CARTILHA DE CONSERVAÇÃO
O TURISTA
Autor: Carlos Henrique Rangel
O Senhor entrou na igreja olhando com admiração o belo teto.
Uma pintura colorida em azul, vermelho, branco.
Uma senhora limpava o chão de tábuas com um esfregão e o Senhor se dirigiu a ela.
- Boa tarde.
- Boa. – Respondeu a senhora parando o seu serviço.
- Linda igreja... – Disse o homem olhando ao redor.
- Ah... É sim. Mas já foi mais... Tem problemas.
- Problemas?- Perguntou o Senhor.
- Sim senhor. Vem cá para o senhor ver. – Chamou a mulher.
O Senhor a seguiu curioso. A pequena gorda senhora apontou
uma trinca na parede.
- Olha só. E tem mais lá na sacristia...
- Senhora... Como é mesmo o nome da Senhora?
- Jandira... Pode me chamar de Jandira... Sou ajudante do Padre Zé.
- Muito prazer... Meu nome é Jorge. Já notou que não sou daqui.
- É turista né?Aqui vem um monte de turista todos os dias...
- É, sou e não sou...
- Ora Seu Jorge, ou é ou não é...
- É que estou de férias sim, mas também nunca deixo de trabalhar...
-Que trabalho bom... Ficar olhando as igrejas dos outros...
Jorge riu.
- É mais ou menos isto que eu faço. Eu sou arquiteto e trabalho com Patrimônio Cultural...-Espera! Não precisa falar... Eu sei o que é isto: é esse monte de coisa que nossos avós construíram ou fizeram... A igreja por exemplo.-Isto. Toda a produção cultural de um povo – os bens culturais materiais e imateriais: festas, igrejas, praças, Músicas, causos... Tudo isto é Patrimônio Cultural e diferencia uma Cidade, comunidade ou lugar de um outro...
-Falou bonito Seu Jorge. –Disse a D. Jandira batendo palma.
- É Dona Jandira, tudo isto está relacionado com passado, memória, identidade e cidadania.
- O senhor tem certeza que é arquiteto? Tá mais para poeta...
Novamente o Senhor Jorge riu.
- Pois é Dona Jandira, eu cuido de igrejas como esta.
- Uai que bom! Então pode começar a cuidar desta que eu vou fazer muito gosto.
– Disse a Dona Jandira entregando a esfregão para o Visitante.
-Não é desse jeito não Dona Jandira... Eu faço projetos, acompanho obras de restauro e oriento...
- restauro?
- Bens culturais como essa igreja devem ser restaurados. Ou seja, As obras devem
manter as características originais do bem...
- Tá bom... Já vi que o piso de lajota que o padre quer vai ficar no querer...
- Disse a Senhora olhando o piso de tábuas.
- Isto não pode. O bonito desta igreja é o que ela tem de original e que vem seguindo anos e anos essa linda comunidade...
- Mas o senhor fala bonito eh! – O Arquiteto sorriu.
- Então tá, Seu Jorge. Já que o senhor não vai esfregar o chão, pode ajudar nestas trincas?O Arquiteto olhou detalhadamente a parede da nave, a parede da Capela Mor, o altar...
- Olha Dona Jandira, essas trincas podem ser um problema com a fundação...
- Pode ser sim.. A igreja foi fundada há tanto tempo...
- Não é esse tipo de fundação... Fundação é o alicerce, a base da igreja...- Sorriu o Senhor.
- Ah bom... O alicerce aqui é todo de pedra... Cada Pedrão...
- Pois é, o alicerce sustenta a igreja... Pode ser que esteja havendo movimentação da terra que pode está causando afundamento do alicerce. Isto acaba afetando as paredes.
- Será? – Perguntou a senhora pondo a mão no queixo.
- Pode ser.
- Mas então o que pode ser feito nestes casos? – Perguntou a Dona Jandira.
- Para evitar esse tipo de problema é preciso que não se deixe cair a Água da chuva direto no terreno da igreja. Para isto as tubulações, as calhas que recebem as águas da chuva, das torneiras ou do esgoto devem estar em bom estado, sem vazamento.
Temos que limpar periodicamente as caixas de inspeção e valas. E claro, providenciar tratamento de limpeza das peças apodrecidas por insetos...
- Não sei como é que anda isto não...- Disse a senhora pensativa.
- Mas pode ser outra coisa... O trafego de veículos também abala as paredes das casas e igrejas antigas...-ahh, Eu já cansei de falar para o Padre Zé que esse negócio de caminhão passando aqui do lado não cheirava bem...Isto tem que ser visto com calma. O Trafego de veículos pesados pode e deve ser desviado para outra área...
- Pois é e estas paredes nem de tijolos são... Quero dizer, não esses tijolos modernos...São de Adobe... Mas existem algumas de pau-a-pique...
- Mas o Senhor é danado hem? Eu pensei que o Senhor não sabia. - O arquiteto Jorge riu novamente do jeito engraçado da Senhora.É, temos paredes de pedras, de adobe, de taipa, de pau-a-pique e as mais modernas, de tijolos de alvenaria. As igrejas de taipa precisam ser revestidas de argamassa e pintura à base de cal para poderem respirar como esta aqui. – Disse ele mostrando a parede.
- Não pode colocar cimento?- Perguntou a Senhora.
- Cimento não vai deixar a parede “respirar”e vai acabar deslocando e caindo. A umidade que sobe dos alicerces podem atingir a parede e os rebocos. Isto vai gerar manchas e até deslocamento... Até vegetação pode nascer nas trincas...Também é aconselhável não furar as paredes com pregos. Você pode usar trilhos para pendurar objetos decorativos que não danificam as paredes.
- Bom saber...- Disse a Senhora abaixando a cabeça.
- Para limpar as paredes de pedra e tijolo, a senhora deve lavá-las com água e detergente neutro, evitando o excesso de água, utilizando uma escova suave para não causar desgaste na pintura.
E o chão Seu Jorge? Se não podemos trocar esse piso, como podemos
cuidar dele?
O Arquiteto deu uma boa olhada nas tábuas.
- Olha Dona Jandira, o piso não é só um lugar de pisar.
- Não!?Serve para quê mais? – Perguntou espantada a Senhora.
- Ele é decorativo, enfeita a igreja... Protege os fiéis da umidade que vem do solo...
- Decorativo... Ehhh... É bonito... E trabalhoso...
- Pois é, Dona Jandira, se não cuidar a senhora vai ter muito mais trabalho... Esse piso de tábua precisa de cuidados: Não devemos deixar acumular água ou goteiras para evitar que surjam fungos e apodrecimento da madeira. Devemos substituir as peças estragadas para não atrapalhar todo o conjunto. E claro, devemos vigiar e controlar sempre para não deixar surgir cupim e broca. Para limpar, use sempre um pano levemente umedecido ou quase seco, assim a senhora tira a poeira... Em seguida deve aplicar a cera de madeira. Depois disso a Senhora só deve usar uma vassoura de pelo macia para retira a poeira... Nada deste esfregão...
- Eta homem sabido...
- Os barrotes - as peças de madeira que sustentam o piso, precisam de cuidados constantes... A senhora ou o Padre devem olhar se não há vazamento da tubulações de água, de esgoto.O piso pode ser afetado também pelos problemas no alicerce...
- Ah sei, a tal da Fundação....
- Os pisos de ladrilho hidráulico devem ser limpos com água e sabão neutro sempre que for preciso. Pode ser usado um pano úmido em outras vezes ou encerados. Peças quebradas devem ser substituídas.
O arquiteto olhou para o alto e viu algumas mancha.
- A cobertura... O telhado, deve ser constantemente visitado. Como a senhora sabe, o telhado protege as paredes e tudo mais aqui dentro.
- Isto eu sei. Quando chove é um Deus nos acuda... Chove lá fora e aqui dentro...
- Pois é, existem telhas quebradas ou deslocada ou mesmo acumulo de sujeira e isto causa goteiras. Pode ser que o problema seja a pouca declividade do telhado...
- Pode ser mesmo... Nós nunca colocamos essa tal de “declividade”.
O Arquiteto conteve o riso.
- Declividade é ... Como posso dizer... O telhado tem pouca curvatura e a água se acumula e acaba descendo para dentro da igreja. Agora, as calhas também precisam estar limpas para deixar a água descer...
- É... Se o Senhor diz...
- Mas tem as esquadrias...
- Tem não Seu Jorge... Só em junho... – Disse a Senhora balançando o dedo.
- Não é Quadrilha... Eu disse Esquadrias...
- Ahhh bom! ...O que é isto?- Perguntou a senhora.
- São as portas e janelas...
- Que nome chique para porta e janela...
- Pois é, as portas e janelas sofrem muito com as chuvas e com o Sol...Com os cupins e brocas... E se não cuidarmos constantemente o problema só piora. Também não se pode trocar janelas antigas por modernas...
Não em bens culturais como essa igreja, protegidos pelos órgãos de preservação.
- Mas então como é que fica. Se estraga a janela não pode trocar?
- Pode sim. Quando não tem mais jeito substitui-se a janela por modelo parecido, de preferência construído com madeira idêntica às outras janelas.
- E tem que trocar os vidros quebrados...
- Isto mesmo Dona Jandira. Quebrou, trocou... Assim não entra água e não apodrece a madeira. No caso das ferragens das janelas, é necessário lubrificar de quando em quando e retirar o excesso de tinta que impede a janela de fechar direito.Peças enferrujadas devem ser lixadas...
- E o forro? Sei que depois que arrumarmos o telhados vamos ter que reformar...
- Restaurar. O Forro tem que passar por uma restauração feita por um especialista.
- Aqui tem. O Manuel sambista. Ele faz tudo para a Escola de Samba... Restaurou
a imagem de Nossa Senhora que ficou lindinha... Até ruge ele pôs...
