no jornal da cidade.

- Eu não concordaria...
- Se não concordar tem que justificar. Aí o Conselho em uma nova reunião, decide pela manutenção do tombamento ou não, dependendo do estudo da documentação do proprietário.
- Se fosse minha casa eu não ia concordar... Vê lá se vou concordar em ficar sem minha casa...

- Mas você não fica sem a casa. Ela continua sendo sua.

- Mas não posso mexer nela...

- Você não pode é destruir ou reformar sem a análise e autorização do Conselho...

- Nem vender ou alugar...

- Pode sim, pode vender e alugar.

- Assim é bem melhor... Mas manter uma casa desta é muito caro, não é ?

- É, mas a Prefeitura dá isenção de imposto predial e fornece técnicos para ajudar nas obras de restauração. Em nossa cidade, as empresas ajudam porque também fazem parte da comunidade e a comunidade é a principal responsável por este patrimônio.

- Interessante... Mas vem cá, como é que o Departamento de Patrimônio Cultural e o Conselho decidem o que é importante preservar?

- Primeiro é preciso conhecer, não é? A equipe técnica do Departamento de Patrimônio Cultural faz um inventário de tudo que é importante no município com a ajuda da comunidade. Levanta informações sobre os casarões, sobrados, fazendas, igrejas, imagens sacras, festas, arquivos, sítios naturais, sítios arqueológicos e espeleológicos... Estas informações coletadas sobre os bens são postas em fichas com fotos. Depois de analisadas e discutidas com a comunidade, os bens são selecionados para serem protegidos através do tombamento.

- É muito trabalho... Mas me diga uma coisa, só o tombamento não resolve, não é?

- É... Você tem razão, só o tombamento não resolve. O inventário auxilia na elaboração do Plano Diretor e na elaboração da Lei de Uso e Ocupação do Solo, que é constituída de um conjunto de leis e diretrizes para normatizar uma política de desenvolvimento urbano, garantindo assim um crescimento mais ordenado da cidade, o bem-estar da comunidade e é claro, preservando o patrimônio.

- Nossa! Esse tal de inventário acaba sendo um registro muito importante...

- É sim. Mas também é importante a participação de todos na preservação, no cuidado constante. A substituição de uma telha quebrada resolve problemas futuros que ficariam muito mais caros. Discutir a preservação do patrimônio nas escolas é outra solução porque assim estaríamos formando novas gerações com outra visão sobre a sua cidade e seu passado.
- Eu gostei disto... E tem as empresas, não é?

- Como eu disse, as empresas podem ajudar muito. Existem as leis de incentivos federal, estadual e municipal que diminuem os impostos das empresas que investem na restauração do patrimônio cultural.

- Que legal...

- As Prefeituras também podem ajudar porque a lei n. º 18.030 repassa mais recursos do ICMS Patrimônio Cultural.

- Não entendi...

- Existe uma lei estadual, a n.º 18.030, que define critérios para o repasse de recursos do ICMS para os municípios. Um dos critérios é a proteção do patrimônio cultural. O município que investe na preservação do seu acervo cultural recebe mais dinheiro. Quanto mais investe, mais recebe.

- Quer dizer que é vantagem para todo mundo?

- Para todo mundo. A preservação da memória, dos marcos do nosso passado, das nossas raízes que nos fazem ser o que somos, nos enche de orgulho, prazer e de dignidade.
- Olha... Como é mesmo o seu nome?

- João.

- Prazer... o meu é Paulo... A gente conversou sobre tanta coisa e nem tínhamos nos apresentado...

- É...

- Olha, é muito legal tudo isto, tenho que saber mais sobre este assunto.

- No Departamento de Patrimônio Cultural o pessoal vai te passar mais informações.

- Vou procurá–lo depois.

