PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

História de Vida - Carlos Henrique Rangel

 HISTÓRIA DE VIDA

PARTE I
Meu nome é Carlos Henrique Rangel, filho de Zilá Costa Rangel e Carlos Athayde Rangel.
Nasci na Rua Salinas, bairro Santa Teresa, Belo Horizonte, em 12 de maio de 1958, no mesmo dia de nascimento do meu pai.
Moramos depois na rua Silvianópolis, de frente para o ''Isolado'' um hospital de tuberculosos no bairro Santa Tereza.
Minha mais antiga lembrança vem desta morada.
Marcante é a lembrança do causo dos fantasmas associados ao ''Isolado''. Diziam que após a meia noite, fantasmas de dois enfermeiros carregando uma maca atravessavam os muros altos do hospital.
O engraçado é que, sempre que lembro da estória, consigo visualizar a cena.
Outra lembrança é a do nascimento da minha irmã Tereza Cristina.
Quando ela nasceu - criança que éramos - ouvimos o choro e saímos correndo para fora de casa para ver o avião que a jogara para dentro do quarto e até o vimos.
Tereza nos foi apresentada ainda com machas de sangue e aquilo só provava que o avião a jogara de qualquer jeito.
Depois mudamos para o Bairro Sagrada Família - Rua Genoveva de Souza onde morei até os meu dez anos.
Minha lembrança mais marcante é da minha gata e seus três filhotes.
Eles foram sumindo um por um e acabei descobrindo o mistério quando só restava o ''Amaro".
Em uma noite, vi meu pai saindo de casa e pegar o Amaro. Ele abriu o portão e saiu em direção ao Campo do Sete de Setembro, mais tarde conhecido como ''Independência''. O culpado era meu pai. Quando chegou nos altos muros do campo, ele jogou o pobre gato para dentro do campo.
Voltei para casa antes dele e já sabia o que ia fazer no outro dia.
Bem cedo, fui ao campo e achei o Amaro, levando-o de volta para casa.
A surra que levei compensou.
Pai e mãe acabaram por me deixar ficar com o gato, mas disseram que seria o único que teria.
Quando mudamos para o Vale do Jatobá - em 1968 - levamos o Amaro.
A verdade é que não era por ruindade que meus pais não queriam que eu tivesse um gato.
Eu tinha sérias crises de asmas e apesar de várias simpatias realizadas com presteza por minha mãe, elas não passavam.
- Escarrar dentro de um cará que seria enterrado foi uma delas.
Um dia, minha mãe me fez comer uma carne muito salgada.
O estranho ou a coincidência, é que, nesse mesmo dia, o Amaro desapareceu e nunca mais voltou.
Até hoje não sei se era carne de coelho ou a carne do Amaro.
Mamãe nunca deixou isso muito claro.
Quando mudamos para o ''Vale'', o bairro de casas populares da COHAB ainda não tinha nem água e nem luz.
As casas pequenas e iguais nos faziam perder e errar a casa várias vezes quando íamos à bica buscar água.
Eu e minhas irmãs, Fátima, Simone e Tereza, começamos a contar as casas para encontrarmos a nossa.
Apesar de pobres, lembro de ter televisão em casa desde os sete anos.
Aquele período sem assistir TV nos atormentava mais que a escuridão iluminada por vela ou lamparina.
A luz foi se instalando no bairro aos poucos, começando lá no alto da rua 240, onde morávamos.
Então, de noite, para assistirmos a novela ficávamos no muro de uma casa olhando a televisão de um privilegiado morador.
Não ouvíamos nada, mas as imagens nos reconfortava.
Com o tempo água e luz chegaram e a vida foi se normalizando.
Outras boas lembranças desta época foram se acrescentando com o tempo e abordarei em outra postagem.

PARTE 2

Continuando a minha estada no Vale do Jatobá, uma boa lembrança de fim de semana eram os nossos passeios à Cachoeira do Coquinho que fica - se não me engano - no município de Betim.
Subíamos a rua 240, passávamos a caixa d’água do bairro, entravamos em uma trilha no mato.
Descíamos morro. Subíamos morro e novamente descíamos chegando em um pequeno riacho com uma pequena cachoeira onde nadávamos um pouco. Fazíamos um lanche e voltávamos cansados quase ao fim da tarde.
Erámos como bandeirantes desbravando o interior.
Um bando de famílias com crianças de 12 a 6 anos avançando arriscadamente em mato escorregadio.
O ponto alto era o túnel feito de pedra que chamávamos de Túnel dos Escravos.
Pouco depois da boca, havia uma escadaria cheia de musgo devido a água que vinha do seu interior.
Meninos que éramos, não arriscávamos muito além da boca, com medo do que abrigava.
Até hoje não sei o que era ou a que servia.
Outra diversão era pescar na lagoa que havia no início do bairro.
Eu costumava pescar até uns vinte peixes de uns dez centímetros, que punha em uma lata com água, para em casa colocá-los no barril com água que tínhamos em casa.
Um dia mais feliz de pescaria, eu havia adquirido bastante peixe. Cheguei em casa animado, mas ao despejar o conteúdo no barril constatei que havia sido roubado, me restando apenas uns três peixinhos.
Nunca mais confiei nos colegas de pescaria.
Outra lembrança, essa um pouco sinistra e cruel: As caminhadas para a Escola Sesi Minas – onde estudava - em época de migração de sapinhos que saiam do córrego e caminhavam às centenas para a lagoa seguindo no encostamento da estrada.
Saímos pisando-os, nos deliciando com o barulho que faziam ao serem esmagados pelos pés destes pré-adolescentes cruéis.
De triste lembrança foram as caçadas que fazia com a minha espingarda de chumbinho que ganhei do Tio Haroldo.
Ainda bem que não era muito bom de mira e matei poucos passarinhos.
Uma vez persegui um casal de coruja por todo o mato indo e voltando, para, por fim, acertar uma delas. A maior ave que já matei.
Cedinho, mesmo nas manhãs frias ouvia o grito do padeiro cortando o silêncio.
- Padeirooo!
Aquele grito, no início me parecia sobrenatural, solto no ar. Sem uma boca e garganta que o emitia.
E era mágico.
Sempre após a sua passagem, sabia que ia encontrar na sacola de pano previamente esquecida no lado de fora da porta da cozinha, uma bisnaga de pão ainda quente.
Minha mãe recolhia a sacola e logo íamos tomar café nos preparando para ir para a Escola.
Um dia o grito do padeiro ganhou boca, garganta e corpo, quando o vi pela janela.
Uma figura de jaleco e boné brancos carregando uma enorme cesta abarrotada de pão.
Seria de se esperar que a magia se diluísse após esse encontro da boca que gritava a palavra mágica, que fazia surgir o pão que nos alimentava todas as manhãs.
Isso não aconteceu. Só aumentou o respeito e a curiosidade por essa pessoa boa que entregava pão de casa em casa.
Devia ser muito rica e sem muito o que fazer para sair com chuva ou com escuridão para levar pão para todo mundo.
Havia outras mágicas e constantes presenças sem as quais o dia não nasceria bem.
Logo depois do padeiro, vinha o Luís e o seu tradicional assovio chamando os seus três cachorros.
E então o dia podia nascer com todos os seus sons, Sol e correria para ir para a Escola.
Eu corria para ir para o Colégio SESI Minas "Hamleto Magnavacca", onde chegava às seis e meia, antes de todos os alunos e professores.
Encontrava o portão fechado sempre, já que a aula só começava às sete horas.
Fazia isso desde o grupo e depois continuei a fazer quando estudei no IMACO.
Era o primeiro a chegar na porta do Colégio escondido no meio das árvores do Parque Municipal.
