PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 20 ANOS

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 20 ANOS

terça-feira, 19 de outubro de 2021

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL - TEXTOS:

 

 INTRODUÇÃO: Educação e Patrimônio

 

A Educação Patrimonial é um trabalho permanente de envolvimento de todos os que compõem a comunidade e tem como objetivo a preservação dos lugares e espaços, casas e manifestações culturais importantes para todos, compartilhando responsabilidades e esclarecendo dúvidas, conceitos e ao mesmo tempo divulgando trabalhos sobre esses bens culturais.

 

 Visa principalmente fortalecer a autoestima das comunidades através do reconhecimento e valorização de sua cultura e seus produtos. 

 

A Educação Patrimonial é um trabalho de “auto-despertar” motivado, que trabalha com a cultura da comunidade ou grupo social.

 

As comunidades devem participar de todas as atividades ligadas à preservação do Patrimônio Cultural: desde o inventário, tombamento, a manutenção, fiscalização, restauração e utilização.

 

Assim, a Educação Patrimonial deve ser entendida como um conjunto organizado de procedimentos e ações que têm como principal objetivo à valorização das comunidades e todo a sua produção cultural.

 

Esse conjunto de textos em linguagem simples tratam sobre as questões relativas à preservação do Patrimônio Cultural.

 

(Carlos Henrique Rangel).


TEXTOS DIVERSOS:

 

1 - OS PROJETOS DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL DO IEPHA DE 1994 A 2010

 

 

 

Carlos Henrique Rangel

 

I - APRESENTAÇÃO:

 

O Projeto Educação, Memória e Patrimônio foi uma experiência pioneira do IEPHA/MG com educação patrimonial realizado em 1994. A instituição realizou outras ações em anos anteriores voltada para as comunidades em época que o conceito educação patrimonial ainda não tinha chegado ao Brasil.

 

 

II - INTRODUÇÃO:

 

O Estado de Minas Gerais concentra inúmeras e diversificadas manifestações culturais espalhadas por toda sua extensão territorial, fruto de suas raízes históricas, suas potencialidades socioeconômica e rica herança cultural.

 

O empenho para a criação de uma instituição destinada à preservação do patrimônio cultural coube aos intelectuais modernistas, encantados com a homogeneidade das cidades do período colonial mineiro, que preservavam praticamente intacto o seu acervo arquitetônico e artístico do século XVIII. Graças a estes expoentes da intelectualidade brasileira dos anos vinte, foi criado em 1936 o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual IPHAN, regulamentado pelo Decreto –Lei n.º 25 de 30 de novembro de 1937. Este órgão de Proteção sustentado pelo instituto do Tombamento e sob a direção do Dr. Rodrigo Melo Franco de Andrade irá empreender a proteção dos grandes núcleos históricos e dos monumentos mais expressivos de nossa cultura até os anos 70 superando dificuldades e se consolidando.

 

Em abril 1970, o encontro de Governadores realizado em Brasília definiu que os Estados e municípios deveriam compartilhar a proteção do Patrimônio de expressão local, criando os seus órgãos de preservação:

 

1- Reconhecem a inadiável necessidade de ação supletiva dos Estados e Municípios à atuação federal no que se refere à proteção dos bens culturais de valor “nacional”.

2- Aos Estados e Municípios também compete, com a orientação técnica da DPHAN, a proteção dos bens culturais de valor regional.

3 – Para a obtenção dos resultados em vista, serão criados onde ainda não houver, órgãos estaduais e municipais adequados, articulados devidamente com os Conselhos Estaduais de Cultura e com a DPHAN, para fins de uniformidade da legislação em vista, atendido o que dispõe o art. 23 do Decreto-Lei 25, de 1937.

 

Seguindo a orientação do “Encontro de Brasília”, em 1971 o governo do Estado de Minas Gerais, criou o IEPHA/MG, fundação integrante do Sistema Estadual de Cultura com a atribuição básica de preservar o patrimônio cultural do Estado empreendendo a identificação, registro, fiscalização e restauração dos bens culturais tangíveis e a partir de 2002, dos bens imateriais.

 

Em âmbito nacional, em 1973, o governo federal criou o Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, que tinha como principal objetivo a promoção e utilização dos bens culturais pelas comunidades. No entanto o papel destinado a essas “ainda era de mediar o gozo estético de seres estranhos à função social dos bens culturais: buscava-se atrair turistas”.[1]

 

Essa iniciativa permitiu o surgimento de experiências, ainda que esporádicas de atuação conjunta das instituições preservacionistas e as comunidades contempladas.