- Sabe, Paulo, a coisa é lenta, mas vale a pena. Hoje somos um povo muito mais feliz. A qualidade de vida de nossa cidade é muito boa.
- A sua cidade é muito bonita. Muito legal o que vocês estão fazendo. Quando voltar para minha terra vou discutir isto com os meus colegas de escola.

- Bem, agora vou te levar para a casa do Maurinho.

FIM



EXERCÍCIOS

1- Dê alguns exemplos de bens culturais do povo mineiro.
2- O que uma comunidade pode fazer para proteger o seu patrimônio cultural?
3- Quais os critérios básicos que definem a importância de um bem cultural?
4- Defina Inventário de Proteção ao Patrimônio Cultural. Qual a sua importância?
5- De que maneira o empresariado pode atuar na preservação e quais as vantagens que pode obter?
6- Quais os bens culturais que podem ser protegidos pelo instituto do tombamento?
Porque?
7- Qual o papel do Departamento de Patrimônio Cultural?
8- Quem pode solicitar o tombamento de um bem cultural?
9- Como se inicia um processo de tombamento?
10- Quem pode impugnar o tombamento e como isto pode ser feito?
11- Quais as vantagens do tombamento para a comunidade?
12- Paulo pensou que estavam reformando o Casarão. Diferencie reforma e restauração.
13- Como preservar as manifestações folclóricas de uma comunidade?
14- O que pode ser feito para preservar um bem cultural que se encontra abandonado e em franco processo de arruinamento?
15- Procure em sua casa objetos que você considera patrimônio de sua família para a montagem de uma exposição na sala de aula.
16- Faça uma pesquisa ilustrada com fotografias sobre um bem cultural justificando a sua importância para a sua cidade.
17- Defina: IPHAN - IEPHA - TOMBAMENTO - CULTURA - PATRIMÔNIO CULTURAL
18- Faça um inventário das casas mais antigas de sua rua ilustrando com fotografias e dados sobre sua história (construtor, época da construção, primeiros moradores, usos, etc.)
19- Faça uma entrevista com um parente mais velho sobre a sua vida na infância e adolescência: onde morava, onde estudava, se trabalhava, como brincava, lugares que freqüentava, músicas que ouvia, como se vestia.

terça-feira, 1 de junho de 2010

PASSADO

MEU PASSADO
Autor: Carlos Henrique Rangel

Eu não culpo
Meu passado.
Nem ele
Transformou-se
Em culpa.
Eu sou
O que passou
Comigo
E com os meus.

Planejo a continuação
Em alicerces antigos.
Meu futuro
Eu construo agora
Com um olhar
Para trás.
Não há como
Não olhar...
Não serei nada
Se não olhar.

Meu suporte
É o que ficou.
E o que ficou
Me faz lembrar.
Eu não tenho
Culpas passadas.
Os erros,
Eu os corrijo agora.
O amanhã
Vai ser melhor...



domingo, 23 de maio de 2010

PASSADO

PASSADO
Autor: Carlos Henrique Rangel


O passado me é caro
e me custa caro...
Sou seu devedor...
O que sou
Ele me deu
do bom e do pior.
Meu passado
Não é descartável.
Não rasgo.
Não vendo.
Não dou...
Minhas feridas
Eu as lambo...


Cicatrizes?
Esses troféus
São meus.

domingo, 16 de maio de 2010

O ESPÍRITO DO LUGAR

O Espírito do Lugar/ O Lugar do espírito
Autor: Carlos Henrique Rangel

Cada lugar tem seu espírito
Aquele algo que se sente no ar.
O cheiro de alho na véspera do almoço.
O vento da manhã...
O cheiro de terra molhada...
O padeiro gritão pão...
Os meninos com bola.
O namoro depois da missa...
A ponte
O rio
O cheiro do rio...