A diferença é que no IMACO eu tinha concorrência. Um outro aluno queria me destronar do posto de “primeiro a chegar”. De certa forma isso animava o dia. Ter um concorrente nessa disputa sem prêmio ou troféu. Mas isso foi alguns anos depois, quando voltamos para a Sagrada Família.
O Vale do Jatobá sempre foi um lugar diferente e mágico para nós crianças.
Logo quando mudamos para lá - em 1968 - não havia água nem luz e as casas da COHAB eram todas iguais.
Com o tempo, humanos que somos, fomos deixando nossas marcas nas casas.
Uma cortina, uma cor diferente, um cercado de arame.
O bairro deixou de ser um pombal homogêneo.
Depois do Vale, nunca mais vi aquele tipo de padeiro.
*Carlos Henrique Rangel.

PARTE 3 SOBRE UM AMIGO DO VALE E PASSARINHOS: As amizades eram poucas, mas existiam naqueles dias do Vale do Jatobá E aquele dia de sol em que a rua brilhava Prometia diversão domingueira ao lado de amigos iguais. Reunir a turma era a missão primeira e eu o fiz. Lembro ainda hoje do acontecido... Fui chamar um dos amigos para a partida de bola. Era o primeiro, o mais próximo... Chamei pelo nome, o tal. Após alguns instantes uma de suas irmãs se mostrou e com a voz rouca me informou - Teçai tanucinaçu. Eu não entendi a língua, dialeto, o sei lá o que dizia aquela estranha menina. - o quê?- Perguntei abobalhado. Ela, com má vontade, repetiu a mensagem: - Teçai tanucinaçu. Vendo pelo meu rosto que a dúvida prevalecia, resolveu chamar ajuda da única irmã que havia. Gritou alto o seu nome para que viesse acudir: - Caçaçunia! Caçaçunia! A tal menina mais nova, de estranho nome apareceu e como salvadora que era se apresentou. - Olá, sou Cácia Júnia. Procura o Dejair? - Sim, mas não entendi onde está. A primeira irmã - a zangada - respondeu de novo a fala estranha. - Teçai tanucinaçu! - Como? – Perguntei novamente agora implorando ajuda da mais nova das irmãs. - Ela disse que o Dejair está no Ginásio. - Respondeu a mais nova. - Ah tá... – Concordei segurando o riso. Fui então para o Ginásio. Nunca mais esqueci da Caçaçunia e nem que o teçai tava no cinaçu... Quando ouço um canto de pássaro, esse canto me remete a uma antiga experiência de criança no Vale... Quando tinha uns doze anos ganhei de Tio Haroldo, a tal espingarda de chumbinho. Acho que hoje a atitude de Tio Haroldo seria considerada politicamente incorreta. Pois é... Ganhei uma arma capaz de matar pequenos animais e era o que eu tentava fazer com ela. Tentava mais que conseguia. No entanto, tenho no meu currículo de caçador, o peso da morte daquela coruja, cujo o parceiro deixei viúvo lá no Vale do Jatobá. Não... Não me sinto orgulhoso deste período miliciano da minha vida. Mas ficou no passado. Passou. Com a minha querida e pesada espingarda de chumbinho, eu fazia experiências dignas de um irresponsável garoto de 12 anos. Gostava de colocar tampinhas no cano da espingarda para ver o que acontecia e até onde ia tampinha. Numa destas experiências, que fiz na porta da cozinha lá de casa, a tampinha caiu e eu acertei um passarinho diferente. O filho do vizinho estava passando e o tiro acertou o "saquinho" do menino de dez anos. Foi um reboliço. Um trauma inesquecível e que graças a Deus não teve consequências graves. O menino não perdeu o saco e nem o "passarinho". Pois é... Era assim que me divertia com essa perigosa arma. Ah, tá. O passarinho... Em um destes dias de caçador, eu estava no terreiro lá de casa e vi um pequeno passarinho que chamam de "garrincha" pulando nos galhos de uma pequena árvore. Me aproximei devagar e mesmo me vendo, o danado não voou. Continuou entretido com a sua importante tarefa de pular galhos. Caçador que era, mirei no moleque e atirei. Nada. A arma falhou e o Garrincha driblando folhas continuava lá. Atirei mais uma vez e outra e outra e nada da arma funcionar. Acabei por desistir de atirar naquele passarinho atrevido e dei uma sacudida na árvore para ele ir embora. Não foi. Continuou a pular de galho em galho como se estivesse fazendo pose para as minhas retinas, se eternizando em minha memória. E lembrei dele depois de cinquenta e tantos longos anos... Uma memória puxa a outra. Se o Garrincha atrevido ficou me driblando, um outro amigo dele não teve tanta sorte, em outro dos meus dias de caçador. Atirei no danado do passarinho e ele caiu. E eu nem tinha feito uma demorada pontaria. Corri para pegá-lo com a curiosidade infantil para saber onde tinha acertado. Vasculhei o corpinho procurando onde o chumbinho fatal havia se alojado e que surpresa: Nada. Não achei um único furinho ou gotinha de sangue. Até hoje não sei o que aconteceu. Acho que morreu de susto... De qualquer forma, meus dias da incompetente caçador duraram pouco e a arma se perdeu no tempo. Não caço mais. Sou vegetariano e não mato nada. Que coisa é a memória... Tornei imortal enquanto eu durar o Garrincha da minha infância. PARTE 4 RELIGIOSIDADE: Quando criança, eu era devoto de Santo Antônio. Tinha uma imagem que ganhei de uma tia para quem acendia uma vela e rezava pedindo para tirar notas boas nas provas e fazia promessas para passar de ano. Sim, eu era "Caxias". Mais tarde descobri que Santo Antônio era um santo "vira-folha", como dizia meu pai. Ele, inicialmente era sacerdote Agostiniano, mas um dia conheceu Francisco de Assis e sua Ordem e vestiu o hábito cinza dos franciscanos daquela época. Hoje o hábito Franciscano é marrom. Aos quinze anos, conheci Francisco por meio do filme: "Irmão Sol, Irmão Lua" e eu também virei franciscano. Troquei de Santo. Não, não vesti hábito nem segui as três regras franciscanas: Pobreza (eu já era), Castidade (nem pensar), Obediência (mais ou menos). O tempo passou e aos 17 anos conheci uns jovens evangélicos que estavam tentando converter minha irmã. Me converti. Fiquei com os Presbiterianos da Sexta Igreja mais ou menos uns dois anos. Dois importantes anos, que me permitiram ler a Bíblia toda, uma vez e o Novo Testamento pelo menos umas dez vezes. Mas as dúvidas surgiram: Então Deus era Cristão e a dita salvação atingia apenas a estes? E por que devíamos ser salvos? Salvos de quê? Não éramos todos seres humanos e todos dignos do amor divino? Não deveríamos focar na mensagem? Não deveríamos focar principalmente no amor? Comece descrer de tudo aquilo. Veio então, a descoberta do hinduísmo, do Zen Budismo e suas visões mais amplas e menos sectárias. Aos 20 anos parei de comer carne influenciado pelas leituras dos livros do meu patrão. Comecei a ler todo tipo de mestre: Castañeda, Lobsang Rampa, Trigueirinho, Krishnamurti e finalmente o grande Rajneesh, hoje conhecido como Osho. Esses e mais alguns outros mestres que surgiram depois, me moldaram a personalidade. Mas, durante os anos 1990 e até há pouco tempo, me afastei destas leituras para focar no trabalho e no cotidiano drama da Vida. Só recentemente - após a aposentadoria - voltei às leituras mais esotéricas e religiosas. Voltando a Santo Antônio... Eu o respeito e admiro assim como respeito a Francisco de Assis. Infelizmente, diminuíram a sua grandeza transformando-o em uma espécie de cupido sem asas. Pobre Antônio de Pádua ou de Lisboa (onde nasceu). Um homem que se fez santo ao adorar o Divino de corpo e alma sendo idolatrado como ícone da paixão de casais. 