- Não, Dona Jandira, restauração é coisa séria, tem que chamar um profissional que estudou para isto. – Disse o Arquiteto horrorizado procurando a imagem de Nossa Senhora.Dona Jandira, as imagens e o altar devem ser limpos adequadamente. A senhora deve olhar se tem sujeira. Se o pó está preso à imagem... Deve olhar se tem ataque de insetos se há furos... Olhar se a pintura ou douramento está desprendendo... Se existem partes soltas...Muitas vezes o local onde a peça está não é adequado. O local deve ser limpo... Sem pó nos pisos e paredes...
No caso de pinturas na parede a senhora não deve encostar móveis nem elementos que possam desgastar ou danificá-la. Não furar com pregos ou coisa parecida para pendurar objetos; Evitar iluminação direta sobre as pinturas;Não fixar avisos e cartazes diretamente sobre as pinturas;Orientar os fiéis para não tocar as pinturas.
Para limpar as imagens e os altares a senhora deve usar uma trincha
macia, limpa e seca. Tudo isto com muito cuidado. Removendo sempre os fungos porque eles podem se espalhar contaminando as outras imagens e até a senhora.
- Deus me livre! – Se benzeu a Senhora assustada.
- Olha Dona Jandira, para carregar uma peça destas a Senhora tem que usar as duas mãos...E luvas....
- Ai que chique...
- E com delicadeza... Suave mas com firmeza...Dona Jandira, o mais importante é a conservação que nós chamamos de “Preventiva”. Ou seja, devemos cuidar para impedir os danos e a deterioração. Há coisas simples que podem ser feitas; acondicionar o lixo dentro de sacos plásticos e colocá-lo na rua na hora do lixeiro passar... Olhar periodicamente as caixas de papelão ou caixotes que estão atrás de armários, gavetas para ver se tem roedores...Evitar acumulo de entulhos...Colocar telas metálicas nas aberturas dos telhados ou telas de nylon em beirais por causa dos pombos...Os ninhos destes devem ser removidos...- Continuou o Arquiteto.
- Ai meu Deus... Mais trabalho para mim...
-Para a Senhora sozinha não... A igreja é de todos e toda a comunidade deve ser envolvida para cuidar sempre deste patrimônio maravilhoso que vocês possuem. Vigie sempre...
- Vamos vigiar sim...
- Agora Dona Jandira, sempre que o problema for além das possibilidades da comunidade, chamem um técnico especialista.
- Pois é Seu Jorge, que tal o senhor parar essas suas férias...?
O arquiteto sorriu.
- Vou pensar...- ajoelhou diante do altar e começou a orar.
FIM
PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS
PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS
terça-feira, 5 de maio de 2009
A MATRIZ
Autor: Carlos Henrique Rangel
Em uma cidadezinha não muito distante, igual a tantas existentes neste nosso Brasil, vivia uma comunidade pacífica e ordeira, feliz com seus pequenos prazeres: a conversa na calçada, a missa na Matriz, o passeio que se seguia após o culto e é claro, as festas regionais. Praticamente a vida do lugar acontecia na praça da Matriz onde todos se encontravam. A Matriz, com suas duas torres era a presença mais marcante há quase trezentos anos. Símbolo da religiosidade local acompanhava a vida de todos com sua grandiosidade e imponência.
Esse símbolo adorado e reverenciado por todos tinha o seu benfeitor. Na verdade uma família de benfeitores que há cem anos cuidava da Matriz, trocando telhas quebradas, pintando, limpando. O ultimo membro desta antiga e rica família de comerciantes era o Sr. Israel Ferreira do Amaral Neto, conhecido por todos pelo carinhoso apelido de IFAN. E este rico e respeitado senhor durante cinqüenta anos cuidou da Matriz como se fosse um filho que nunca teve. No entanto a riqueza acumulada em décadas pela família Ferreira do Amaral, que parecia inesgotável foi se dissipando em negócios mal feitos e o Sr. IFAN chegou à velhice praticamente pobre.
Essa pobreza seria apenas um drama familiar se não houvesse um grande porém: a Igreja Matriz... Com recursos limitados que mal davam para o sustento de sua casa, o Sr. IFAN não pôde mais cuidar da Igreja. As telhas não eram mais trocadas, a pintura não era renovada, os vidros quebrados continuavam quebrados.
A pacata comunidade assistia à degradação do seu bem mais precioso sem entender o que acontecia.
- Olha mamãe, o vidro está quebrado – disse um menino mostrando a janela da fachada principal da Matriz.
- É, isso é horrível meu filho. Onde está o Sr. IFAN que não resolve este absurdo? – Exclamou Dona Maria escandalizada com a situação do velho templo.
- Está toda se perdendo... Coitada da nossa Igreja... – resmungou o velho Sr. Manuel que passava com uma de suas netas.
O padre José que estava na porta ouviu o comentário e balançou a cabeça triste.
- O telhado está todo cheio de furos... Quando chove, a igreja vira uma piscina... – Disse olhando para a janela.
- Isto não está certo, o Sr. IFAN não podia ter deixado isto acontecer... – Protestou Jorge, o pipoqueiro da Praça.
- Concordo com o senhor... Isto é desleixo. Temos que fazer alguma coisa. – Disse Dona Maria.
- Vamos lá na casa dele agora resolver isto de uma vez por todas. – Disse o Sr. Manuel.
- Isso mesmo vamos todos nós até a casa dele. – Falou o Padre José se adiantando.
E assim o pequeno grupo se dirigiu à mansão dos Ferreira do Amaral para tomar satisfação do solitário Sr. IFAN.
Foram recebidos pela velha criada da família que se assustou com a visita inesperada.
- Padre José, Sr. Manuel, Dona Maria... Já ficaram sabendo? – Espantou-se a Tia Nenê.
- Sabendo de que mulher? – Perguntou o padre sem entender.
- Ih... O Sr. IFAN, coitado, está doente há cinco dias... Não sai da cama... – Disse ela abrindo a porta para que a comitiva entrasse na sala.
- Não sabíamos... A verdade é que viemos por outro motivo. Precisamos falar com ele...
- Calma Manuel... O pobre homem está doente... – Disse o Padre colocando a mão no ombro do homem.
- Olha, se a coisa é urgente, eu vou falar com ele para ver se pode recebê-los. – Disse Tia Nenê aflita.
- Não sei não... Será que agente não poderia resolver isto outro dia... – Lamentou o Padre José.
- Não, nada disso. Vamos resolver tudo agora mesmo, ou o senhor esqueceu do estado triste em que está a nossa querida Matriz? – Falou o Sr. Manuel um pouco alterado.
- Olha, eu vou falar com ele e volto já. – Disse Tia Nenê saindo rapidamente.
Voltou logo depois pedindo que todos subissem ao quarto do velho Sr. IFAN.
O grupo o encontrou deitado, com o rosto branco como cera e os finos cabelos brancos desgrenhados.
- Oh meus amigos, desculpem recebê-los assim... A gripe me derrubou... Nada muito grave... A que devo a honra dessa visita? – Perguntou o polido Sr. IFAN.
- Olha Sr. IFAN lamentamos muito incomodá-lo neste momento, mas temos algo muito sério para tratar. – Disse o Padre José com o semblante carregado.
- Por favor, sentem–se estou doente, mas não estou morrendo. – Falou o Sr. IFAN.
O grupo se acomodou nas cadeiras espalhadas pelo quarto e um pequeno silêncio ocupou o espaço por alguns segundos. Foi Dona Maria que o quebrou.
- É sobre a Matriz... Sabe Sr. IFAN, ela está terrível com furos no telhado, vidros quebrados, imagens com cupim... – Disse ela timidamente.
- É... Ela está horrível, daqui a pouco cai. – Exagerou o Sr. Manuel.
- É isto mesmo, Está suja quebrada e o que o senhor vai fazer? – Perguntou o Pipoqueiro.
- Olha meus amigos, o que eu posso fazer?- disse ele mostrando a cama.
- O que o senhor pode fazer? Ora Sr. IFAN, o Senhor tem que dar um jeito nisto. – Disse o Padre José.
- Eu? Olhem para mim. Olhem para minha casa... Estou velho, velho e pobre. Mal, mal tenho recursos para sustentar-me e a esta pobre Tia Nenê... – Lamentou IFAN.
- Mas o senhor sempre cuidou da Igreja. O senhor e toda a sua família... – Rebateu o Sr. Manuel.
- Eu sei disso. E olha que é com muito pesar que admito que não tenho condições de cuidar mais dela. – Falou o velho e doente senhor.
- Mas isto não está certo. Tem que cuidar sim senhor – Gritou o Sr. Manuel.
- Meu amigo, você mais do que eu sabe do amor que minha família sempre teve pela igreja, mas ela nunca foi nossa. A Matriz é de toda a cidade. – Disse IFAN.
- A onde o senhor quer chegar? Perguntou Dona Maria.
- À verdade. A Matriz é responsabilidade de todos nós, não de uma família...
- Mas vocês sempre fizeram tudo sozinhos... – Disse o Padre.
- É verdade, foi um grande erro e só agora nesta situação difícil que percebi isto. – Disse IFAN.
- Mas se o senhor não pode cuidar, quem vai cuidar? – Perguntou o pipoqueiro.
- Ela não é de todos? Então todos vão cuidar...- Falou o doente com a voz rouca.
- Mas não temos dinheiro... – Falou o Sr. Manuel levantando-se.
- É verdade, individualmente somos todos pobres e o conserto da nossa querida Igreja é caro...Mas juntos... Juntos podemos muito. – Disse o Sr. IFAN.
- Como? Não entendi. – perguntou o Padre José.
- É simples, vamos buscar os recursos na comunidade. – Falou IFAN sentando-se na cama.
- Buscar como? – Perguntou Dona Maria.
- Ora, vamos criar comissões... O Padre José pode organizar um leilão...
- Leilão de que Sr. IFAN, a Igreja não tem nada para leiloar... – Riu o Padre.