A noite tem gente nos bancos...
Ainda...
Domingo tem jogo
Hoje é dia de compra,
O Robinho vai carregar...
Os bares estão cheios...
Nenhum foguete...
O time perdeu.
A praça está cheia...
A noite tem pizzaria.
Amanhã é segunda-feira...
Cedo todo mundo ao colégio...
Ônibus cheio...
Meu espírito está cheio do lugar
Há sempre lugar para as lembranças...
Sempre haverá.
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EXORCISMO CULTURAL
Autor: Carlos Henrique Rangel

Assim como há o espírito do lugar,
Existe também o espírito do não lugar.
Lugar há que espírito tem.
Lugar há onde não há.
Foi EXORCIZADO
por destruidores de lugar.

Há almas sem espíritos
Roubados que foram por amor falido.
Há espíritos sem lugar.
Perderam a vez
Foram ao ar.
Cuidado amigos
com o exorcismo cultural.
Já aconteceu em vários lugares
Ninguém está livre deste mal.

VEJA O DOCUMENTÁRIO:


http://www.youtube.com/watch?v=AhqfbvegoWI

segunda-feira, 10 de maio de 2010

ESPÍRITO DO LUGAR - DECLARAÇÃO DE QUEBEC

DECLARAÇÃO DE QUÉBEC
Sobre a preservação do "Spiritu loci"

Assumido em Québec, Canadá, em 4 de outubro de 2008

INTRODUÇÃO
Reunião na histórica cidade de Québec (Canadá) de 29 de setembro a 4 de outubro, 2008, a convite do ICOMOS, Canadá, na ocasião da 16ª Assembléia Geral do ICOMOS e dos festejos do aniversário de 400 anos da fundação de Québec.
Os participantes assumem a seguinte Declaração de princípios e recomendações para a preservação do spiritu loci através da proteção do patrimônio tangível e intangível, considerado uma forma inovadora e eficiente de assegurar o desenvolvimento sustentável e social no mundo inteiro.
Esta Declaração é parte de uma série de medidas e ações tomadas pelo ICOMOS no decurso dos últimos cinco anos para proteger e promover o espírito dos lugares, isto é, sua essência de vida, social e espiritual. Em 2003, o ICOMOS enfocou o simpósio científico de sua 14ª Assembléia Geral sobre o tema da preservação dos valores sociais intangíveis de monumentos e sítios. Na Declaração Kimberly, que logo se seguiu, o ICOMOS se comprometeu a considerar os valores intangíveis (memória, crenças, conhecimento tradicional, ligação ao lugar) e também as comunidades locais, guardiãs destes valores, no manejo e preservação de monumentos e sítios em conformidade com a Convenção do
Patrimônio Mundial de 1972. Em 2005, a Declaração Xi'an do ICOMOS chamou atenção para a conservação de contextos definidos enquanto aspectos físicos, visuais e naturais, assim como práticas sociais e espirituais, costumes, conhecimento tradicional e outras formas e expressões intangíveis na proteção e promoção dos monumentos e sítios que compõem o patrimônio mundial. Ainda, chama atenção para a abordagem multidisciplinar e as diversificadas fontes de informação para melhor compreender, administrar e conservar o contexto.