13 de junho é dia dele. Mas lembremos dele pelo que acreditava e pelo que se tornou e não por bobagens inventadas pela crendice popular. Ele é muito maior que tudo isso. Então, depois de tudo isso, você me pergunta: - Qual a sua religião e crença atual? Eu te respondo: Hoje me considero Espiritualista Universalista. No entanto, rótulos são apenas rótulos e limitam a compreensão do todo. Rótulos são dedos apontando para a Lua. Prefiro me focar na Lua. HISTÓRIA DE VIDA - PARTE 5 QUEIJO SALGADO E PINGA – UM CAUSO DO INVENTÁRIO DE PROTEÇÃO AO ACERVO CULTURAL: E lembrei de uma manhã fria em uma terra quente. Estava dormindo sobre sacos de milho dentro de um depósito de cereais em uma pequena fazenda do município de São Francisco. Acordei com os gritos de crianças que faziam às vezes de uma trilha sonora improvável para as dores do meu corpo mal descansado e deveria ser umas cinco horas da manhã. Vocês podem me perguntar: O que eu fazia nesse lugar? Isso foi em 1985, praticamente meu primeiro trabalho externo no IEPHA. Eu e a arquiteta Beth,- Elizabeth Sales de Carvalho - éramos parte da equipe que realizava o Inventário de Proteção ao Acervo Cultural do município de São Francisco e naquele dia estávamos fazendo o levantamento na grande área rural, quando nosso carro – um heroico FIAT- pifou numa obscura estradinha rural. Ferreira, nosso motorista, conseguiu carona para ir à cidade buscar ajuda e eu e Beth ficamos na fazendinha que encontramos. A família simples e com poucos recursos nos recebeu com o que tinha. Nos ofereceram queijo (Muito salgado), carne e pinga. O patriarca, um sujeito bronco, de maneiras grosseiras logo notou que eu não comia a carne, e começou a insistir: - Por que não está comendo a carne? - Eu sou vegetariano... Eu não como carne. – Respondi. - Por quê? – Quis saber o anfitrião. Fiz o que sempre fazia quando questionado por pessoas mais simples. Disse que se tratava de uma promessa, mas que estava adorando o queijo. Menti. O queijo era insuportável de tão salgado e eu tirava o gosto com a cachaça forte que ele me oferecia. O fazendeiro pareceu se conformar com a minha explicação, mas durante a nossa conversa - regada a cachaça - sobre o que fazíamos na região eu notava a sua indignação com a minha recusa em comer a carne. - Come a carne! – Exclamou grosseiramente, no que me pareceu uma ordem. - Eu não posso. É promessa. – Disse sem graça. Entedia que a forma grosseira não era intencional. Simplesmente era o jeito dele de se comunicar. E ele voltou a perguntar por que eu não comia. E de novo tive que repetir que se tratava de uma promessa que tinha feito há 6 anos, mas que estava adorando o queijo. Dizia isso e comia aquele pedaço de sal com leite e tomava um gole de pinga. Essa tortura durou mais umas duas horas. O Homem de tempos em tempos voltava a perguntar por que eu não comia carne. Eu, cada vez mais constrangido tentar explicar – ajudado pela Beth - morrendo de medo de levar umas pancadas e ser obrigado a comer à força. Finalmente a cachaça e o cansaço venceram o nosso anfitrião, que nos levou para os nossos cômodos. Não lembro onde Beth dormiu. Eu dormi naquele quarto sobre sacos de milhos e acordei com aqueles meninos fazendo a maior algazarra. Ferreira não demorou muito para chegar nos salvando. Ainda bem que não tomamos café como o nosso amigo Fazendeiro. Vai que ele nos oferecesse carne com queijo salgado e pinga... Engraçado lembrar desta história hoje. Durante toda a minha vida de vegetariano sempre tive que explicar para gente de todos os tipos, porque não comia carne. Mas essa foi a mais complicada de todas. Mais até que ter que explicar que vegetariano não come só salada. - Ah, você é vegetariano? Vou fazer uma saladinha... - Não. Não faz não. Detesto salada. – Respondia. Ai a coisa piorava. - Mas você não come salada? Então você come o quê? Eu explicava didaticamente: - Monte o seu prato. Agora tira a carne... Frango e linguiça também é carne, tá?. Pois é, eu como o que ficou. Como arroz feijão, batata frita, verduras cozidas.... Pois é, todas essas outras abordagens eu sempre tirei de letra. Mas a do fazendeiro bronco me deixou assustado e marcou. Marcou tanto que a conto aqui. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 6 COMIDA: Lembrei do tempo em que minha mãe fazia tudo e eu não sabia nem fazer uma água doce. E pensar que foi assim até o meu primeiro casamento, quando eu tinha 32 anos. Filho mais velho com três irmãs, só entrava na cozinha para pegar as coisas. Quando me casei, nunca tinha fritado um ovo. Lembro a alegria que senti quando fiz uma sopa. Me vangloriei com o meu sogro que apenas sorriu. Devia estar pensando. “coitado desse moço, fez essa sopa de tudo com macarrão derretido e está se achando.” Seu José só pensou. Não disse nada. Era um bom sogro. Antes de casar tive uma outra experiência na cozinha lá na casa da Selma, nos bons e saudosos carnavais que passávamos na Sabará dos anos 1980. Fritei um ovo com limão. Miguel – um arquiteto do IEPHA – percebeu logo que eu era amador e fez altas piadas sobre o ovo com limão, que por sinal ficou do jeito que nós sabemos que fica um ovo com limão. Desculpa, nós não. Acho que ninguém inteligente já tentou fazer ovo com limão. Não culpo minha mãe pela minha pouca intimidade com a cozinha. Fazia parte da visão de mudo dela. Hoje sei fazer comida que só eu como. Minto: Gaya, minha neta também come. Macarrão ao molho vermelho com omelete. Macarrão com molho branco acompanhado com o que tiver. Macarrão alho e olho com ovo frito e bolinho de soja. Arroz socialista. (grãozinhos muito unidos). Miojo. Lasanha e torta de palmito... Do Epa. No passado as meninas até comiam minha comida. Foram crescendo e ficaram metidas. Não sei por quê. Preferem comprar comida pronta. Falta de respeito com o pai. Pois é... Hoje acordei lembrando de minha mãe e sua comida. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 7 SEXTOU: Em minha juventude e quando era um jovem adulto solteiro, já acordava na sexta sonhando com a "gandaia". Na Verdade, tinha feito o mesmo na Quinta Feira. Houve uma época que a chamada gandaia começava na Quinta Feira... Porque havia Feira... Sim, havia a chamada Feira Hippie às noites de Quintas Feiras na Praça da Liberdade, aqui em Belo Horizonte. Acho que começava à tarde, mas como eu saia do IEPHA à noite é essa a lembrança que tinha da Feira de artesanato entre aspas que rolava na Quinta. Na verdade, eu pouco me importava com a Feira em si. Gostava mais do transbordamento da multidão para além das fronteiras da Praça. Para os bons bares dos anos 1980. Um deles, em especial: O "Onhas do Jequi" que ficava na Avenida Brasil. Nesse bar alternativo encontrava um bom número da melhor galera descolada da cidade e as moças mais bonitas e cabeças. Não por acaso, foi lá que encontrei a minha primeira esposa e atual amiga. Pois é... Sexta Feira, naquela época era apenas a continuidade do que havia começado na Quinta e só terminaria na madrugada, início de Domingo. Do "Onhas" as turmas se deslocavam para a rua Rio Grande do Norte, se espalhando pelos bares "Abóbora, Strikinina, Sabor e Arte e os mais caretas, para a Casa dos Contos". Eu, nômade que era, frequentava todos e mais alguns. Mais tarde, já no final dos anos 1980, íamos também ao Trincheira n E então, quando tudo se esvaziava ou fechava, esse clube da Gandaia terminava a noite e começava novo dia no "Lulu" que ficava no bairro Santo Antônio. Outros tempos... Outra BH, sem os medos noturnos