- Leilão das coisas que vamos recolher da comunidade... Um leitão do Sr. Pedro fazendeiro, um cesta de frutas do pomar da Dona Maria, uma toalha bordada da Dona Rita...
- Que ótima idéia Sr. IFAN, Eu conheço muita gente que pode oferecer coisas interessantes. – Falou radiante o Padre José.
- Podemos fazer barraquinhas... Vender pastéis após a missa. – Disse Dona Maria sorrindo.
- Isto mesmo gente. Dona Maria fica encarregada de montar a comissão das barraquinhas, Jorge conhece muita gente e pode ficar encarregado de recolher objetos para o leilão junto com o Padre...- Falou o Senhor Manuel.
- E o senhor, o que vai fazer? – Perguntou José.
- Vou procurar os pedreiros e marceneiros e explicar o problema... Pedir o apoio deles. – Falou o Senhor Manuel.
- Que ótimo. Então vamos logo resolver isto. – Gritou o Padre José levantando-se. Os outros o seguiram radiantes. O grupo se despediu do doente e foi tratar dos assuntos.
O Padre José aproveitou a hora da missa para convocar voluntários e o apoio de toda a comunidade. Não demorou muito para que todos contribuíssem com alguma coisa ou com alguma atividade. O Senhor Haroldo da Gráfica fez os convites que foram espalhados por toda parte convocando para o leilão em prol da Matriz e para as barraquinhas na Praça. Em dez dias tudo estava pronto. No domingo de manhã aconteceu o leilão regado à fogos de artifício e balões. À noite as barraquinhas fizeram a festa como nunca havia se visto na cidade. Na Praça toda colorida de bandeirinhas multicores e de toldos brancos das barracas oferecia-se de tudo um pouco: pastéis da Dona Nhonhô, toalhas de renda da Dona Rita, bijuterias da Martinha... E tinha bebidas: refrigerantes e cervejas... Uma festa. Tudo e todos pela Matriz era o lema.
Praticamente todo mundo participou, até mesmo o senhor IFAN, coitado, ainda gripado.
O dinheiro arrecadado não foi muito, mas permitiu o início da obras realizadas por técnicos especializados. Logo alguém teve a idéia de vender santinhos e postais para conseguir mais dinheiro. O Sr. Alfredo do mercado ofereceu camisetas com estampas da igreja, um sucesso. Os pastéis de Dona Nhonhô viraram mania da cidade... Mas ainda era pouco.
- Gente do céu! E os santos? Como ficam os santos?- Perguntou Zé do Peixe na reunião semanal da Comissão.
- É mesmo, a Santa Rita está toda carunchada, coitada! – Disse Ritinha.
- Não é só ela não, o São José parece um queijo suíço de tão esburacados. – Falou o Padre José.
- Oh gente! Está aí a solução. – Falou Dona Maria levantando com os olhos brilhantes de euforia.
- Que solução? – Perguntou Padre José.
- Ora, não estão vendo? Muitas meninas, moças e senhoras chamam-se Rita por causa da Santa Rita...
- É mesmo. Muitos homens chamam-se José por causa do São José... – Falou o Padre José.
- Entendi. Vamos procurar as Ritas e os Josés. – Falou o Sr. IFAN.
E assim a Comissão dos santos saiu pelas ruas da cidade visitando as Ritas e os Josés pedindo ajuda para restaurar as imagens.
- Olá Dona Rita, como vai? – Perguntavam:
- Vou bem...
- Sabe Dona Rita, A senhora chama Rita por causa da imagem de Santa Rita, não é?
- É sim...
- Pois então, a Coitada da Santa está lá toda cheia de cupim... Precisa ser restaurada. Quanto a senhora pode dar para ajudar a Santa?
E assim fizeram com o São José, com o Santo Antônio, com tantos outros santos. Restauraram as imagens com a ajuda das Marias, dos Joãos, das Ritas e dos Josés.
A igreja vivia cheia de gente querendo ajudar ou assistir as obras. Os professores das escolas levavam os alunos para verem os trabalhos em horários pré-determinados e os restauradores prestativos explicavam tudo.Todos ajudavam e aprendiam ajudando.
Mas havia o forro. O belo forro rococó da Matriz fora muito danificado pelos anos de goteira.
- Gente! Agora é o forro, olha só o estado dele. – Disse o Sr. Manuel apontando para o alto.
- Agora ficou difícil, não conheço ninguém que se chama forro... – Brincou um rapaz.
- Engraçadinho. Se não tem ninguém tem todo mundo... – Disse Dona Maria.
Pensaram um pouco em silêncio e o próprio rapaz que fizera a brincadeira teve uma idéia.
- E se a gente fizesse um desenho do forro e dividisse em pedaços iguais. Podíamos vender os pedaços...
- Que idéia ótima. – Gritou o Padre José.
E isto foi feito. Fizeram o desenho do forro e saíram oferecendo a todos.
Conseguiram restaurar o forro com a ajuda de todos.
No dia da inauguração as pessoas apontavam para certos lugares no forro sorrindo.
- Está vendo aquele pedaço ali, foi eu que ajudei a restaurar. – Disse Zé do Peixe.
- Grande coisa, aquele outro ali foi eu. – Falou Dona Maria rindo.
Foi uma grande festa na cidade quando as obras terminaram. A igreja brilhava de tão bonita. A Praça estava toda enfeitada... Fogos de artifício coloriam o céu. As mulheres vestiram suas melhores roupas. Os homens pareciam noivos de tão elegantes. O Padre José parecia o rei da festa de tão feliz. A pacata cidade que sempre fora muito calma e feliz estava mais unida do que nunca. A Igreja que sempre fora adorada por todos, agora era de fato de todos. E este sentimento se espalhou para todos os lugares da cidade. Agora os casarões eram de todos, a praça era de todos, as cachoeiras, as árvores, as festas...Um sentimento comunitário de respeito por tudo imperava.
O Sr. IFAN?
Sarou da gripe e passeava todas as tardes de braços dados com Tia Nenê. Continua muito respeitado por todos.
FIM
GLOSSÁRIO
- Benfeitor
O que faz bem; aquele que faz benfeitoria.
- Comissão
Conjunto de pessoas encarregadas de tratar juntamente um assunto.
- Imponência
Altivez; magnificência; grandiosidade; suntuoso.
- Pacata
Pacífica; sossegado; tranqüila.
- Símbolo
Objeto a que se dá uma significação moral.
- Semblante
Rosto; aparência; fisionomia.
- Restaurar
Recuperar; reintegrar; renovar; por em bom estado.
- Rococó
Estilo de ornamentação que vigorou em Minas Gerais a partir da segunda metade do século XVIII.
Autor: Carlos Henrique Rangel
Em uma cidadezinha não muito distante, igual a tantas existentes neste nosso Brasil, vivia uma comunidade pacífica e ordeira, feliz com seus pequenos prazeres: a conversa na calçada, a missa na Matriz, o passeio que se seguia após o culto e é claro, as festas regionais. Praticamente a vida do lugar acontecia na praça da Matriz onde todos se encontravam. A Matriz, com suas duas torres era a presença mais marcante há quase trezentos anos. Símbolo da religiosidade local acompanhava a vida de todos com sua grandiosidade e imponência.
Esse símbolo adorado e reverenciado por todos tinha o seu benfeitor. Na verdade uma família de benfeitores que há cem anos cuidava da Matriz, trocando telhas quebradas, pintando, limpando. O ultimo membro desta antiga e rica família de comerciantes era o Sr. Israel Ferreira do Amaral Neto, conhecido por todos pelo carinhoso apelido de IFAN. E este rico e respeitado senhor durante cinqüenta anos cuidou da Matriz como se fosse um filho que nunca teve. No entanto a riqueza acumulada em décadas pela família Ferreira do Amaral, que parecia inesgotável foi se dissipando em negócios mal feitos e o Sr. IFAN chegou à velhice praticamente pobre.
Essa pobreza seria apenas um drama familiar se não houvesse um grande porém: a Igreja Matriz... Com recursos limitados que mal davam para o sustento de sua casa, o Sr. IFAN não pôde mais cuidar da Igreja. As telhas não eram mais trocadas, a pintura não era renovada, os vidros quebrados continuavam quebrados.
A pacata comunidade assistia à degradação do seu bem mais precioso sem entender o que acontecia.
- Olha mamãe, o vidro está quebrado – disse um menino mostrando a janela da fachada principal da Matriz.
- É, isso é horrível meu filho. Onde está o Sr. IFAN que não resolve este absurdo? – Exclamou Dona Maria escandalizada com a situação do velho templo.
- Está toda se perdendo... Coitada da nossa Igreja... – resmungou o velho Sr. Manuel que passava com uma de suas netas.
O padre José que estava na porta ouviu o comentário e balançou a cabeça triste.
- O telhado está todo cheio de furos... Quando chove, a igreja vira uma piscina... – Disse olhando para a janela.
- Isto não está certo, o Sr. IFAN não podia ter deixado isto acontecer... – Protestou Jorge, o pipoqueiro da Praça.
- Concordo com o senhor... Isto é desleixo. Temos que fazer alguma coisa. – Disse Dona Maria.
- Vamos lá na casa dele agora resolver isto de uma vez por todas. – Disse o Sr. Manuel.
- Isso mesmo vamos todos nós até a casa dele. – Falou o Padre José se adiantando.
E assim o pequeno grupo se dirigiu à mansão dos Ferreira do Amaral para tomar satisfação do solitário Sr. IFAN.
Foram recebidos pela velha criada da família que se assustou com a visita inesperada.
- Padre José, Sr. Manuel, Dona Maria... Já ficaram sabendo? – Espantou-se a Tia Nenê.
- Sabendo de que mulher? – Perguntou o padre sem entender.
- Ih... O Sr. IFAN, coitado, está doente há cinco dias... Não sai da cama... – Disse ela abrindo a porta para que a comitiva entrasse na sala.