 

Ao longo dos mais de quarenta anos de existência, o IEPHA/MG, cumpriu com relativa desenvoltura as suas funções de proteger, gerenciar e estudar o patrimônio cultural do Estado. No entanto, o número reduzido do seu corpo técnico e a grande extensão territorial de Minas Gerais, aliada à diversidade do acervo cultural, cedo demonstrou a necessidade de parcerias para o desenvolvimento dos trabalhos. Já em 1981, esta necessidade se fazia premente e o envolvimento das comunidades na preservação, uma solução. Um programa com esta finalidade foi idealizado:

 

É cada vez mais premente a necessidade de consolidação de um programa de conscientização cultural das comunidades perante os valores do patrimônio histórico e artístico do Estado, condição básica para sua permanência como uma das grandes heranças espirituais do País e até para que se resguarde a própria responsabilidade pela história de Minas Gerais.

(...)

 Pelo fato de Minas Gerais possuir o maior número de cidades históricas do País, de contar com um dos mais significativos acervos barrocos e por Ouro Preto ter sido declarada Cidade Monumento Universal pela UNESCO, o IEPHA/MG, dentro de suas atribuições e voltado para um trabalho cada vez mais integrado com as comunidades, vem estudando a definição de um programa educativo capaz de contribuir com acerto para a formação da desejada consciência coletiva diante dos valores históricos e artísticos do Estado.

Nesse sentido, conscientizar as nossas populações sobre o direito comunitário de propriedade e o dever de todos na preservação dos bens culturais móveis e imóveis de Minas Gerais significa despertar e promover o “sentimento de respeito da comunidade” pelas tradições de interesse histórico, artístico, arquitetônico e ecológico.

O objetivo principal do IEPHA/MG, com o programa de conscientização a nível de comunidade, visa deflagrar o conhecimento mais amplo do nosso rico patrimônio cultural, condição fundamental para garantir sua defesa e consequentemente, o trabalho de restauração, conservação, valorização e divulgação dos bens tombados ou não de cada comunidade.”[2]

 

Esse programa de 1981 definia como prioridade a promoção do conhecimento a acerca do patrimônio Cultural com utilização de audiovisuais e filmes documentários e concursos em escolas, promoção de palestras, exposições fotográficas e distribuição de material institucional referente aos conceitos e conteúdo dos programas de restauração desenvolvidos pela instituição à época, denominados PCH – Programa de Cidades Históricas e POU – Programa de Obras Urgentes. Pretendia também, um trabalho junto às universidades incentivando as pesquisas referentes ao Patrimônio Cultural.

 

A ação comunitária é o esforço cooperativo e conjugado de uma comunidade que procura tomar consciência de seus problemas e busca resolvê-los desenvolvendo seus próprios recursos e potencialidades, contando para tanto com a colaboração de seus líderes, grupos e instituições.[3]

 

No entanto foi somente em outubro de 1983, com a criação do PAC – Política de Atuação com as Comunidades, que a instituição efetivou de fato um programa de conscientização das comunidades com o principal objetivo de romper com o paternalismo estatal. A política de atuação do PAC partia do pressuposto de que todo bem cultural é “uma referência histórica necessária à formulação e realização do projeto humano de existência”.

 

A Política de Atuação com as Comunidades – PAC parte do pressuposto de que todo bem cultural seja uma referência histórica necessária à formulação e realização do projeto humano de existência.

Por diferentes caminhos, diferentes pessoas podem descobrir diferentes aspectos do valor cultural de um mesmo bem. Mas, a ninguém é dado percebê-lo em sua totalidade, do mesmo modo que é vedado a uma só pessoa o acesso às infinitas imagens possíveis de serem projetadas sobre um só espelho.

(...)

A condição necessária, para que este modo de atuação funcione plenamente é a de que as comunidades locais possam se assenhorar, não apenas de seus valores culturais, mas também, dos tributos que lhes escapam das mãos.

(...)

Deste modo, a criação e o desenvolvimento de entidades locais, encarregadas do patrimônio local e sustentados pelas próprias comunidades, aparece como variável estratégica, capaz de equacionar o problema da deterioração do acervo cultural de Minas.

Uma das metas, fundamentais da Política de Atuação com as comunidades do IEPHA/MG é, precisamente, a de fomentar a criação e o desenvolvimento daquelas entidades. Neste sentido, cumpre-lhe oferecer às comunidades locais subsídios para que possam se organizar de modo adequado.[4]

 

Assim, para empreender essa descentralização foi criada ainda nos anos 1980, a Superintendência de Desenvolvimento e Promoção, que entre outras atribuições se responsabilizou pelas ações comunitárias e assessoria aos municípios. No período de 1982 a 1984 foram criadas 14 (quatorze) ALPHA – Associações Locais do Patrimônio Histórico e Artístico, nos municípios mineiros[5].