atuais. Tempos de dar inveja a essa moçada que transita de Uber para cima e para baixo e que se perde no celular. Nós transitávamos na maioria das vezes, a pé e raramente de taxi, para os bares que ficavam um pouco mais distantes. Já que falei dos bares, não posso me esquecer de um dos primeiros bares descolados: o "Canto Latino" com o seu visual dos anos 60/70. Tinha também o saudoso "Beco da Lua". Quase me esqueci do "Incapazes do Nirvana" do finalzinho dos anos 80. Um Pub Inglês bem perto do Colégio Arnaldo regado a Tears For Fears, U2, The B-52s e outros grupos ingleses e irlandeses. Ah tá! E onde fica o Maleta nessa história? Não dá para esquecer o Maleta e seus bares antigos onde íamos menos mas íamos, principalmente na Cantina do Lucas. Bons tempos onde Sextar tinha o seu lugar. Pobres gerações que não conheceram o "Sextar" destes bons anos 1980. Então "Sextou" e como bom sessentão que sou, vou ficar por aqui mesmo, vendo TV. Sim... "Apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais." HISTÓRIA DE VIDA PARTE 8 O QUE VOU SER: Engraçado que acordei agora de madrugada lembrando de uma tia avó, irmã de minha vó materna. Tia Maroca tinha o dom de ler a sorte nas mãos. Lembro do dia que ela leu a minha mão. Eu era um garoto de uns onze anos. Ela, com aquele jeito de tia que não existe mais, abriu a minha mão e disse um monte de coisas. Mas só lembro que ela disse que eu ia ser médico. Nunca esqueci a sua voz dizendo: “Você vai ser médico quando crescer”. Minha mão devia estar suja e ela leu errado. Nunca fui e nunca serei médico. Ser médico era algo que eu dizia para toda a família e é claro que ela sabia. Não vou questionar o dom de Tia Maroca. Ela errou feio. Mas foi um chute do bem. Ela queria exaltar minha autoestima. Duvido que ela soubesse o que era autoestima, mas acho que ela queria agradar a um menino, já que a profissão que ela leu na minha mão devia ser algo incompreensível para ela. Deve ter pensado: - “Historiador? Que diabo de profissão é essa?” Pois é Tia, te dou um desconto porque essa profissão nem reconhecida legalmente é. Então, lembrei de Tia Maroca e de tabela lembrei dos encontros enormes de família. Aconteciam em dias comuns, mas na maioria das vezes, no aniversário de alguém em um Sábado. E era aquela bebedeira e comedeira regada a muita conversa, grito de crianças e jogo de buraco. Minha família naquela época gostava muito de beber e jogar buraco. Tanto os homens quanto as mulheres. E éramos tantos... Continuamos sendo tantos, mas são poucos os que se reúnem. Nos dispersamos e nos isolamos nos núcleos mais íntimos de nossas famílias. Mas sei que a maioria não joga mais buraco. Mas beber todos bebem. Não seriamos todos “Amaral” se não bebêssemos. Hoje não bebo mais. Isso acontece: De vez em quando um de nós toma juízo. Bons tempos. Sei que cada um de vocês guarda alguma ou várias lembranças das reuniões de família e, principalmente de alguns parentes especiais. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 9 A LUZ NA ESTRADA: Engraçado como a mente da gente funciona. Lembrei de uma viagem de ônibus para a cidade de Espinosa, onde eu dava aulas. Isso foi no início de 1984. Engraçado como uma coisa levou a outra. E o que uma coisa tem com a outra? Bem, nessa viagem noturna, quando quase todos dormiam, de repente uma luz estranha apareceu na lateral do ônibus. Isso mesmo. Uma luz branca começou a acompanhar o ônibus piscando a intervalos curtos. Todo mundo dentro do ônibus acordou para ver aquele fenômeno. De onde vinha aquela luz? Seria uma torre? Mas luzes de torres não acompanham um ônibus. Um carro? Não era um carro. Não parecia luz de carro. Um UFO? Acho que todos nós pensamos isso. A luz não fazia nada. Só acompanhava o ônibus monotonamente. E isso durou alguns minutos. O engraçado é que nos primeiros minutos todos nós ficamos olhando. Passados cinco minutos, todos - de menos eu - já haviam voltado para suas cadeiras e reiniciado o sono. Fiquei acompanhando a luz com os olhos tentando uma explicação. Os outros passageiros se cansaram da novidade rápido. Eu não. Depois de uns quinze minutos, a luz também cansou e sumiu. Mas voltando ao ônibus de 36 anos atrás, me admira a capacidade do ser humano de acostumar-se com as coisas. Nós nos acostumamos com qualquer coisa. Seja uma luz aleatória acompanhando um ônibus. Seja uma pandemia que nos obriga a usar máscaras. No início da pandemia eu relutei em usar máscara por vergonha ou por achar estranho. Poucas pessoas usavam e eu achei que podia ficar sem usar. Com o agravamento do isolamento e da pandemia, passeia a usar para ir ao supermercado e padaria. Hoje já acho estranho que existissem aqueles que não usavam Estranho eram aqueles que não usavam e continuaram a se expor aos outros. Uma menina que vendia balas na porta do supermercado, usa a máscara abaixo do nariz e todas as vezes que passava por ela chamava-lhe a atenção: “Tampa o nariz menina!”. Ela, constrangida me obedecia. Mas era só eu virar as costas e ela abaixava a máscara. Provavelmente não tinha noção do perigo que significava o vírus. Não era a única. Somos assim. Nos acostumamos com tudo. Isso pode ser bom e ruim. Bom, porque nos adaptamos para sobreviver. Ruim, porque nos acomodamos às mudanças e às vezes, perdemos o real sentido das coisas. Máscaras foram feitas para nos proteger. Mas não nos protegerão se forem usadas abaixo do nariz, dentro dos bolsos, ou penduradas nas orelhas. Será que chegará o tempo que usaremos as máscaras como simples enfeite, esquecendo o seu real propósito? Espero que isso não aconteça. Espero que as pessoas não se acostumem com as pandemias e sim, que aprendam com elas. Precisamos mudar se queremos que esse tipo de coisa pare de acontecer. Precisamos valorizar e respeitar o planeta. Mudar nossa atitude em relação a nossa vida em coletividade, respeitando as diferenças culturais, raciais, opcionais. E, principalmente, respeitando a natureza. Tudo parece lição de autoajuda de segunda classe, mas quando a coisa aperta devido aos nossos erros, tudo muda de figura. Ou mudamos ou pereceremos. Ah, o que era a luz? Até hoje não sei. E isso realmente importa? HISTÓRIA DE VIDA PARTE 10 ESTAMOS FICANDO VELHOS: Meu pai adorava o dia de seu aniversário. Eu sei... Era o meu também. Nasci no dia do aniversário do meu pai, perto do Dia das Mães. Fui um presentão para os dois, já que sou o primogênito. Fico imaginando a cara do jovem casal olhando para o menino louro que ganharam de presente. Se bem que, ao longo dos anos – e em muitos momentos – devem ter questionado se teria sido mesmo um presente. Fazer o quê... Ninguém é perfeito. Pois é... Meu pai, aquele homem simples quase calado, adorava uma festa. Adorava o Natal, fim de ano, Carnaval e o dia do seu aniversário. Nesses dias ele sempre colocava Som alto com suas músicas preferidas. Homem eclético no gosto, ouvia desde Roberto Carlos a Raul Seixas. E era uma alegria só. E dizia para mim com um sorriso: “Hoje é o nosso dia. Estamos ficando mais velhos”. Eu nunca liguei muito para aniversários. Tinha para mim, que aquilo que todo mundo tem não era tão importante que merecesse ser comemorado. Todo mundo faz aniversário desde que nasce, até o dia que deixa de fazer. Parece frio e ilógico. Mas a verdade é que nunca liguei muito para a data. Mas o Sr. Carlos sim. Meu pai adorava. Adorava a vida. E a festejava