- Não sabíamos... A verdade é que viemos por outro motivo. Precisamos falar com ele...
- Calma Manuel... O pobre homem está doente... – Disse o Padre colocando a mão no ombro do homem.
- Olha, se a coisa é urgente, eu vou falar com ele para ver se pode recebê-los. – Disse Tia Nenê aflita.
- Não sei não... Será que agente não poderia resolver isto outro dia... – Lamentou o Padre José.
- Não, nada disso. Vamos resolver tudo agora mesmo, ou o senhor esqueceu do estado triste em que está a nossa querida Matriz? – Falou o Sr. Manuel um pouco alterado.
- Olha, eu vou falar com ele e volto já. – Disse Tia Nenê saindo rapidamente.
Voltou logo depois pedindo que todos subissem ao quarto do velho Sr. IFAN.
O grupo o encontrou deitado, com o rosto branco como cera e os finos cabelos brancos desgrenhados.
- Oh meus amigos, desculpem recebê-los assim... A gripe me derrubou... Nada muito grave... A que devo a honra dessa visita? – Perguntou o polido Sr. IFAN.
- Olha Sr. IFAN lamentamos muito incomodá-lo neste momento, mas temos algo muito sério para tratar. – Disse o Padre José com o semblante carregado.
- Por favor, sentem–se estou doente, mas não estou morrendo. – Falou o Sr. IFAN.
O grupo se acomodou nas cadeiras espalhadas pelo quarto e um pequeno silêncio ocupou o espaço por alguns segundos. Foi Dona Maria que o quebrou.
- É sobre a Matriz... Sabe Sr. IFAN, ela está terrível com furos no telhado, vidros quebrados, imagens com cupim... – Disse ela timidamente.
- É... Ela está horrível, daqui a pouco cai. – Exagerou o Sr. Manuel.
- É isto mesmo, Está suja quebrada e o que o senhor vai fazer? – Perguntou o Pipoqueiro.
- Olha meus amigos, o que eu posso fazer?- disse ele mostrando a cama.
- O que o senhor pode fazer? Ora Sr. IFAN, o Senhor tem que dar um jeito nisto. – Disse o Padre José.
- Eu? Olhem para mim. Olhem para minha casa... Estou velho, velho e pobre. Mal, mal tenho recursos para sustentar-me e a esta pobre Tia Nenê... – Lamentou IFAN.
- Mas o senhor sempre cuidou da Igreja. O senhor e toda a sua família... – Rebateu o Sr. Manuel.
- Eu sei disso. E olha que é com muito pesar que admito que não tenho condições de cuidar mais dela. – Falou o velho e doente senhor.
- Mas isto não está certo. Tem que cuidar sim senhor – Gritou o Sr. Manuel.
- Meu amigo, você mais do que eu sabe do amor que minha família sempre teve pela igreja, mas ela nunca foi nossa. A Matriz é de toda a cidade. – Disse IFAN.
- A onde o senhor quer chegar? Perguntou Dona Maria.
- À verdade. A Matriz é responsabilidade de todos nós, não de uma família...
- Mas vocês sempre fizeram tudo sozinhos... – Disse o Padre.
- É verdade, foi um grande erro e só agora nesta situação difícil que percebi isto. – Disse IFAN.
- Mas se o senhor não pode cuidar, quem vai cuidar? – Perguntou o pipoqueiro.
- Ela não é de todos? Então todos vão cuidar...- Falou o doente com a voz rouca.
- Mas não temos dinheiro... – Falou o Sr. Manuel levantando-se.
- É verdade, individualmente somos todos pobres e o conserto da nossa querida Igreja é caro...Mas juntos... Juntos podemos muito. – Disse o Sr. IFAN.
- Como? Não entendi. – perguntou o Padre José.
- É simples, vamos buscar os recursos na comunidade. – Falou IFAN sentando-se na cama.
- Buscar como? – Perguntou Dona Maria.
- Ora, vamos criar comissões... O Padre José pode organizar um leilão...
- Leilão de que Sr. IFAN, a Igreja não tem nada para leiloar... – Riu o Padre.
- Leilão das coisas que vamos recolher da comunidade... Um leitão do Sr. Pedro fazendeiro, um cesta de frutas do pomar da Dona Maria, uma toalha bordada da Dona Rita...
- Que ótima idéia Sr. IFAN, Eu conheço muita gente que pode oferecer coisas interessantes. – Falou radiante o Padre José.
- Podemos fazer barraquinhas... Vender pastéis após a missa. – Disse Dona Maria sorrindo.
- Isto mesmo gente. Dona Maria fica encarregada de montar a comissão das barraquinhas, Jorge conhece muita gente e pode ficar encarregado de recolher objetos para o leilão junto com o Padre...- Falou o Senhor Manuel.
- E o senhor, o que vai fazer? – Perguntou José.
- Vou procurar os pedreiros e marceneiros e explicar o problema... Pedir o apoio deles. – Falou o Senhor Manuel.
- Que ótimo. Então vamos logo resolver isto. – Gritou o Padre José levantando-se. Os outros o seguiram radiantes. O grupo se despediu do doente e foi tratar dos assuntos.
O Padre José aproveitou a hora da missa para convocar voluntários e o apoio de toda a comunidade. Não demorou muito para que todos contribuíssem com alguma coisa ou com alguma atividade. O Senhor Haroldo da Gráfica fez os convites que foram espalhados por toda parte convocando para o leilão em prol da Matriz e para as barraquinhas na Praça. Em dez dias tudo estava pronto. No domingo de manhã aconteceu o leilão regado à fogos de artifício e balões. À noite as barraquinhas fizeram a festa como nunca havia se visto na cidade. Na Praça toda colorida de bandeirinhas multicores e de toldos brancos das barracas oferecia-se de tudo um pouco: pastéis da Dona Nhonhô, toalhas de renda da Dona Rita, bijuterias da Martinha... E tinha bebidas: refrigerantes e cervejas... Uma festa. Tudo e todos pela Matriz era o lema.
Praticamente todo mundo participou, até mesmo o senhor IFAN, coitado, ainda gripado.
O dinheiro arrecadado não foi muito, mas permitiu o início da obras realizadas por técnicos especializados. Logo alguém teve a idéia de vender santinhos e postais para conseguir mais dinheiro. O Sr. Alfredo do mercado ofereceu camisetas com estampas da igreja, um sucesso. Os pastéis de Dona Nhonhô viraram mania da cidade... Mas ainda era pouco.
- Gente do céu! E os santos? Como ficam os santos?- Perguntou Zé do Peixe na reunião semanal da Comissão.
- É mesmo, a Santa Rita está toda carunchada, coitada! – Disse Ritinha.
- Não é só ela não, o São José parece um queijo suíço de tão esburacados. – Falou o Padre José.
- Oh gente! Está aí a solução. – Falou Dona Maria levantando com os olhos brilhantes de euforia.
- Que solução? – Perguntou Padre José.
- Ora, não estão vendo? Muitas meninas, moças e senhoras chamam-se Rita por causa da Santa Rita...
- É mesmo. Muitos homens chamam-se José por causa do São José... – Falou o Padre José.
- Entendi. Vamos procurar as Ritas e os Josés. – Falou o Sr. IFAN.
E assim a Comissão dos santos saiu pelas ruas da cidade visitando as Ritas e os Josés pedindo ajuda para restaurar as imagens.
- Olá Dona Rita, como vai? – Perguntavam:
- Vou bem...
- Sabe Dona Rita, A senhora chama Rita por causa da imagem de Santa Rita, não é?
- É sim...
- Pois então, a Coitada da Santa está lá toda cheia de cupim... Precisa ser restaurada. Quanto a senhora pode dar para ajudar a Santa?
E assim fizeram com o São José, com o Santo Antônio, com tantos outros santos. Restauraram as imagens com a ajuda das Marias, dos Joãos, das Ritas e dos Josés.
A igreja vivia cheia de gente querendo ajudar ou assistir as obras. Os professores das escolas levavam os alunos para verem os trabalhos em horários pré-determinados e os restauradores prestativos explicavam tudo.Todos ajudavam e aprendiam ajudando.
Mas havia o forro. O belo forro rococó da Matriz fora muito danificado pelos anos de goteira.
- Gente! Agora é o forro, olha só o estado dele. – Disse o Sr. Manuel apontando para o alto.
- Agora ficou difícil, não conheço ninguém que se chama forro... – Brincou um rapaz.
- Engraçadinho. Se não tem ninguém tem todo mundo... – Disse Dona Maria.
Pensaram um pouco em silêncio e o próprio rapaz que fizera a brincadeira teve uma idéia.
- E se a gente fizesse um desenho do forro e dividisse em pedaços iguais. Podíamos vender os pedaços...
- Que idéia ótima. – Gritou o Padre José.
E isto foi feito. Fizeram o desenho do forro e saíram oferecendo a todos.
Conseguiram restaurar o forro com a ajuda de todos.
No dia da inauguração as pessoas apontavam para certos lugares no forro sorrindo.
- Está vendo aquele pedaço ali, foi eu que ajudei a restaurar. – Disse Zé do Peixe.
- Grande coisa, aquele outro ali foi eu. – Falou Dona Maria rindo.
Foi uma grande festa na cidade quando as obras terminaram. A igreja brilhava de tão bonita. A Praça estava toda enfeitada... Fogos de artifício coloriam o céu. As mulheres vestiram suas melhores roupas. Os homens pareciam noivos de tão elegantes. O Padre José parecia o rei da festa de tão feliz. A pacata cidade que sempre fora muito calma e feliz estava mais unida do que nunca. A Igreja que sempre fora adorada por todos, agora era de fato de todos. E este sentimento se espalhou para todos os lugares da cidade. Agora os casarões eram de todos, a praça era de todos, as cachoeiras, as árvores, as festas...Um sentimento comunitário de respeito por tudo imperava.
O Sr. IFAN?
