IMAGENS
Autor: Carlos Henrique Rangel
Santo Antônio foi furtado da capela do distrito de Zito Soares, em Santa Cruz do Escalvado.
Imagem roubada no dia 27 de dezembro de 2014.
Foto: Paróquia de Santa Cruz/Divulgação
O homem depositou o pacote sobre a mesa e limpou
o suor da testa.
- Está aí. Não foi
fácil... Tinha alarme... – Disse homem olhando para o senhor de cabelos brancos
que segurava um copo de bebida.
- O que estou te
pagando cobre todo o risco... – Disse o homem de cabelos brancos.
- Claro senhor Jorge, eu
não estou reclamando. – Disse o homem suado.
- Tome o seu cheque e
pode ir. – O homem suado limpou
novamente a testa e partiu.
Jorge rasgou o embrulho e sorriu quando viu
a bela imagem de Santo Antônio que havia adquirido. Deu uma volta ao redor da
mesa admirando a peça e sorriu novamente.
- Mestre Piranga...
Sim... Tenho certeza... Agora vou te apresentar a sua nova casa. – Disse
pegando a imagem. Carregou-a por um corredor e parou na ultima porta a direita.
Segurou a imagem entre o braço esquerdo e abriu o pesado cadeado. Era um quarto
pequeno com apenas uma janela bem fechada.
Acendeu a luz e sorriu para as várias peças
sobre uma grande mesa.
- Mais uma para a
minha coleção...Santo Antônio apresento-lhe seus irmãos. – Disse ajeitando a
imagem do santo entre uma Nossa Senhora do Rosário e um São José.
Correu os olhos novamente para o seu acervo
e sorriu feliz. Apagou a luz e fechou a porta.
O ruído ele ouviu quando ainda colocava o
cadeado sobre o trinco.
Eram vozes.
Parou de mexer na porta e esperou.
Colocou o ouvido na porta e esperou.
As vozes começaram tímidas.
- Mais um... Como vai
Santo Antônio, seja bem vindo ao nosso humilde lar. – Disse a Nossa Senhora
ajeitando a coroa.
- Obrigado Senhora, o
prazer é todo meu... Mas... Onde estou? A ultima coisa de que me lembro foi de
ter sido enfiado em um saco... – Disse o Santo olhando ao redor, custando a
enxergar naquela escuridão.
- Isto aconteceu com
todos nós... – Disse um São João Batista que estava mais no canto ao lado de
uma Santa Efigênia.
- Fui roubado? –
Perguntou o Santo assustado.
- Foi. Todos nós
fomos. – Falou uma Nossa Senhora de Lourdes.
- Até hoje tenho
pesadelos por causa daqueles brutos que me tiraram do altar... Olha, quebraram
uma de minhas asas... – Falou um anjo mostrando a asa com um grande remendo.
- Traumatizado,
coitado... Nem dorme direito. – Completou a Nossa Senhora do Rosário balançando
a cabeça.
- Eu nunca pensei que
isto iria acontecer comigo... Já haviam me falado destas coisas. Mas na minha
igreja foi a primeira vez...
- Ai meu filho, na
minha igreja aconteceu tantas vezes... Ai que saudades dos velhos tempos em que
éramos tratadas com respeito... Tantos anos... Quase trezentos anos atrás. –
Lamentou a Nossa Senhora do Rosário.
- A senhora esta muito
bem... Não parece tão antiga... – Falou o Santo Antônio admirando a Imagem da
Senhora.
- Ah meu filho, tenho
alguns probleminhas, uma pequena rachadura, a pintura do meu manto está
desgastada...
- Não se nota. – Disse
o Santo.
- Sou uma boa peça...
Acho que todas nos somos. – Completou a Senhora.
- Aleijadinho?
- Não... Jorge diz que
sim. Mas fui feita pelos ajudantes dele... – Respondeu a Nossa Senhora do
Rosário.
- A senhora faria o
maior sucesso na minha igreja. A nossa “Nossa Senhora do Rosário” é pequena e
singela – Elogiou o Santo Antônio.
- Ah meu filho, não
quero “pegar” o lugar de ninguém...Queria voltar para a minha Igreja...
- Eu sou uma peça
portuguesa. Vim diretamente do Porto... Chique né? – Falou uma Nossa Senhora da
Conceição de mais de um metro.
- Muito... – Exclamou
o Santo Antônio.
- Eu sou paulista
mesmo... Taubaté. E você? – Perguntou o São José.
- Fui feito por um
mestre que trabalhou muito na minha cidade... Mas não posso falar o nome
dele... É segredo... – Explicou o Santo Novato.
- Conheci um Santo
Antônio... Ficava no nicho esquerdo do meu altar... Pegou cupim... Uma
tragédia... – Lamentou a Nossa Senhora da Conceição.
- Nossa! E o que
aconteceu? – Perguntou o santo curioso.
- Levaram ele para um
ateliê de restauração, voltou lindo.
- Que bom... Sei de um
caso gravíssimo... Epidemia mesmo... Pegou em todo mundo. – Disse o São José
pensativo.
- E aí?
- Ah, perdemos um São João Batista, uma Nossa
Senhora do Rosário e uma Santa Rita...- Explicou o São José.
- Catástrofe! Isto
acontece quando a comunidade não cuida direito da igreja...
- Somos muito bem
cuidados aqui. Jorge nos limpa uma vez por semana... – Falou um Cristo que
segurava uma grande cruz.
- Mas isto aqui não é
uma igreja... É escuro e pequeno... – Disse o Santo novato.