sempre que podia. Mesmo que simples. Nunca o vi reclamando da vida. Ele vivia com suas pequenas manias. Lustrar os sapatos quase três horas e deixá-los brilhando como espelho. Assistir TV sempre no mesmo lugar. Tomar banhos frios demorados e ficar falando sozinho no banheiro. Não era um homem de muitas falas e de intimidade. Éramos quase estranhos. Mas era um homem bom como poucos. Hoje é o aniversário dele e provavelmente, ele deve estar atormentando minha mãe com suas brincadeiras e suas músicas. “Estamos ficando velhos”. Estamos, pai... Estamos... HISTÓRIA DE VIDA PARTE 11 SHANGRI-LA: Nesses tempos de nada fazer fazemos muitas coisas. Resolvi assistir alguns filmes que me marcaram. Quando tinha quinze anos assisti "Horizonte Perdido". O filme despertou em mim a ideia de um lugar perfeito. Um musical dos anos 1970 que, em sua aparente superficialidade trazia uma mensagem de esperança. Quem é da minha geração deve ter assistido. Os mais jovens não. Pois é, assisti de novo - pela vigésima vez.. Sempre é diferente. Sempre descubro alguma coisa nova na estória. Desta vez prestei atenção nos diálogos e nas músicas. Mas de que se trata o filme? Bem, é a história de um diplomata pacifista que é obrigado a fugir de um país asiático em meio a uma revolução. O avião é sequestrado e eles acabam caindo na neve de uma cordilheira - provavelmente os Himalaias. São resgatados por uma caravana de monges que os encaminha para um mosteiro e uma comunidade em um vale preservado em clima ameno entre as montanhas geladas. Um paraíso na Terra chamado Shangri-la. Esse diplomata e seus acompanhantes: seu irmão, um artista decadente, um engenheiro e uma reporte desiludida, cada um cria uma relação com o lugar de acordo com suas visões de mundo e da vida. Já deve ter gente me xingando porque estou contando o filme. Não vou contar mais. Vou chegar onde quero chegar. O interessante de tudo isso é que, nesse musical ameno e cheio de lugares comuns de mundo perfeito, está o retrato da nossa sociedade. Nossa forma de relacionar com o mundo. A maioria de nós, de alguma forma rejeita o mundo do jeito que ele nos apresenta: muita pobreza, guerras, doenças, superpopulação, poluição. Quem fez tudo isso? Sempre achamos que foram os outros. Que não temos nada com isso. Esquecemos que somos os outros dos outros. Nós fazemos parte disto querendo ou não. Esses personagens do filme, cada um representa um tipo de gente do nosso mundo. Há o que gostaria de mudá-lo. Há o que está querendo fugir do mundo. Há o que gosta do mundo como é e o aceita assim. Eu, adolescente já achava que o mundo tinha que ser transformado. Melhorado. Por isso o filme marcou tanto. Os caminhos e opções que escolhi - quem diria - foram influenciados por um musical. Somente uma mudança de atitude de todos nós vai impedir que esse mundo caminhe para aquele final que todos sabemos. Vou terminar o texto com a frase: Ou mudamos ou pereceremos. Desculpa, mas é necessário. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 12 GAYA: No dia 4 de junho de 2019, nascia minha neta Gaya. E eu que tive quatro filhas voltei a sentir a emoção de saber que mais um pedaço de mim estava vindo ao Mundo. Mas um pedaço diferente. Outra geração. E eu que sou esse ser preocupado com a continuidade, me vi sabendo que vararia o século XXI naquela criatura pequenina. Eu sempre tive a preocupação de que o nosso Rangel poderia desaparecer, já que só tenho filhas e o costume brasileiro é que os descendentes tenham no final, o sobrenome do pai. Minha filha, que sempre soube desta minha preocupação, - em comum acordo com o pai de Gaya - resolveu colocar o Rangel no final. Gaya tem um monte de sobrenomes, mas no final está lá o Rangel. Gaya Campos Mendonça Lima Rangel, vai seguir pelo século XXI e se a Divindade quiser, irá ver o século XXII. Pois é... E que menina linda e esperta é Gaya. E pensar que a moça do Cartório estranhou o nome... - Só existe uma Gaya registrada aqui nos anos 1980. E é com “i”. É isso mesmo? – Perguntou ela. - Mas a nossa é com “Y”. – Respondemos. Ela foi conversar com a titular do Cartório, como se isso mudaria alguma coisa na decisão do pai em registrar a filha com esse nome. A chefona deve ter concordado, porque ela não questionou mais o nome. Me desculpem as filhas, mas ser avô é muito especial. O amor é maior. Tão maior que é inexplicável. Intraduzível. Imensurável. Tive outro neto: Tauã, que também amo - mas Gaya foi a primeira e vai ser sempre especial. Que a Divindade a abençoe esses dois netos com muita paz, com muito sucesso e força para consertar esse nosso Mundo que a geração dos meus avós e meus pais ajudaram a destruir, a minha não soube resolver e a dos pais dela não estão conseguindo resolver. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 13 CIDADES MINEIRAS: Vejam só como são as coisas. Em Minas Gerais, Estado sem mar, existe uma cidade com o nome de Mar de Espanha. Como disse, Minas não tem mar e, claro, não fica na Espanha... Existe também um povoado com o nome de Japão... Dizem que o nome tem origem na falta de farinha para fazer pão. Pois é, faltou pão durante algum tempo naquela localidade. Mas como você sabe tudo passa e a falta de pão passou. O pão voltou a ser feito. Todos sabiam que agora havia pão. - Já há pão. – Diziam para quem ainda não sabia... Então, “já há pão” virou Japão... Foi o que me contaram... Não sei não... Em um curso que dei em uma destas cidades de nomes intrigantes – Catas Altas da Noruega - que fica em Minas Gerais e não na Noruega, havia representantes de uma cidade que se chama Senador Firmino. Curioso que sou perguntei se o Senador tinha nascido na cidade. - Não. – Respondeu o ilustre representante daquela localidade. - Não? Mas então por que se chama Senador Firmino? – Retruquei mais curioso. O representante de Senador Firmino respondeu solicito: - Existem duas versões: a primeira é que deram o nome do município porque o Senador Firmino passou de avião por cima da localidade. - E a segunda? – Perguntei interessado. - Bem, a segunda versão é que o nome não tem nada a ver com Senador. Dizem que um morador de nome Firmino chegou em casa todo molhado e a mãe espantada perguntou “Cê nadô Firmino?. Bem... Foi o que me contaram... Não sei não... HISTÓRIA DE VIDA PARTE 14 CHICO XAVIER Engraçado lembrar deste acontecimento hoje. Quando estivemos na Casa do Chico Xavier em Uberaba em setembro de 2012, algo estranho aconteceu. Motivados por um pedido de avaliação para uma possível proteção, eu e uma colega do IEPHA/MG nos encontrávamos ao redor da mesa da copa na moradia do ilustre médium. Avaliávamos o acervo de fotos espalhados pelas paredes e móveis com um grande respeito e interesse. Nesse momento me veio a dúvida se esse acervo era formado por cópias coloridas ou fotos verdadeiras. Imediatamente, verbalizei a minha dúvida à minha companheira: - Será que são fotos? No mesmo instante, sem que ninguém tivesse tocado na mesa, o porta retrato com uma imagem de Chico Xavier, caiu com grande estrondo espalhando foto, vidro e moldura sobre a mesa. E então, ainda assustado com o acontecido, pude observar que se tratava de cópias coloridas em papel comum. Teria sido uma resposta à minha pergunta? Mesmo sendo espiritualista, ainda hoje me atormentam as dúvidas. Essa se tornou uma das minhas melhores lembranças profissionais de todos os quase trinta e três anos trabalhando como técnico do IEPHA/MG. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 15 SÁBIO CHINÊS: Sábio Chinês... Sim, desde pequeno desejava ser um sábio chinês como aquele da série Kung Fu que tinha seu discípulo Gafanhoto. No alto da minha infância, admirava a calma controlada, humilde e simples do Kwai Chang Caine, que só usava os golpes marciais quando estritamente necessário. Me alimentava da sabedoria simplificada daquela série norte-americana que não tinha nenhuma ambição de ensinar e sim, entreter. Sim... Essa foi mais uma das minhas influências que me levariam ao espiritualismo atual. Me imaginava um monge nobre do alto da minha sabedoria. Um semideus inalcançável no controle das emoções e das artes marciais. Respeitado por todos os que eram chineses, mas não eram sábios. Infelizmente, nas voltas que a vida dá, não me transformei em sábio chinês. Ainda... Quem sabe em outra encadernação... HISTÓRIA DE VIDA PARTE 16 MEUS FEIJÕES: Então, nos tempos infantis do Vale do Jatobá, eu era uma criança tímida e quase solitária. Isso não era nenhum problema para mim, acostumado que era por ser o único menino dos quatro filhos dos meus pais. Inventava minhas companhias em minha solidão. Meus melhores amigos eram folhas de árvores. Bolinhas de gude ou feijões, cartas de baralho, que eu transformava em guerreiros míticos, soldados romanos, índios, bárbaros dependendo do filme que acabava de assistir ou da aula de história da semana. Essas histórias inventadas tinham como palco o meu quarto, o terreiro atrás da casa ou o gramado que decorava a fachada da nossa moradia. Traumática até hoje foi o que aconteceu com os meus índios e bandeirantes que eu deixava na grama para continuar a brincadeira no outro dia após a volta da escola. Cheguei a ser íntimo de alguns daqueles bandeirantes e índios que se alternavam no papel de vilão e mocinho dos capítulos daquela saga empolgante de ocupação do sertão brasileiro. Pois é... Uma tragédia se abateu sobre os meus amigos em dias de muita chuva. Quando o tempo deu uma folga, lá fui eu rever as matas, palco de homéricas batalhas. Qual não foi minha surpresa e tristeza ao vislumbrar meus heróis. Meus bandeirantes e índios brotaram. Todos. Até aqueles que eu mais gostava. Confesso que meus olhos se encheram de lágrimas com aquela inesperada sina dos meus defensores das matas e aventureiros paulistas. Agora mesmo ao lembrar esse dia vem uma pontada aqui no peito. Eh... Meus feijões... HISTÓRIA DE VIDA PARTE 17 BOA NOITE: Em meio à escuridão A voz divina ecoava naquele final de festa dos anos 80 Naquele mundo de sono, sentado em chão escuro entorpecido por vários copos de cerveja eu ouvia e via o que podia naquela quase escuridão. Uma luz fosca iluminava o pequeno grupo relutante em terminar a balada. E ela cantava como um anjo dedilhando o violão. A doce canção tocada pela linda moça, abençoava o fim de noite. E era para mim. Descobri após anos... Décadas... Era para mim todo aquele amor em melodia que vinha da doce voz feminina Hoje eternizada em meu coração. Toda aquela solidão daquele canto sonolento, reafirmava: A canção era para mim... “Boa noite... Diga ao menos boa noite... Que o meu canto é para você... For for you For for, for for you.” HISTÓRIA DE VIDA PARTE 18: OASIS: Algum tempo depois de mudarmos de volta para a Sagrada Família – Agora com quinze para dezesseis anos - fiz amizade com um vizinho de nosso barracão. Ele e o irmão se tornariam meus melhores amigos destes anos 1970. Foram eles que me apresentaram o mundo dos jovens. Minha mãe relutante me deixava sair para as festas, sempre com o um sábio conselho: - Não toma nada não. Eles podem colocar maconha no seu copo. No início eu não tomava nada com medo da tal maconha, que para falar a verdade, eu nem sabia o que realmente era e duvido que minha mãe sabia. Com o passar dos anos, começamos a frequentar as horas dançantes de domingo do Oasis Clube, aqui de Santa Tereza. Meu amigo Acássio era um típico jovem daquela época e sempre arranjava confusão. Pacifico que era, ainda assim, eu não conseguia me safar de suas brigas, sendo o seu fiel escudeiro nas derrotas. Marcaram-me muito duas destas situações. Houve uma noite em que na saída do Oásis, uma turma esperava o Acássio e consequentemente, a mim. Foi de certa forma, uma covardia. A turma de uns seis sujeitos, nos atacou a socos e chutes, mas nos deixaram ir após alguns instantes. Eu no alto de minha arrogância, olhei para o mais fraco deles – um que usava calça rosa. (Naquela época usávamos calças coloridas e largas cuja a boca tampava os sapatos). Então, no alto da minha arrogância de 16 anos, gritei: -Vou pegar esse de calça rosa. O problema é que havia um outro sujeito de calça rosa e esse não era nada fraco. Veio para cima de mim gritando - O que você disse? – Me lascou um chute na bunda que me dói até hoje. Depois desta saímos andando rápido – correndo não – seria covardia. Aquele último chute doeu fundo tanto na parte afetada como na alma. Sempre que passo na porta do clube, lembro-me deste momento traumático de minha juventude. A outra lembrança ocorreu na subida da Rua Santa Clara... Acho que era esse o nome da rua. Eu e Acássio subíamos do horto de volta para a Rua Genoveva de Souza. Não sei por que, Acássio começou a se gabar dizendo que era foda em briga. À nossa frente, dois garotos como nós, subia a rua. Acássio achou que era uma ótima oportunidade para me mostrar que era o bam bam bam da bala chita. Quando passamos pelos garotos, ele deu um trancão em um deles e o rapaz reclamou. - Que foi? Vai encarar? – Perguntou Acássio. E os dois começaram a brigar. Eu e o amigo do garoto só ficamos assistindo. Assistindo o Acássio levar uma boa surra. Apartada a briga seguimos para o nosso destino. - Você viu né? Eu sou foda – Disse Acássio lambendo as feridas. - Eu vi. – Respondi. Tempos depois, em uma hora dançante do Killer Som, encontramos o tal rapaz. Acássio o reconheceu e logo juntou a turma do bairro alegando que o sujeito o havia atacado covardemente apoiado por outro companheiro. Eu que sabia a verdade, não disse nada. Assisti cerca de dez jovens do bairro, baterem naquele garoto indefeso. Só assisti. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 19: UM TEMPO Eu vivi no tempo em que o maior grupo de esquerda era a Centelha. Eu, pobre radical, escolhi o menor, o mais a esquerda possível... A Convergência Socialista... Tinha gente mais a esquerda uns gato pingado da LIBELU... Eu vivi no tempo em que as bancas explodiam em chamas... Que secretárias recebiam presentes bombásticos... Que carros faziam a trilha sonora dos shows espalhando pedaços de soldados... Eu vivi o tempo em que cavalo de polícia gostava de bolinha de gude... E meus olhos choravam quando viam fumaça... Eu vivi um tempo que generais eram presidentes... Que estudantes eram considerados bandidos. Que embaixadores ficavam escondidos... Pois é... Quando entrei na FAFI/BH para cursar História, uma das minhas intenções era fazer parte do Movimento Estudantil. Lutar contra a Ditadura de alguma forma. Logo fiz contato com a Convergência Socialista, um minúsculo grupo Trotskista aqui em BH, mas enorme em São Paulo. A Convergência era um grupo bem radical em suas propostas, mas tinha como mérito ter sido um dos principais grupos criadores do PT. Tinha sede própria ali na Rua Caetés e jornal