Sarou da gripe e passeava todas as tardes de braços dados com Tia Nenê. Continua muito respeitado por todos.
FIM
GLOSSÁRIO
- Benfeitor
O que faz bem; aquele que faz benfeitoria.
- Comissão
Conjunto de pessoas encarregadas de tratar juntamente um assunto.
- Imponência
Altivez; magnificência; grandiosidade; suntuoso.
- Pacata
Pacífica; sossegado; tranqüila.
- Símbolo
Objeto a que se dá uma significação moral.
- Semblante
Rosto; aparência; fisionomia.
- Restaurar
Recuperar; reintegrar; renovar; por em bom estado.
- Rococó
Estilo de ornamentação que vigorou em Minas Gerais a partir da segunda metade do século XVIII.
TATÁ E TOTÓ
Autor; Carlos Henrique Rangel
Fazia calor naquela manhã de domingo.
Como sempre acontecia nos domingos, quase todas as crianças da cidade se encontravam ali na bela pracinha.
Luna e sua irmã Ananda brincavam de “pegador”.
Corriam para um lado.
Corriam para o outro.
Subiam em árvores.
Escondiam na fonte luminosa.
Corriam, escondiam, subiam, brincavam a valer.
Neste dia, no entanto, havia uma novidade.
Não era um novo brinquedo ou uma nova criança.
Não era uma flor diferente no jardim ou um novo trenzinho musical.
Em um canto da praça, duas figuras chamavam a atenção das pessoas.
A menorzinha era peluda. Um pelo marrom escuro, parecia um cachorro. Estava deitada no chão encolhidinha.
A outra figura, sentada no banco, tinha um nariz redondo bem vermelho e a boca pintada de azul. Os cabelos eram brancos como algodão.
Foi Luna quem viu primeiro aquela novidade e rapidinho chamou a irmã e uma amiga.
- Vejam, um cachorro. – Disse Luna apontando o animal.
- É um gato. – Falou Ananda se aproximando.
- Pode ser um urso. – Completou Reisla.
As três meninas se aproximaram.
- Eu não disse que era um cachorro. – Falou Luna passando a mão no animal deitado.
- Parece doente, nem se mexe. – Disse Ananda.
O homem de nariz vermelho olhou para a menina e não disse nada.
Parecia cansado e os velhos olhos olhavam sem olhar.
- O cachorro é do senhor? – Perguntou Luna.
O velho homem de nariz vermelho balançou a cabeça respondendo sim.
Luna reparou as roupas do homem.
Um terno velho com remendos.
Olhou para o cachorro, um triste animal sujo.
- Como ele se chama? – Perguntou Reisla.
- Totó... – Respondeu o homem.
- O senhor está passeando com ele? – Perguntou Luna.
- Mais ou menos... Na verdade estamos fazendo duas coisas: passeando e trabalhando.
- É mesmo? O que é que vocês fazem?
O homem suspirou cansado.
- Com o que eu pareço? – Perguntou ele às três meninas.
- Eu acho que o senhor é um palhaço. – Falou Reisla.
- Eu acho que o senhor está gripado. – Falou Ananda mostrando o nariz vermelho.
- Mas você é boba mesmo em Ananda, não está vendo que ele é um palhaço... – Ralhou Luna.
O homem balançou a cabeça.
- Isto mesmo sou Tatá, “o Palhaço Andarilho”. – Respondeu.
- E o que o senhor faz? – Perguntou Ananda.
- Ai meu Deus, que menina bobona... Palhaço faz palhaçada, não é seu Totó ? – Perguntou Reisla.
- O nome dele é Tatá. Totó é o cachorro. – Falou Luna.
O palhaço piscou os olhos tristes.
- Eu e Totó fazemos arte. – Disse ele olhando para o cachorro.
- Totó está fingindo de morto? – Perguntou Ananda passando a mão no animal.
- Não, ele está descansando.
- Mas seu Tatá, onde esta o Circo? Todo palhaço tem um circo. – Perguntou Luna.
- Totó e Tatá não pertencem a nenhum Circo...Já pertencemos... Agora somos sós. – Disse Tatá de cabeça baixa.
- Por quê? – Perguntou Reisla.
- Ah menina, fiquei doente e fui mandado embora, agora eu e Totó corremos o Brasil mostrando nossa arte.
As meninas olharam para as duas tristes figuras e tentaram imaginar o que faziam.
- Mostra para a gente a sua arte. – Pediu Luna.
O palhaço não disse nada. Levantou com dificuldade e puxando de uma perna caminhou até o centro da praça.
Totó se levantou e o seguiu de cabeça baixa.
O homem e o cachorro chamaram a atenção das pessoas da praça que curiosas começaram a se aproximar:Casais de namorados.Meninos e meninas.Senhoras e senhores.Luna, Ananda e Reisla.
Tatá deu uma lenta olhada em seu público e abriu um triste sorriso de velho palhaço.
- Respeitável público, meu nome é Tatá e aqui temos Totó. Somos artistas andarilhos e vivemos da nossa arte. Peço apenas uma ajuda para o nosso sustento.
Estralou os dedos e Totó se pôs a caminhar com as patas traseiras dando voltas. O público delirou aplaudindo. Depois Tatá pediu que Totó pulasse dando cambalhotas e o animal que antes parecia doente obedeceu ao dono. Passava pelas pernas doentes de Tatá, rolava, latia...
Luna olha admirada a arte dos dois. Notou de repente que algo estava acontecendo. O velho palhaço e o cachorro sujo e feio, diante de seus olhos começaram a brilhar.
- Veja Ananda, olhe o que está acontecendo... – Gritou a menina assustada. Ananda e Reisla estavam de bocas abertas.
Uma mágica aconteceu. O velho palhaço triste, aleijado e de roupas emendadas não existia mais. Em seu lugar , um jovem e dinâmico palhaço de roupas coloridas pulava ao lado de um Totó de pêlos brilhantes e cheio de energia. Totó brincava com as crianças, fazia piruetas e saltos mortais... Pulava argolas, pulava e latia...
Quando o show acabou uma chuva de moedas cobriu os dois artistas.
Luna, Ananda e Reisla correram para a dupla agora cercada de crianças.
Os adultos admirados observavam o bando de crianças ao redor do velho palhaço pobre e do cão sujo.
Não entendiam nada.
Fim
Autor; Carlos Henrique Rangel
Fazia calor naquela manhã de domingo.
Como sempre acontecia nos domingos, quase todas as crianças da cidade se encontravam ali na bela pracinha.
Luna e sua irmã Ananda brincavam de “pegador”.
Corriam para um lado.
Corriam para o outro.
Subiam em árvores.
Escondiam na fonte luminosa.
Corriam, escondiam, subiam, brincavam a valer.
Neste dia, no entanto, havia uma novidade.
Não era um novo brinquedo ou uma nova criança.
Não era uma flor diferente no jardim ou um novo trenzinho musical.
Em um canto da praça, duas figuras chamavam a atenção das pessoas.
A menorzinha era peluda. Um pelo marrom escuro, parecia um cachorro. Estava deitada no chão encolhidinha.
A outra figura, sentada no banco, tinha um nariz redondo bem vermelho e a boca pintada de azul. Os cabelos eram brancos como algodão.
Foi Luna quem viu primeiro aquela novidade e rapidinho chamou a irmã e uma amiga.
- Vejam, um cachorro. – Disse Luna apontando o animal.
- É um gato. – Falou Ananda se aproximando.
- Pode ser um urso. – Completou Reisla.
As três meninas se aproximaram.
- Eu não disse que era um cachorro. – Falou Luna passando a mão no animal deitado.
- Parece doente, nem se mexe. – Disse Ananda.
O homem de nariz vermelho olhou para a menina e não disse nada.
Parecia cansado e os velhos olhos olhavam sem olhar.
- O cachorro é do senhor? – Perguntou Luna.
O velho homem de nariz vermelho balançou a cabeça respondendo sim.
Luna reparou as roupas do homem.
Um terno velho com remendos.
Olhou para o cachorro, um triste animal sujo.
- Como ele se chama? – Perguntou Reisla.
- Totó... – Respondeu o homem.
- O senhor está passeando com ele? – Perguntou Luna.
- Mais ou menos... Na verdade estamos fazendo duas coisas: passeando e trabalhando.
- É mesmo? O que é que vocês fazem?
O homem suspirou cansado.
- Com o que eu pareço? – Perguntou ele às três meninas.
- Eu acho que o senhor é um palhaço. – Falou Reisla.
- Eu acho que o senhor está gripado. – Falou Ananda mostrando o nariz vermelho.
- Mas você é boba mesmo em Ananda, não está vendo que ele é um palhaço... – Ralhou Luna.
O homem balançou a cabeça.
- Isto mesmo sou Tatá, “o Palhaço Andarilho”. – Respondeu.
- E o que o senhor faz? – Perguntou Ananda.
- Ai meu Deus, que menina bobona... Palhaço faz palhaçada, não é seu Totó ? – Perguntou Reisla.
- O nome dele é Tatá. Totó é o cachorro. – Falou Luna.
O palhaço piscou os olhos tristes.
- Eu e Totó fazemos arte. – Disse ele olhando para o cachorro.
- Totó está fingindo de morto? – Perguntou Ananda passando a mão no animal.
- Não, ele está descansando.
- Mas seu Tatá, onde esta o Circo? Todo palhaço tem um circo. – Perguntou Luna.
- Totó e Tatá não pertencem a nenhum Circo...Já pertencemos... Agora somos sós. – Disse Tatá de cabeça baixa.
- Por quê? – Perguntou Reisla.
- Ah menina, fiquei doente e fui mandado embora, agora eu e Totó corremos o Brasil mostrando nossa arte.
As meninas olharam para as duas tristes figuras e tentaram imaginar o que faziam.
- Mostra para a gente a sua arte. – Pediu Luna.
O palhaço não disse nada. Levantou com dificuldade e puxando de uma perna caminhou até o centro da praça.