A Declaração de Foz do Iguaçu, elaborada em 2008 pelo ICOMOS Américas especifica que os componentes tangíveis e intangíveis do patrimônio são essenciais para a preservação da identidade das comunidades que criaram e transmitiram espaços de relevância cultural e histórica.
As novas Cartas do ICOMOS para Roteiros Culturais e sobre interpretação e apresentação formuladas após amplas consultas e apresentadas para ratificação na atual 16ª Assembléia Geral do ICOMOS, também reconhecem a importância das dimensões intangíveis do patrimônio e o valor espiritual dos lugares. Devido à natureza indivisível do patrimônio tangível e intangível e aos significados, valores e contexto que o patrimônio intangível assegura aos objetos e lugares, atualmente o ICOMOS está considerando a adoção de uma nova Carta especificamente dedicada ao patrimônio intangível de monumentos e de sítios. A este respeito, estamos fomentando discussões e debates para o desenvolvimento de
um novo vocabulário conceitual devido às mudanças ontológicas do espírito do lugar.
A 16ª Assembléia Geral e mais especificamente o Fórum da Juventude, o Foro dos Aborígines e o Simpósio Científico nos deram a oportunidade de explorar com maior profundidade as relações entre o patrimônio tangível e intangível e os mecanismos culturais
e sociais internos do espírito do lugar. O espírito do lugar é definido como os elementos tangíveis (edifícios, sítios, paisagens, rotas, objetos) e intangíveis (memórias, narrativas, documentos escritos, rituais, festivais, conhecimento tradicional, valores, texturas, cores, odores, etc.) isto é, os elementos físicos e espirituais que dão sentido, emoção e mistério ao lugar.
Em vez de separar o espírito do lugar, o intangível do tangível e considerá‐los como antagônicos entre si, investigamos as muitas maneiras dos dois interagirem e se construírem mutuamente.
O espírito do lugar é construído por vários atores sociais,
seus arquitetos e gestores, bem como seus usuários que contribuem ativamente e em conjunto para dar‐lhe um sentido.
Visto como um conceito relacional, o espírito do lugar assume ao longo do tempo um
caráter plural e dinâmico capaz de possuir múltiplos sentidos e peculiaridades de mudança, e de pertencer a grupos diversos. Esta abordagem mais dinâmica se adapta melhor ao mundo globalizado atual, caracterizado por movimentos transnacionais da população, relocação populacional, contatos interculturais crescentes, sociedades pluralísticas e múltiplas ligações ao lugar.
O espírito do lugar oferece uma compreensão mais abrangente do caráter vivo e, ao
mesmo tempo, permanente de monumentos, sítios e paisagens culturais. Supre uma visão rica, mais dinâmica e abrangente do patrimônio cultural. O espírito do lugar existe, de uma forma ou de outra em praticamente todas as culturas do mundo e é construído por seres humanos em resposta às suas necessidades sociais. As comunidades que habitam o lugar, especialmente quando se trata de sociedades tradicionais, deveriam estar intimamente associadas à
proteção de sua memória, vitalidade, continuidade e espiritualidade.
Os participantes da 16ª Assembléia Geral do ICOMOS, assim sendo, lavram a seguinte Declaração de princípios e recomendações para organizações intergovernamentais e não governamentais, autoridades nacionais ou locais e todas as instituições e especialistas habilitadas a contribuir, por intermédio da legislação, de políticas, e de processos de
planejamento e gestão, para melhor proteger e promover o espírito do lugar.

REPENSANDO O ESPIRITO DO LUGAR
1. Reconhecendo que o espírito do lugar é composto por elementos tangíveis (sítios,
edifícios, paisagens, rotas, objetos) bem como de intangíveis (memórias, narrativas,
documentos escritos, festivais, comemorações, rituais, conhecimento tradicional,
valores, texturas, cores, odores, etc.) e que todos dão uma contribuição importante
para formar o lugar e lhe conferir um espírito, declaramos que o patrimônio cultural
intangível confere um significado mais rico e mais completo ao patrimônio como um
todo, e deve ser considerado em toda e qualquer legislação referente ao patrimônio
cultural e em todos os projetos de conservação e restauro para monumentos sítios,
paisagens, rotas e acervos de objetos.

2. Considerando que o espírito do lugar é complexo e multiforme, exigimos que os governos e outros interessados convoquem a perícia de equipes de pesquisa
multidisciplinar e especialistas com tradição para melhor compreender, preservar e
transmitir este espírito do lugar.

3. Como o espírito do lugar é um processo em permanente reconstrução, que
corresponde à necessidade por mudança e continuação das comunidades, nós
afirmamos que pode variar ao longo do tempo e de uma cultura para outra, em
conformidade com suas práticas de memória, e que um lugar pode ter vários
espíritos e pode ser compartilhado por grupos diferentes.