com mesmo nome. No entanto, a maioria das nossas reuniões aconteciam aos domingos, nos gramados da Escola de Medicina. Minha militância se resumia a participar de reuniões do DA – Até concorri como presidente em uma chapa. Perdemos, claro. Outra tarefa era vender o Jornal do Partido. Uma dificuldade que acabava me obrigando a comprar grande parte dos jornais da minha cota. Gostava mesmo era de encontrar os nossos irmãos da LIBELU. Mais radicais e com garotas mais bonitas em seus visuais hippies. Meu envolvimento com essas atividades acabaram me prejudicando nos estudos e perdi aquele semestre. Então desisti da militância. Quando expus meus motivos, disseram que eu estava manifestando minha visão pequeno-burguesa e que estudo não levaria a nada. Não me convenceram. Abandonei o Movimento Estudantil e foquei a atenção nos estudos e nas garotas. Algum tempo depois, o Movimento Estudantil entrou em crise e uma chapa denominada ‘’Roseta’’ ganhou o DA da FAFICH com um discurso alienante contrário ao tradicional discurso de esquerda e focando em festas, sexo e rock. Sinal dos tempos. A juventude estava começando a se cansar do que considerava as batidas palavras de ordem da esquerda. Ainda bem que Ditadura finalmente caiu em 1984. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 20 AMORES: Ah... Os amores... E houveram tantos desde a infância... Será que poderia incluir aquela menina da Rua Silvianópolis que disse gostar de mim e eu assustado lhe joguei uma pedra grande no portão? Acho que não... Eu só tinha uns seis anos de idade e não entendia deste tipo de amor. E houve aquela menina de longos cabelos perto de casa, na Rua Genoveva de Souza. Eu ficava horas sentado no meio fio do outro lado da Rua buscando apenas uma imagem sua ao sair no alpendre da casa. E como era bom te olhar e imaginar sua voz. Sempre me lembro destes momentos quando ainda hoje passo pela casa que continua a mesma. Um dia vi uma senhora de sessenta anos no portão e lhe abordei dizendo que havia morado ali perto quando criança. Ela disse que sempre morara ali. Não arrisquei a contar as minhas investidas de assediador juvenil. Fiquei com vergonha... Mas era ela. Sei que era ela. Então veio o amor por aquela menina lá do Vale do Jatobá. Linda de cabelos curtos e negros que morava numa esquina. Eu que não era dado a amizades com muita gente, acabei fazendo amizade com a turma daquela rua distante da minha casa, só para ficar perto dela. Todos os finais de tarde ia para lá brincar de pegador, polícia e ladrão ou rouba bandeira, só para vê-la com suas amigas em seu grupo apartado do nosso. Seu olhar me era como um beijo e eu ganhava o dia. Lembro que sempre parávamos as brincadeiras para ver os curtos desenhos da Pantera Cor de Rosa em sua casa. Ah... Durou pouco essa paixão e eu perdi até mesmo o seu nome. Houve também a Maria José que com o seu sorriso largo conquistava todos da rua. Sonhei anos com seus beijos... Mais de trinta anos depois eu os senti quando a reencontrei aqui no bairro e matei aquela vontade. De volta à Sagrada Família, teve a Cândida com quem conversei uma ou outra vez e nada mais. Houve a Japonesa do Colégio Independência que, na minha timidez, quase ‘’perdi’’ para o meu amigo Acássio que era bem atirado. Perder... Visão machista essa. Mas mal, mal troquei algumas palavras com ela e só. Houve aquela menina que alguém me disse que gostava de mim. Chegamos a ir ao cine Horto juntos e assistimos o filme sem trocarmos uma palavra ou carinho devido a minha timidez ainda infantil. Nessa época era dado à paixões platônica por desconhecidas aleatórias e cheguei a fazer uma poesia para uma delas. “Aquele rosto brinca em meus sonhos E quase ouço a sua voz declamando suas verdades. Linda de corpo e alma... E eu a vejo em sonhos... Nas ruas e coletivos...Nos cinemas e bares, Observo os rostos à sua procura. E às vezes quase vejo... Por onde anda a menina fada? Que caminhos trilha? Onde distribui seu sorriso?” E só a vi um dia, quando lhe dei carona no Guarda-chuva... Então, veio a faculdade e no segundo semestre pós minha passagem pela Convergência Socialista, veio a Cássia. E quase não acreditei que aquela princesa de ébano que se vestia como uma modelo, pudesse gostar daquele pseudo-hippie que andava de sandálias franciscanas. Me sentia o rei da cocada preta ao desfilar com aquela deusa, matando de inveja os mauricinhos. E durou tão pouco aquele paraíso... Ela se esqueceu de que partiu dela o fim do nosso namoro. Durante pelo menos dois anos escrevi lindas poesias para ela, hoje perdidas. Durante pelo menos dois anos corria os bares e corredores da Escola, abraçado a outras meninas, imaginando te tocar pelo ciúme. E nada. Décadas depois nos reencontramos virtualmente e nos tornamos amigos...Acho. Perdi a conta de quantas foram e quantas magoei nos tempos da FAFI. Mas Rosana aquele docinho, coloriu as páginas de minha vida. Eu a amei de certa forma fugindo de uma relação séria. M Magoando-a. Desculpa menina... Então veio os Amores de Espinosa em minha curta temporada naquela cidade. E me relacionei com algumas de minhas alunas em uma atitude eticamente questionável. Amores do IEPHA... Sim, tive algumas paixões e pequenas ficadas insignificantes. Ah... Houve aquela colega que me ensinou a gostar de comida japonesa... Você lembra? E aquela linda e suave que conheci no "Abóbora" que amo eternamente? Mas foi no “Onhas do Jequi” que me esbaldei nas quintas, sextas e sábados, entre louras, negras e morenas. Ah Raquel e nosso um mês de namoro... E Vina... Lembra Vina? Te amo Vina por ter cruzado meu caminho. Seu característico modo de falar e seu carinho ainda estão aqui. Desculpa Vina...Te amo. Ana conheci em uma passeata e ela me “ganhou” com sua vivência de mundo. Foi paixão pela grandiosidade e a revelação de minha infantilidade e imaturidade. Ana doeu mas foi muito bom. E teve aquela que me levou à sua morada provisória atrás da Igreja em Sabará, com vista para o Cemitério. Meu Deus! E você de Patos de Minas que me levou para ver o Cometa Haley no telhado de sua casa? Onde você anda? E numa noite aconteceu lá pelo ano de 1989. Duas garotas surgiram e eu me interessei pela Cida, mas foi com Solange que fiquei. E passamos o limite de três meses. Nos casamos. Cinco anos e duas filhas durou essa nossa união. O chute na bunda me doeu dois tristes anos. Mas hoje somos amigos. Acho. Da bebedeira de fossa em que fui jogado por esse amor findado, fui salvo em uma noite de domingo. Eu e “Malandrinho” bebíamos no “Copo de Ouro” na Rua Guajajaras quando reparei em duas mesas. Uma era ocupada por uma loura e amigas A outra, por duas moças negras. A loura e a morena mais nova me lançavam olhares. E eu retribuía às duas indeciso para onde iria. Acabei optando por Rosângela. Malandrinho que veio se juntar a nós, acabou por irritar a futura Tia Dinha e nos deixou. Tia Dinha também não gostou de mim aquele dia e me deixou com sua irmã. Isso foi em 1997. Um ano depois nos casamos. Durou mais ou menos 16 anos essa relação que nos gerou duas filhas e mais uma amizade que prezo muito. Se tive novos amores? Paixões sim... Vislumbres adolescentes de um velho. Apenas vislumbres... HISTÓRIA DE VIDA PARTE 21 REFLEXÕES DE UM AVÔ: E Tauã veio para alegrar, preencher e complementar nossas Vidas. Nos imortalizar por meio da continuidade. São seis agora, os que vieram de mim