Totó se levantou e o seguiu de cabeça baixa.
O homem e o cachorro chamaram a atenção das pessoas da praça que curiosas começaram a se aproximar:Casais de namorados.Meninos e meninas.Senhoras e senhores.Luna, Ananda e Reisla.
Tatá deu uma lenta olhada em seu público e abriu um triste sorriso de velho palhaço.
- Respeitável público, meu nome é Tatá e aqui temos Totó. Somos artistas andarilhos e vivemos da nossa arte. Peço apenas uma ajuda para o nosso sustento.
Estralou os dedos e Totó se pôs a caminhar com as patas traseiras dando voltas. O público delirou aplaudindo. Depois Tatá pediu que Totó pulasse dando cambalhotas e o animal que antes parecia doente obedeceu ao dono. Passava pelas pernas doentes de Tatá, rolava, latia...
Luna olha admirada a arte dos dois. Notou de repente que algo estava acontecendo. O velho palhaço e o cachorro sujo e feio, diante de seus olhos começaram a brilhar.
- Veja Ananda, olhe o que está acontecendo... – Gritou a menina assustada. Ananda e Reisla estavam de bocas abertas.
Uma mágica aconteceu. O velho palhaço triste, aleijado e de roupas emendadas não existia mais. Em seu lugar , um jovem e dinâmico palhaço de roupas coloridas pulava ao lado de um Totó de pêlos brilhantes e cheio de energia. Totó brincava com as crianças, fazia piruetas e saltos mortais... Pulava argolas, pulava e latia...
Quando o show acabou uma chuva de moedas cobriu os dois artistas.
Luna, Ananda e Reisla correram para a dupla agora cercada de crianças.
Os adultos admirados observavam o bando de crianças ao redor do velho palhaço pobre e do cão sujo.
Não entendiam nada.
Fim
A PRAÇA DAS MENINAS
autor: Carlos Henrique Rangel
Marina e suas amigas estavam brincando na pracinha.
Brincavam de bola.
Brincavam de Amarelinha.
Brincavam de boneca e de Casinha.
Brincavam e se divertiam observado de perto pelo Tio João sentado ali no banco.
- Estou com fome. – Disse Juliana.
- Eu também. – Falou Isabela.
- Então vamos lanchar! – Completou Marina abrindo sua lancheira. De dentro tirou três bombons que dividiu entre as amigas. Desembrulhou o seu e jogou o papel no chão.
Tio João que a tudo assistia se levantou do banco e pegou o papel, jogando-o na lixeira.
- Marina, isto não se faz. Lixo deve ser jogado na lata de lixo. – Disse ele sério.
- Por que Tio João? Por que não posso jogar no chão? – Perguntou a menina curiosa.
- Porque suja a praça, não é Tio João? – Falou Isabela.
- Isto mesmo. Se todos jogassem papéis, cascas de laranjas e outras coisas no chão ou na grama da praça, tudo ficaria imundo. – Disse Tio João.
- Ah, mas os lixeiros catam o lixo... – Falou Juliana.
- Sim, eles pegam o lixo cuidando da limpeza, mas sozinhos eles não conseguem fazer todo o serviço e a praça, Juliana, pertence a todos nós.
- É minha também? – Perguntou Marina.
- Sim senhora, a praça com seus bancos, jardins e brinquedos é de todas as crianças e adultos da cidade.
- Então nós temos que cuidar de tudo para não estragar né? – Perguntou Isabela.
- Isto mesmo. Vocês gostam de vir aqui brincar não é?
- É sim. – Responderam todas.
- Pois é, então temos que cuidar para manter limpos os bancos e o chão e conservar os brinquedos e os jardins. – Falou Tio João.
- Tio João, se a praça é nossa, então o Parque e o Jardim Zoológico também são? – Perguntou Marina.
- Sim, não só o Parque e o Zoológico, mas as ruas também. Por isso devemos cuidar da limpeza dos passeios, deixar tudo limpo. – Disse o Tio olhando em volta.
- Eu não sabia que era rica.
Tio João riu.
- Isso menina, todas essas coisas são as nossas riquezas. São importantes para todos nós.
- Os telefones públicos também? – Perguntou Juliana.
- Os telefones também. – Falou o tio João.
- Outro dia vi uns meninos estragando nosso telefone público. – Disse a menina.
- Isso é muito errado. Os telefones públicos existem para nos ajudar. Para falarmos com amigos, dar recados e avisos e até mesmo para pedir ajuda.
- Se estragarmos o telefone como vamos ligar pedindo ajuda?- Perguntou Marina.
- Eu sempre achei que só a casa onde moro e os brinquedos é que eram meus... – Falou Isabela pensativa.
- Agora você sabe que não é assim.
- Agora sabemos. – Falaram todas ao mesmo tempo.
- Oh gente, eu vi uns papéis caídos ali no nosso jardim. – Falou Marina.
- Então vamos pegá-los. – Gritou Juliana.
- Isso mesmo vamos arrumar a nossa praça... – Falou Isabela.
Assim as três meninas descobriram uma nova brincadeira: cuidar da limpeza da praça.
Tio João voltou para o banco e ficou assistindo.
FIM
autor: Carlos Henrique Rangel
Marina e suas amigas estavam brincando na pracinha.
Brincavam de bola.
Brincavam de Amarelinha.
Brincavam de boneca e de Casinha.
Brincavam e se divertiam observado de perto pelo Tio João sentado ali no banco.
- Estou com fome. – Disse Juliana.
- Eu também. – Falou Isabela.
- Então vamos lanchar! – Completou Marina abrindo sua lancheira. De dentro tirou três bombons que dividiu entre as amigas. Desembrulhou o seu e jogou o papel no chão.
Tio João que a tudo assistia se levantou do banco e pegou o papel, jogando-o na lixeira.
- Marina, isto não se faz. Lixo deve ser jogado na lata de lixo. – Disse ele sério.
- Por que Tio João? Por que não posso jogar no chão? – Perguntou a menina curiosa.
- Porque suja a praça, não é Tio João? – Falou Isabela.
- Isto mesmo. Se todos jogassem papéis, cascas de laranjas e outras coisas no chão ou na grama da praça, tudo ficaria imundo. – Disse Tio João.
- Ah, mas os lixeiros catam o lixo... – Falou Juliana.
- Sim, eles pegam o lixo cuidando da limpeza, mas sozinhos eles não conseguem fazer todo o serviço e a praça, Juliana, pertence a todos nós.
- É minha também? – Perguntou Marina.
- Sim senhora, a praça com seus bancos, jardins e brinquedos é de todas as crianças e adultos da cidade.
- Então nós temos que cuidar de tudo para não estragar né? – Perguntou Isabela.
- Isto mesmo. Vocês gostam de vir aqui brincar não é?
- É sim. – Responderam todas.
- Pois é, então temos que cuidar para manter limpos os bancos e o chão e conservar os brinquedos e os jardins. – Falou Tio João.
- Tio João, se a praça é nossa, então o Parque e o Jardim Zoológico também são? – Perguntou Marina.
- Sim, não só o Parque e o Zoológico, mas as ruas também. Por isso devemos cuidar da limpeza dos passeios, deixar tudo limpo. – Disse o Tio olhando em volta.
- Eu não sabia que era rica.
Tio João riu.
- Isso menina, todas essas coisas são as nossas riquezas. São importantes para todos nós.
- Os telefones públicos também? – Perguntou Juliana.
- Os telefones também. – Falou o tio João.
- Outro dia vi uns meninos estragando nosso telefone público. – Disse a menina.
- Isso é muito errado. Os telefones públicos existem para nos ajudar. Para falarmos com amigos, dar recados e avisos e até mesmo para pedir ajuda.
- Se estragarmos o telefone como vamos ligar pedindo ajuda?- Perguntou Marina.
- Eu sempre achei que só a casa onde moro e os brinquedos é que eram meus... – Falou Isabela pensativa.
- Agora você sabe que não é assim.
- Agora sabemos. – Falaram todas ao mesmo tempo.
- Oh gente, eu vi uns papéis caídos ali no nosso jardim. – Falou Marina.
- Então vamos pegá-los. – Gritou Juliana.
- Isso mesmo vamos arrumar a nossa praça... – Falou Isabela.
Assim as três meninas descobriram uma nova brincadeira: cuidar da limpeza da praça.
Tio João voltou para o banco e ficou assistindo.
FIM
UMA ANTIGA BRINCADEIRA
Autor: Carlos Henrique Rangel
Uma vez por semana José e seus amigos se encontravam na praça.
Andavam de bicicleta, patins ou às vezes jogavam bola.
Neste dia deram muitas voltas de bicicleta pelos canteiros, mas ao contrário dos outros dias, José não achou divertido.
Parou de andar e esperou os amigos.
- Jorge! Júlio! Pedro! – Gritou.
- O que foi José? Porque você parou de andar? – Perguntaram.
- Está chato andar de bicicleta, vamos brincar de outra coisa... – disse José.
- Mas brincar de que? – Perguntou Pedro.
- De bola? – Perguntou Jorge.
- Patins...? – gritou Júlio.
- Não gente, isto agente faz sempre. Vamos brincar de outra coisa.
- Mas de que? – Perguntaram todos.
O Seu Manuel, o pipoqueiro da praça, que ouvia a conversa resolveu ajudar.
- Posso dar uma sugestão? – Perguntou ele.
- Ora Seu Manuel, o que o senhor entende de brincadeiras?
- Perguntou José.
- Já fui criança também.
- Mas foi há muito tempo. – Disse Pedro rindo.
- Criança é sempre criança, não importa o tempo. – Respondeu o Seu Manuel.
- De que o senhor brincava no seu tempo? – Perguntou Jorge.
- Brincava de muitas coisas: ”Pegador de Lata”, “Rouba Bandeira”, de “Artista”...
- Pegador de Lata? – Perguntou Jorge.