 

Entretanto, apesar de todo o trabalho empreendido, como a criação de um caderno técnico com conceitos e diretrizes para a proteção do patrimônio cultural, e uma cartilha do patrimônio cultural (publicada em 1989), os resultados não foram tão satisfatórios.

 

III - O PROJETO EDUCAÇÃO MEMÓRIA E PATRIMÔNIO

 

Em 1994, tendo em vista a continuidade dos trabalhos de conscientização e entendendo que somente a criação de uma sistemática de socialização do conhecimento de todas as questões que envolvem o patrimônio cultural poderia assegurar às comunidades a participação na construção de sua história, o IEPHA/MG resolveu investir em um pioneiro projeto de educação patrimonial. Esta nova empreitada pretendia conscientizar as novas gerações sobre a importância da preservação, entendendo serem elas as futuras guardiãs deste acervo cultural. Para sua realização foram envolvidas as superintendências das duas diretorias técnicas da instituição (Diretoria de Proteção e Memória e Diretoria de Conservação e Restauro) e a Secretaria de Estado da Educação.

 

Sob a Coordenação da arquiteta Aurora Pederzoli em parceria com a Assessora Técnica Geny Lima, o “Projeto Educação, Memória e Patrimônio" foi desenvolvido experimentalmente objetivando a promoção de ações educativas de identificação, valorização e proteção de bens culturais junto a escolas públicas estaduais:

“Considerando a Educação como uma das bases do processo de constituição da identidade cultural, o presente Projeto destina-se a implementar, apoiar e assegurar a continuidade de ações de caráter educativo em unidades escolares estaduais, no sentido de que possam ser transmitidos e refletidos criticamente, conteúdos sobre educação, Memória e Patrimônio [6].

 

Os trabalhos desenvolvidos em duas escolas escolhidas como piloto foram divididos em duas fases que contaram com um ativo envolvimento dos técnicos do IEPHA/MG:

 

- A Primeira fase consistiu em planejamento e realização do curso "Conversando com quem trabalha com Patrimônio Cultural", dirigido ao professores e supervisores das duas escolas envolvidas, tendo como objetivo“ proporcionar informações e atividades correlatas de cunho metodológico com a finalidade de inserção dos conceitos básicos do trabalho com Patrimônio Cultural e História local no currículo da escola de 1º grau” e construir uma didática de abordagem sobre o tema dentro das salas de aula tratando principalmente das questões conceituais. Em três dias foram ministrados os seguintes conteúdos:

 

  • Primeiro dia – “De Patrimônio Edificado a Bem Cultural e Natural: evolução de um conceito” e “Arte Colonial Mineira”.
  • Segundo dia – “Serro – uma experiência com a Comunidade” e “Restauração Artística”( com visita a um ateliê de restauração).

 

  • Terceiro dia – “Recursos metodológicos e materiais no trabalho curricular com História local, Memória e Patrimônio Cultural”.

 

Avaliação: Em termos de conteúdo, verificou-se que todas as informações passadas são da maior relevância, quando se pretende trabalhar as questões  referentes ao Patrimônio Cultural junto às comunidades escolares. Entretanto, alguns itens devem ser observados com relação às palestras, quais sejam:

-    a simplificação da linguagem técnica, a fim de que se torne acessível para os professores;

-    a preocupação em estabelecer elos de ligação entre um tema e outro, no sentido de se formar uma sequência de pensamento;

-    o tempo de duração das falas, visando manter o nível de interesse dos participantes.

 

Ainda nessa fase foram realizadas visitas orientadas ao Palácio da Liberdade em Belo Horizonte e ao Conjunto Arquitetônico do Caraça, atualmente pertencente ao município de Catas Altas.

 

- A Segunda fase consistiu no trabalho de campo propriamente dito, envolvendo as escolas estaduais "Barão de Macaúbas" em Belo Horizonte e a Escola "Zoroastro Vianna Passos" em Sabará. Teve início em outubro de 1994, desenvolvido por duas equipes técnicas diferentes.

 

Na Escola Estadual "Barão de Macaúbas", foram envolvidas duas turmas do 3º ano do ensino fundamental, trabalhadas pelos técnicos: Elinete P. Vasconcelos, Carlos Henrique Rangel, Rodrigo Faleiro, a coordenadora Aurora Perdezoli, e a assessora Geny Lima. Na Escola Estadual "Zoroastro Vianna Passos" foram envolvidos alunos do ensino fundamental e médio, trabalhados pelos técnicos, Elisabeth S. de Carvalho, Tarcísio Guadalupe S. F. Gomes, Delmari Ribeiro, Rodrigo Faleiro, a coordenadora Aurora Perdezoli e a Assessora Geny Lima.