IDENTIFICANDO AS AMEAÇAS AO ESPÍRITO DO LUGAR

4. Considerando que mudança climática, turismo em massa, conflitos armados e
desenvolvimento urbano induzem transformações e ruptura das sociedades,
precisamos melhorar nosso entendimento sobre estas ameaças para poder
estabelecer medidas preventivas e soluções sustentáveis.
Recomendamos que entidades governamentais e não governamentais e
organizações do patrimônio local e nacional desenvolvam planejamento estratégico a
longo prazo para prevenir a degradação do espírito do lugar e seu entorno. Os
habitantes e autoridades locais deveriam também ser conscientizados sobre a
proteção do espírito do lugar, para que assim estejam melhor preparados a lidar com
as ameaças de um mundo em transformação.

5. À medida que aumenta o compartilhamento dos lugares empossados com diferentes
espíritos por vários grupos, aumenta o risco de competição e conflito.
Reconhecemos que estes sítios requerem gestão, planejamento e estratégias
específicas, ajustadas ao contexto pluralístico das sociedades multiculturais
modernas. Como as ameaças ao espírito do lugar são especialmente poderosas entre grupos minoritários, sejam nativos ou recém‐chegados, recomendamos que estes grupos sejam os primeiros e mais importantes a se beneficiar de políticas e práticas específicas.

PROTEGENDO O ESPIRITO DO LUGAR
6. Como hoje em dia na maioria dos países do mundo o espírito do lugar, sobretudo
seus componentes intangíveis, atualmente não se beneficiam de programas de
educação formal ou de proteção legal, recomendamos a implementação de reuniões
e consultorias com peritos de diferentes origens e recursos, pessoas das
comunidades locais, e o desenvolvimento de programas de treinamento e políticas
jurídicas para uma melhor proteção e promoção do espírito do lugar.

7. Considerando que modernas tecnologias digitais (bancos de dados, websites) podem
ser usadas eficaz e efetivamente a um custo muito baixo para desenvolver
inventários multimídia que integrem elementos tangíveis e intangíveis do
patrimônio, nós incisivamente recomendamos seu amplo uso para melhor preservar,
disseminar e promover os sítios do patrimônio e seu espírito. Estas tecnologias
facilitam a diversidade e renovação constante da documentação sobre o espírito do
lugar.

TRANSMITINDO O ESPIRITO DO LUGAR
8. Reconhecendo que o espírito do lugar é essencialmente transmitido por pessoas e
que a transmissão é parte importante de sua conservação, declaramos que é por
meio de comunicação interativa e participação das comunidades envolvidas que o espírito do lugar é preservado e realçado da melhor forma possível. A comunicação
é, de fato, a melhor ferramenta para manter vivo o espírito do lugar.

9. Dado que geralmente as comunidades locais estão mais bem posicionadas para compreender o espírito do lugar, sobretudo no caso de grupos culturais tradicionais,
nós afirmamos que são também aquelas melhor equipadas para sua salvaguarda e
que estas devem estar intimamente associadas em todos os esforços para preservar
e transmitir o espírito do lugar. Meios de transmissão não‐formais (narrativas,
rituais, atuações, experiência e práticas tradicionais etc.) e formais (programas
educativos, bancos de dados digitais, websites, ferramentas pedagógicas,
apresentações multimídia, etc.) deveriam ser fomentados, porque não apenas
garantem a proteção do espírito do lugar mas, acima de tudo, protegem o
desenvolvimento sustentável e social da comunidade.

10. Reconhecendo que a transmissão intergeracões e transcultural desempenha um
papel importante na disseminação sustentada e na preservação do espírito do lugar,
recomendamos a associação e o envolvimento das gerações mais novas, bem como
de grupos culturais diferentes associados ao lugar, na tomada de decisões políticas e
gestão do espírito do lugar.