- Rouba Bandeira? – Estranhou José.
- Artista? – Exclamou Pedro.
- É, estas e outras brincadeiras, todas divertidas. – Disse o Pipoqueiro.
- Tá bom Seu Manuel, ensina para gente então uma destas brincadeiras. – Pediu José.
- Está bem, hoje vou ensinar a brincar de “Pegador de Lata”... Primeiro para se brincar de “Pegador de Lata” é preciso uma lata.
- Ai, ai, não temos nenhuma lata. – Disse Pedro.
- Serve um tênis? – Perguntou Júlio.
- Serve – Respondeu o Seu Manuel rindo.
- E depois?
- Com a lata na mão ou no nosso caso, com o tênis na mão, escolhemos um pique.
- Pique?
- É, um lugar para se colocar a lata, quero dizer, o tênis. – Falou o Seu Manuel explicando.
- Pode ser o banco? – Perguntou Jorge.
- Pode... Aí, a gente decide quem vai ser o primeiro Pegador...
- Como vamos fazer isto? – Perguntaram.
- Pode se tirar no “Par ou Impar”, ou por livre escolha mesmo.
- Tá bom, e aí? – Perguntou José.
- Aí, alguém joga a lata bem longe...
- O tênis... – Corrigiu Júlio.
- Isto, o tênis... Todos os outros correm para se esconder, de menos o Pegador...
- Por quê? – Perguntou Pedro.
- Oh seu bobo, é porque o Pegador vai ter que buscar a lata...
- O tênis – Corrigiu novamente Júlio.
- Isto mesmo. O pegador vai buscar a lata... Quero dizer o tênis. – Falou o Seu Manuel.
- O que acontece depois? – Perguntou José.
- Agora o Pegador deixa o tênis no pique e vai ter que procurar os outros meninos.
- Quando encontrar um deles, tem que pegar o tênis e bater no banco gritando “um, dois três, no fulano ali atrás da árvore...”
- Se ele estiver atrás da árvore, né? – Perguntou Júlio.
- Claro né mané... – Gritou José.
- Isto mesmo... A brincadeira termina quando o Pegador tiver encontrado todos os participantes ou se um deles salvar todo mundo...
- Salvar? – Perguntaram todos.
- É... Se um dos participantes alcançar o tênis primeiro antes do Pegador, ele tem que gritar “Um, dois, três salvo todo mundo”. Aí começa tudo de novo, com o mesmo Pegador...
- E se ninguém salvar? – Perguntou Jorge.
- Aí o próximo Pegador vai ser o menino que foi pego primeiro.
- Que brincadeira legal... Todos topam brincar de “Pegador de Lata?” – Perguntou José.
- De tênis... – Corrigiu de novo Júlio.
- Tá bom... Todos topam brincar de “Pegador de tênis?”
Todos gritaram sim em uma só voz.
- Então vamos... Quem vai ser o Pegador? – Perguntou José.
- O Júlio, porque é o mais chato. – Disse Pedro.
- Tudo bem, eu topo, mas o tênis tem que ser de marca. – Disse Júlio.
E assim os meninos começaram uma nova brincadeira.
Seu Manuel sabia, na semana seguinte teria que ensinar novas antigas brincadeiras.
FIM
Autor: Carlos Henrique Rangel
Uma vez por semana José e seus amigos se encontravam na praça.
Andavam de bicicleta, patins ou às vezes jogavam bola.
Neste dia deram muitas voltas de bicicleta pelos canteiros, mas ao contrário dos outros dias, José não achou divertido.
Parou de andar e esperou os amigos.
- Jorge! Júlio! Pedro! – Gritou.
- O que foi José? Porque você parou de andar? – Perguntaram.
- Está chato andar de bicicleta, vamos brincar de outra coisa... – disse José.
- Mas brincar de que? – Perguntou Pedro.
- De bola? – Perguntou Jorge.
- Patins...? – gritou Júlio.
- Não gente, isto agente faz sempre. Vamos brincar de outra coisa.
- Mas de que? – Perguntaram todos.
O Seu Manuel, o pipoqueiro da praça, que ouvia a conversa resolveu ajudar.
- Posso dar uma sugestão? – Perguntou ele.
- Ora Seu Manuel, o que o senhor entende de brincadeiras?
- Perguntou José.
- Já fui criança também.
- Mas foi há muito tempo. – Disse Pedro rindo.
- Criança é sempre criança, não importa o tempo. – Respondeu o Seu Manuel.
- De que o senhor brincava no seu tempo? – Perguntou Jorge.
- Brincava de muitas coisas: ”Pegador de Lata”, “Rouba Bandeira”, de “Artista”...
- Pegador de Lata? – Perguntou Jorge.
- Rouba Bandeira? – Estranhou José.
- Artista? – Exclamou Pedro.
- É, estas e outras brincadeiras, todas divertidas. – Disse o Pipoqueiro.
- Tá bom Seu Manuel, ensina para gente então uma destas brincadeiras. – Pediu José.
- Está bem, hoje vou ensinar a brincar de “Pegador de Lata”... Primeiro para se brincar de “Pegador de Lata” é preciso uma lata.
- Ai, ai, não temos nenhuma lata. – Disse Pedro.
- Serve um tênis? – Perguntou Júlio.
- Serve – Respondeu o Seu Manuel rindo.
- E depois?
- Com a lata na mão ou no nosso caso, com o tênis na mão, escolhemos um pique.
- Pique?
- É, um lugar para se colocar a lata, quero dizer, o tênis. – Falou o Seu Manuel explicando.
- Pode ser o banco? – Perguntou Jorge.
- Pode... Aí, a gente decide quem vai ser o primeiro Pegador...
- Como vamos fazer isto? – Perguntaram.
- Pode se tirar no “Par ou Impar”, ou por livre escolha mesmo.
- Tá bom, e aí? – Perguntou José.
- Aí, alguém joga a lata bem longe...
- O tênis... – Corrigiu Júlio.
- Isto, o tênis... Todos os outros correm para se esconder, de menos o Pegador...
- Por quê? – Perguntou Pedro.
- Oh seu bobo, é porque o Pegador vai ter que buscar a lata...
- O tênis – Corrigiu novamente Júlio.
- Isto mesmo. O pegador vai buscar a lata... Quero dizer o tênis. – Falou o Seu Manuel.
- O que acontece depois? – Perguntou José.
- Agora o Pegador deixa o tênis no pique e vai ter que procurar os outros meninos.
- Quando encontrar um deles, tem que pegar o tênis e bater no banco gritando “um, dois três, no fulano ali atrás da árvore...”
- Se ele estiver atrás da árvore, né? – Perguntou Júlio.
- Claro né mané... – Gritou José.
- Isto mesmo... A brincadeira termina quando o Pegador tiver encontrado todos os participantes ou se um deles salvar todo mundo...
- Salvar? – Perguntaram todos.
- É... Se um dos participantes alcançar o tênis primeiro antes do Pegador, ele tem que gritar “Um, dois, três salvo todo mundo”. Aí começa tudo de novo, com o mesmo Pegador...
- E se ninguém salvar? – Perguntou Jorge.
- Aí o próximo Pegador vai ser o menino que foi pego primeiro.
- Que brincadeira legal... Todos topam brincar de “Pegador de Lata?” – Perguntou José.
- De tênis... – Corrigiu de novo Júlio.
- Tá bom... Todos topam brincar de “Pegador de tênis?”
Todos gritaram sim em uma só voz.
- Então vamos... Quem vai ser o Pegador? – Perguntou José.
- O Júlio, porque é o mais chato. – Disse Pedro.
- Tudo bem, eu topo, mas o tênis tem que ser de marca. – Disse Júlio.
E assim os meninos começaram uma nova brincadeira.
Seu Manuel sabia, na semana seguinte teria que ensinar novas antigas brincadeiras.
FIM
JOSÉ E O CASARÃO
Autor: Carlos Henrique Rangel
José era um operário destes que fazem casas.
Que destróem casas.
Erguem edifícios onde havia casas.
Neste dia José não estava fazendo nem construindo edifícios.
Junto com outros operários estava demolindo uma grande e antiga casa.
Neste dia trabalhou muito, derrubando paredes com sua marreta, quebrando tijolos, destruindo pinturas.
Quando o dia terminou, sentou cansado em um degrau de escada.
Seus amigos foram embora, mas ele ficou mais um pouco olhando o trabalho feito. Adiantado, mas ainda não terminado.
Foi então que ouviu uma voz.
Voz rouca, quase distante.
- José...
- Quem está me chamando? Quem está aí? – Perguntou José se levantando.
- Sou eu José – disse a voz.
- Quem? Se mostre, por favor... – Pediu José assustado.
- Já estou me mostrando, estou em toda parte – Disse a voz.
- Não entendo... Que brincadeira é essa? – Perguntou José preocupado.
- Não é nenhuma brincadeira, José. Sou eu, a casa que você destrói.- Disse a voz.
- A casa? – Espantou José.
- Sim, a casa.
- Mas casas não falam – Respondeu José.
- Casas falam e sentem José...
- Devo estar sonhando...
- Não José, você não esta sonhando. Te vi aqui sozinho e achei que podia conversar com você.
- O que quer de mim? – Perguntou o operário tremendo.
- Apenas conversar... Apenas falar... Apenas lamentar...
- Lamentar?
- É... Eu sofro sabia? Sofro por deixar esta terra que eu ví crescer.
- Não sabia que as casas sentiam... – Exclamou José.
- As casas sentem sim. E têm memória também. – Disse a voz.
- Memória?
- É, me lembro ainda do primeiro tijolo que fui, da casa que me tornei... O belo casal que abriguei... Marina nasceu no quarto lá em cima. Depois veio Manuel... Manuel cresceu e se casou. Veio morar em mim. Marina também se casou mas não ficou. Foi para longe... Vinha de vez em quando... Quando os pais morreram parou de vir...