para irem além de mim. Carne de minha carne somada a carne de outras carnes perdidas em tempos imemoriais além dos Sapiens... Além dos primeiros primatas. Evolução mental, carnal e espiritual contribuindo para o bom caminho da humanidade. Essa é a esperança que queremos, nós que viermos de quem não se importava por não saber e que mesmo sabendo ainda continuamos a fazer tudo como nossos pais. O Futuro está nas mãos destes pequenos seres, não porque queremos, mas por necessidade de sobrevivência da nossa espécie. Eu acredito em Tauã, sem cobrança, mas por ser otimista. E espero. A imortalidade possível acontece nesses seres que surgem para ocuparem espaços que um dia deixaremos, para fazerem melhor o que fizemos ou deixamos de fazer... Eu sei que parece que estou jogando as responsabilidades da nossa geração nas costas destes pequenos. Não é isso. É sim, um reconhecimento das nossas limitações e incapacidades para resolver os problemas que nossos pais e avós deixaram. Herança maldita de desrespeito e destruição. Vergonhosamente é isso... Me desculpa Gaya e Tauã, mas já não espero tanto de seus pais. Deixo o legado do reconhecimento de que falhamos. Não falhem... Por favor, não falhem. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 22 TRABALHADOR: No Vale do Jatobá iniciei minha vida de trabalhador. Comecei aos onze ou doze anos, vendendo pirulito caseiro de uma senhora perto lá de casa e passei a vender mais tarde, picolés. Essa renda me permitia manter minha coleção de revistas do Batman, Superman, Demolidor e Cebolinha e até comprar presente para minha mãe nos dias das mães. Meu grito de vendedor era diferente dos que vejo hoje em dia. - Eeeel pirulitooo é só dez! – Gritava de tempos em tempos promovendo a barata mercadoria que custava dez centavos de cruzeiro. Quando passei a vender picolé e pasteis usei o mesmo grito, mudando o nome da mercadoria e o seu preço. De triste lembrança foi o dia que um menino mais velho - irmão de um amigo meu – comeu uns três pastéis e não quis pagar e até me empurrou me mandando embora. Fui sim. Direto para a casa dele e contei para a sua mãe que acabou me pagando. A partir daquele dia, passei a fugir do tal garoto com medo de uma surra. Ainda no Vale, tive outra fonte de renda: Encher saquinhos de figurinhas de Álbuns de futebol virou uma atividade também das minhas irmãs. A orientação que nos davam era a de colocar três figurinhas diferentes em cada pacotinho e fechá-los. Mas confesso que algumas vezes coloquei três figurinhas iguais sem que ninguém notasse. Ficava imaginando cinicamente, a cara de quem fosse sorteado com aquele pacote. Já falei do “Campo do Sete” o chamado “Independência”, que fica aqui na Sagrada Família – BH. Pois é, voltamos a morar no bairro, vindos do Vale do Jatobá em 1973. Tinha quinze anos nesta época e o bairro era completamente diferente do “Vale”. O Campo do Sete era uma eminência para nós. Grandes jogos aconteceram e acontecia naquele templo do futebol. Nesse início de retorno ao mundo belorizontino, logo me esqueci dos gatos que meu pai jogava sobre os muros do campo e me envolvi na dinâmica externa dos grandes clássicos que aconteciam nos domingos. A minha experiência de vendedor de pasteis, pirulitos e picolés me fez engajar na corrida para tomar conta dos carros dos torcedores. A grande verdade, é que não tomávamos conta nada. Apenas perguntávamos aos proprietários se queriam que vigiássemos os seus carros e só voltávamos aos carros para pegar o dinheiro que eles quisessem dá. Eu só pegava uns seis carros por jogo, mas conhecia quem pegava até o dobro. Às vezes o dono chegava e a gente não se encontrava nas proximidades. Então, perdíamos a grana. Acontecia com os melhores. Eu também tomava conta de carros na feira que acontecia na Avenida Silviano Brandão. Lembro até hoje, de acompanhar pelos jornais que comprava com esse trabalho, a Guerra entre Israel e os árabes que aconteceu naquele ano de 1973. Era assim que gastava esse rico dinheirinho: Comprando jornais e revistas e livros. Durou pouco essa minha fase de tomador de conta de carro. Logo comecei a vender sandálias e tamancos para o Tio Haroldo andando com uma grande sacola pelo bairro, por Santa Tereza e Floresta. Não era um bom vendedor porque sempre acabava passando pelas mesmas ruas e as pessoas até me conheciam. Chamavam minha atenção dizendo: Você já passou aqui sábado passado. De qualquer forma, essa foi uma boa experiência para aquele jovem entre os 15 e 16 anos. *Carlos Henrique Rangel. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 23 AMORES II Ah... E teve aquela ex-namorada de colega meu, que conheci em festa do IAB. Durou algum tempo, mas em Diamantina veio o início do fim. Por sua causa. Não vou negar que te amei em beijos rápidos em festival de Diamantina, enquanto a namorada não vinha. Mas a namorada viu e só terminou comigo aqui em BH. Você, eu já havia visto antes nas idas em Santa Inês dos anos 1980. Te vi depois nos anos 90 e não mais... Você lembra Deise? Houve aquela moça que o moço muito doido beijou no Estricnina. E nenhuma palavra trocamos... beijos... Muitos beijos sim. No Sabor e Arte ganhei um beijo de uma moça que desapareceu no tempo. No Abóbora, cheio de cerveja, te arranhei insistentemente, vencendo sua resistência. Me levou para casa, colocou Enya e incenso e eu dormi. Apenas dormi. No outro dia sim, te amei como se fosse única e nunca mais te vi. Teve aquela amante de poesia que minhas poesias amou. Mas era muito para mim. E aquela com nome de cantora tão linda quanto distante... Nada tínhamos a ver. E houve Você que desmaiou em sua casa e eu me despedi em bilhete escrito com feijões. Ah meus amores eternizados nessa memoria que tantas perdeu... Ficaram vocês povoando a branca cabeça deste velho saudosista. *Carlos Henrique Rangel. HISTÓRIA DE VIDA PARTE 24 O PRESENTE: Aquele menino tinha uns doze anos. Gostava de ler gibis e vendia picolés, pirulitos e até pasteis para comprá-los. Naquele domingo, o pouco dinheiro que ganhara não iria parar em uma banca de revista. Era dia da mulher que ele mais amava e queria comprar para ela um presente. Havia aquela lojinha que vendia de tudo um pouco e ele entrou tímido, olhando jarros, copos, lembranças. A cada um que lhe chamava a atenção ele olhava para a senhora, dona da loja e perguntava com voz quase inaudível: ''Quanto custa?''. A maioria das dezenas de vezes que perguntou, o preço superava a quantia que possuía. Alguém pode estranhar, porque ele não pedia ao pai a quantia suficiente para completar e comprar o que queria? Isso nunca passou pela cabeça daquela criança solitária e tímida. Ele daria o presente possível. O melhor que podia. E nessa mais de uma hora atormentado e atormentando a vendedora, o menino encontrou dois que se igualavam à sua quantia e em simplicidade. Agora o dilema era qual. Mais meia hora de namoro e ele decidiu por um copo com a frase: ''Querida Mamãe''. O suado presente foi entregue com muito amor naquele dia. Muitos anos depois, quando a mãe partiu para o Céu dos que querem o Céu, o pequeno copo - ainda existente - retornou ao menino, agora um avô. Está entre as suas coisas, lembrando da mãe do menino que um dia foi. E isso o torna de novo um menino com lágrimas nos olhos lamentando a ausência de mãe. * Carlos Henrique Rangel.

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