- Ai que saudade da
minha igreja... As orações, as velas iluminando...O povo e os pedidos do
povo... – Lamentou a Senhora do Rosário balançando o terço.
- Não tem reza aqui? –
Espantou o Santo recém-chegado.
- Não tem nada, só
escuridão e a visita do Jorge de vez em quando.
- E ele reza?
- Não... Apenas fica
admirando...Nada de preces... – Respondeu o São Joaquim que até então apenas
ouvia.
- Mas que coisa
egoísta... Na igreja somos adoradas por multidões... E as orações... Adorava
ouvir os pedidos e tentar atendê-los...
- Aposto que eram
sobre casamento... – Falou um Menino Jesus deitado em uma manjedoura.
- A maioria dos
pedidos era sobre casamento. – Confirmou o Santo rindo.
- Ai, e as
procissões... Adorava sair pelas ruas no andor. Adorada ver toda a população da
cidade... Subindo ladeiras... Perdi a conta de quantas vezes sai pelas ruas...
Nunca era igual. Ás vezes as novidades não eram boas. Sentia a falta de uma
casa, percebia um prédio novo e feio ocupando o lugar de um sobrado lindo que
existia perto da igreja... Uma mudança no ritual... Mudança para pior... – Lamentou
a Nossa Senhora do Rosário ajeitando o manto.
- E os veículos...
Quando vi o primeiro automóvel quase desci do andor e sai correndo. – Disse o
São José alisando a barba.
- E os cantos... Na
sua igreja tinha música? Na minha igreja cantava-se muito a luz de velas quando
eu era uma imagem novinha. O órgão com aquele lindo som do Céu... Depois
instalaram luz elétrica e a igreja ficou muito mais clara...- Falou um São
Sebastião soltando um dos braços para evitar a cãibra.
- Adoro a Semana Santa
e a decoração das ruas...Saia da minha Igreja e ia para a Igreja de Minha
mãe... – Falou o Cristo pensativo.
- Ai meu Deus que
saudades do Congado... – Lamentou novamente a Nossa Senhora do Rosário.
- Meu povo deve estar
muito triste...- Falou o Santo Antônio forçando a vista, tentando enxergar
melhor os companheiros.
- Aposto que sim. –
Falou o Menino Jesus balançando as perninhas.
- E o Jorge que nem
reza... – Disse o Cristo ajeitando a cruz no ombro.
- Moço mais egoísta...
– Falou Santa Efigênia.
- Será que ele não tem
olhos para ver o que está fazendo com a gente e com o nosso povo? – Perguntou a
Santa Luzia depositando o prato na mesa.
- Se pelo menos fosse
um museu... No museu as pessoas nos visitam... Já pertenci a um museu...- Falou
o Cristo.
- Museu! Deus me
livre! Sou uma santa fui feita para ser adorada e louvada. No museu somos
objetos de arte. – Reclamou a Santa Rita.
- Mas é melhor que
isto aqui. – Falou o Cristo.
- Moço egoísta... E
pensar que estou aqui há quinze anos... – Lamentou novamente a Santa Efigênia.
No lado de fora Jorge ouvia a conversa e seu
coração inicialmente assustado estava agora carregado de tristeza.
A princípio pensou que fosse imaginação. Mas
logo percebeu que se tratava de uma conversa real. Muito real... E séria.
As lágrimas trasbordavam dos olhos
banhando-lhe a face e um grande sentimento de culpa apertava-lhe o peito.
Via os altares vazios e o choro dos fiéis
lamentando a perda dos santos de sua devoção. Ouvia o sermão duro do padre
pedindo providências. Via os andores vazios... As beatas chorando... As
procissões empobrecidas...
Via o quarto com os olhos dos santos: escuro
silencioso...Sem preces, sem luz de velas...
As lagrimas agora molhavam sua camisa. Enxugou
os olhos e sem querer bateu com a mão no trinco provocando um forte ruído
metálico.
A conversa cessou.
Jorge não precisava ouvir mais nada.
Abriu a porta e encontrou o quarto como
havia deixado: em silêncio. O Santo Antônio estava lá entre o São José e a
falante Nossa Senhora do Rosário.
Parou ao lado da peça de Nossa Senhora do
Rosário e acariciou-lhe o rosto. Depois pegou o prato da Santa Luzia que se
encontrava na mesa e colocou sobre a mão
estendida da santa.
- Meus santos e minhas
santas, lamento muito o que tenho feito com os senhores e suas comunidades...
Lamento do fundo do meu coração... A partir de amanhã providenciarei o retorno
de todos às suas igrejas... – Disse ajoelhando no chão frio do quarto e
iniciando uma silenciosa oração...
FIM
ATIVIDADES
1- Na sua opinião, por que Jorge se interessa por imagens
sacras?
2- Qual a diferença de uma imagem sacra na igreja e no
museu?
3- Por que as imagens são roubadas?
4- O que pode ser feito para proteger os bens sacros das
igrejas e dos museus?
5- Você
sabe o que é tombamento?
6- Por que você acha que algumas imagens são tombadas?
7- Quais são os atributos da imagem mais importante da igreja matriz da sua cidade?
Faça desenhos
ou fotografe esses atributos explicando o significado de cada um,
Colando em
uma cartolina.
8- Faça uma pesquisa sobre a vida da Santa.
9- Existe uma festa sobre a imagem? Quando, como e
onde acontece?
ALGUMAS PEÇAS DESAPARECIDAS:
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