Foi Manuel que me mandou pintar com os barrados coloridos de frutas. Sua mulher me trocou os vidros por estes que você ajudou a quebrar...
- Desculpa – Pediu José.
- É ... Ao meu redor a cidade ia mudando...Crescendo, se povoando... Os carros puxados a cavalo foram substituídos pelos carros a motor... Manuel comprou um ford... Um dia a mulher do Manuel faleceu e ele ficou só com os filhos.
- Coitado... – Lamentou José.
- Marcos, Maria e Fernanda brincavam muito descendo e subindo estas escadas... Rabiscavam-me com seus lápis, me derramavam tinta... Manuel ficava com raiva e me consertava. Eu não ligava... Até gostava...
- Quietinha em meu lugar ouvia falar de guerras e rumores de guerras...Uma doença que matou muita gente... Gripe Espanhola...Manuel reformou o banheiro... Ficou lindo...
- O que aconteceu depois? – Perguntou José.
- Manuel ficou velho, os meninos cresceram, estudaram, casaram, mudaram... Quase não vinham mais... Eu e Manuel assistíamos as mudanças...As modas indo e vindo... O som do rádio, depois a televisão... Os prédios substituindo as casas amigas da vizinhança... Barulho, muito barulho... Aí Manuel morreu... Fiquei só de vez.
- Os meninos não vieram ficar com você? – Perguntou José com os olhos cheios de lágrimas.
- Ninguém me quis...Fiquei fechada um tempo...Os vidros sendo quebrados por meninos...Doía... A solidão doía mais...
De vez em quando um mendigo dormindo na varanda... O fogo de sua fogueira queimando as paredes... Depois...Venderam-me, me esqueceram e aqui estou sendo demolida por vocês...
- Mas que injustiça – Disse José.
- É a vida José... – Disse a casa com sua voz fraquinha.
- Mas toda esta história... Tudo será destruído com você... – Exclamou José.
- Infelizmente é assim... Mas estou aliviada, pelo menos uma pessoa sabe.
- Em tantos anos destruindo e construindo casas, nunca havia pensado que as casas pudessem ter vida.
- Elas têm. Vidas impregnadas das vidas dos que a fizeram e habitaram. Nas paredes, nos lustres, no ranger de cada porta, um pouco dos habitantes permanece. A alma de um tempo, de vários tempos... Seus amores, suas dores, seus modos de viver e ver o mundo... Somos vivas porque abrigamos vidas... Muito mais que isto, abrigamos memórias...
José ficou pensativo.
- É noite José, eu já não tenho mais luz para te iluminar. Vá
para sua casa e pense em tudo que te contei. Amanhã eu
sei, não estarei mais aqui.
José não disse nada. Pegou sua mochila e saiu da casa em ruínas.
Amanhã ele não voltaria.
FIM
Autor: Carlos Henrique Rangel
José era um operário destes que fazem casas.
Que destróem casas.
Erguem edifícios onde havia casas.
Neste dia José não estava fazendo nem construindo edifícios.
Junto com outros operários estava demolindo uma grande e antiga casa.
Neste dia trabalhou muito, derrubando paredes com sua marreta, quebrando tijolos, destruindo pinturas.
Quando o dia terminou, sentou cansado em um degrau de escada.
Seus amigos foram embora, mas ele ficou mais um pouco olhando o trabalho feito. Adiantado, mas ainda não terminado.
Foi então que ouviu uma voz.
Voz rouca, quase distante.
- José...
- Quem está me chamando? Quem está aí? – Perguntou José se levantando.
- Sou eu José – disse a voz.
- Quem? Se mostre, por favor... – Pediu José assustado.
- Já estou me mostrando, estou em toda parte – Disse a voz.
- Não entendo... Que brincadeira é essa? – Perguntou José preocupado.
- Não é nenhuma brincadeira, José. Sou eu, a casa que você destrói.- Disse a voz.
- A casa? – Espantou José.
- Sim, a casa.
- Mas casas não falam – Respondeu José.
- Casas falam e sentem José...
- Devo estar sonhando...
- Não José, você não esta sonhando. Te vi aqui sozinho e achei que podia conversar com você.
- O que quer de mim? – Perguntou o operário tremendo.
- Apenas conversar... Apenas falar... Apenas lamentar...
- Lamentar?
- É... Eu sofro sabia? Sofro por deixar esta terra que eu ví crescer.
- Não sabia que as casas sentiam... – Exclamou José.
- As casas sentem sim. E têm memória também. – Disse a voz.
- Memória?
- É, me lembro ainda do primeiro tijolo que fui, da casa que me tornei... O belo casal que abriguei... Marina nasceu no quarto lá em cima. Depois veio Manuel... Manuel cresceu e se casou. Veio morar em mim. Marina também se casou mas não ficou. Foi para longe... Vinha de vez em quando... Quando os pais morreram parou de vir...
Foi Manuel que me mandou pintar com os barrados coloridos de frutas. Sua mulher me trocou os vidros por estes que você ajudou a quebrar...
- Desculpa – Pediu José.
- É ... Ao meu redor a cidade ia mudando...Crescendo, se povoando... Os carros puxados a cavalo foram substituídos pelos carros a motor... Manuel comprou um ford... Um dia a mulher do Manuel faleceu e ele ficou só com os filhos.
- Coitado... – Lamentou José.
- Marcos, Maria e Fernanda brincavam muito descendo e subindo estas escadas... Rabiscavam-me com seus lápis, me derramavam tinta... Manuel ficava com raiva e me consertava. Eu não ligava... Até gostava...
- Quietinha em meu lugar ouvia falar de guerras e rumores de guerras...Uma doença que matou muita gente... Gripe Espanhola...Manuel reformou o banheiro... Ficou lindo...
- O que aconteceu depois? – Perguntou José.
- Manuel ficou velho, os meninos cresceram, estudaram, casaram, mudaram... Quase não vinham mais... Eu e Manuel assistíamos as mudanças...As modas indo e vindo... O som do rádio, depois a televisão... Os prédios substituindo as casas amigas da vizinhança... Barulho, muito barulho... Aí Manuel morreu... Fiquei só de vez.
- Os meninos não vieram ficar com você? – Perguntou José com os olhos cheios de lágrimas.
- Ninguém me quis...Fiquei fechada um tempo...Os vidros sendo quebrados por meninos...Doía... A solidão doía mais...
De vez em quando um mendigo dormindo na varanda... O fogo de sua fogueira queimando as paredes... Depois...Venderam-me, me esqueceram e aqui estou sendo demolida por vocês...
- Mas que injustiça – Disse José.
- É a vida José... – Disse a casa com sua voz fraquinha.
- Mas toda esta história... Tudo será destruído com você... – Exclamou José.
- Infelizmente é assim... Mas estou aliviada, pelo menos uma pessoa sabe.
- Em tantos anos destruindo e construindo casas, nunca havia pensado que as casas pudessem ter vida.
- Elas têm. Vidas impregnadas das vidas dos que a fizeram e habitaram. Nas paredes, nos lustres, no ranger de cada porta, um pouco dos habitantes permanece. A alma de um tempo, de vários tempos... Seus amores, suas dores, seus modos de viver e ver o mundo... Somos vivas porque abrigamos vidas... Muito mais que isto, abrigamos memórias...
José ficou pensativo.
- É noite José, eu já não tenho mais luz para te iluminar. Vá
para sua casa e pense em tudo que te contei. Amanhã eu
sei, não estarei mais aqui.
José não disse nada. Pegou sua mochila e saiu da casa em ruínas.
Amanhã ele não voltaria.
FIM
MUDANÇA
Autor: Carlos Henrique Rangel
Os cômodos vazio...
Não mais os passos da família...
A algazarra das crianças correndo no corredor...
Na sala, não vejo o sofá...
Apenas a marca na parede identifica o lugar...
A poltrona do Pai ficava ali...
Quase um Trono...
Mesmo sem ela sinto a presença...
O olhar fixo na tela da TV....
Na parede, os furos...
Os quadros infantis das meninas
não estão mais...
Ouço sem ouvir um som na cozinha...
Não há mais fogão
nem louças para lavar...
O sorriso da Mãe no entanto, está no ar.
O cheiro da comida fresquinha está no ar.
Ando pelo corredor procurando os que não estão mais... No quarto... Na estante vazia vejo as sombras dos livros adivinhando seus lugares...
As lágrimas nublam os detalhes... O quarto da Mãe ...
E do Pai para onde corria nas madrugadas de chuva
me abrigando no ninho protetor...
Lugar sagrado de confidências juvenis...
A casa vazia está cheia...
E o meu peito
E minha alma...
Abro a janela
E vejo a vizinhança mudada...
Também eu mudei...
E a Casa...
(mudar é um começo ou o fim?)
Autor: Carlos Henrique Rangel
Os cômodos vazio...
Não mais os passos da família...
A algazarra das crianças correndo no corredor...
Na sala, não vejo o sofá...
Apenas a marca na parede identifica o lugar...
A poltrona do Pai ficava ali...
Quase um Trono...
Mesmo sem ela sinto a presença...
O olhar fixo na tela da TV....
Na parede, os furos...
Os quadros infantis das meninas
não estão mais...
Ouço sem ouvir um som na cozinha...
Não há mais fogão
nem louças para lavar...
O sorriso da Mãe no entanto, está no ar.
O cheiro da comida fresquinha está no ar.
Ando pelo corredor procurando os que não estão mais... No quarto... Na estante vazia vejo as sombras dos livros adivinhando seus lugares...
As lágrimas nublam os detalhes... O quarto da Mãe ...
E do Pai para onde corria nas madrugadas de chuva
me abrigando no ninho protetor...
Lugar sagrado de confidências juvenis...
A casa vazia está cheia...
E o meu peito
E minha alma...
Abro a janela
E vejo a vizinhança mudada...
Também eu mudei...
E a Casa...
(mudar é um começo ou o fim?)
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