 

O trabalho denominado Jornada do Patrimônio Cultural foi precedido pela definição das atividades a serem desenvolvidas e elaboração do plano de trabalho. Devido ao ineditismo da experiência, foram muito discutidas as formas de abordagens adotadas. A coordenação do projeto em reunião como os professores identificou as temáticas de interesse dos alunos e definiu a abordagem inicial dos docentes, que consistiria basicamente em um trabalho interativo, participativo e envolvente.Com relação ao material didático todo ele foi elaborado pelos técnicos, assim como a sugestão para roteiro de pesquisa, reprodução do acervo histórico/fotográfico da Casa Borba Gato em Sabará, além da confecção de slides para os Jogos de Memória, e propostas de atividades.

 

Escolas diferentes, com turmas diferentes, obtiveram resultados diferentes, com utilização de metodologias e ações diferentes. Todos satisfatórios.


 Na escola de Sabará os destaques foram as visitas guiadas e as duas peças teatrais criadas pelos próprios alunos com a temática referente à preservação da memória e do patrimônio cultural.

 

Avaliação: Considerando-se o fato de que seriam três os roteiros a serem percorridos na cidade, os historiadores ativeram-se basicamente a dois, em decorrência do escasso tempo da palestra e diante da grande quantidade de informações a serem transmitidas. Entretanto, todos os relatos revelaram-se de grande importância para a uniformização da linguagem a ser utilizada em campo pelos técnicos do IEPHA/G.

(...)

A distribuição dos 90 alunos e 03 professores nos três roteiros ocorreu de forma desordenada e desigual, denotando a falta de compromisso e interesse dos professores para com o que havia sido estabelecido no encontro anterior (30 alunos e 01 professor em

cada roteiro).

(...)

Observou-se novamente, que embora de aparente interesse, a quantidade de informações foi considerada excessiva, prolongando em demasia o tempo despendido em cada edifício. Uma decorrência disto foi a interrupção de dois roteiros, diante da forte chuva que caiu aproximadamente às 17 horas, ou seja, muito tempo após o que poderia ser considerado prazo razoável para o fechamento

dos percursos.

Além disto, não houve praticamente nenhuma contribuição por parte dos alunos, os quais portaram-se como meros espectadores e não como atuantes na construção do conhecimento.

(...)

Deve-se destacar a apresentação de duas peças de teatro, a leitura de alguns trabalhos, o envolvimento da comunidade (padre e pesquisadoras locais) e o depoimento de grupos de alunos que, por motivos diversos, não conseguiram apresentar um

“produto final [7] 

 

Na Escola Estadual "Barão de Macaúbas", devido à juventude dos alunos, a equipe optou por uma abordagem questionativa, retirando dos próprios envolvidos, os conceitos relativos à ideia de Patrimônio Cultural, utilizando o vídeo de desenho animado “Alo Amigos” de Walt Disney, descontraído e aparentemente desvinculado da temática. Os alunos foram estimulados a se manifestarem com relação às imagens apresentadas que retratavam a paisagem brasileira da década de 40, em contraste com a realidade atual. Foram utilizados a seu tempo, questionários, recursos audiovisuais com imagens de bens tombados em Minas Gerais e em outros estados, jogos, cruzadinhas, desenhos e uma visita guiada pelo bairro da Floresta tendo como orientação uma planta da década de 40 e uma outra visita ao Museu Abílio Barreto. A excursão pelo Bairro motivou a curiosidade das crianças e o senso de observação permitindo a construção individual do conhecimento.

A utilização de vídeo contendo desenho animado descontraiu a turma e estimulou as crianças a falarem espontaneamente sobre o Patrimônio Cultural, construindo elas mesmas o seu conceito e noção de importância.

O número de slides utilizados (45) pode ser considerado excessivo na medida em que o tempo de duração da exposição é longo; entretanto, sua aceitação pelos alunos foi excelente, gerando questionamentos diversos e surpreendentes, se levada em conta a sua faixa etária (09 anos)

(...)

Os alunos receberam cópias de um trecho da Planta Cadastral da Administração de Juscelino Kubitschek, datada de 1942, com o percurso a ser feito devidamente “ iluminado”: Saindo da Escola, passando pela Praça Zamenhoff, Av. Assis Chateaubriand (antiga Tocantins), Av. Francisco Sales, R. Itajubá, R. Silva Jardim, com uma parada na Igreja Nossa Senhora das Dores.

A medida em que comparavam a numeração antiga com a atual das edificações, os alunos identificavam a idade aproximada das edificações e seus respectivos estilos.

No interior da Igreja, foram respondidas as questões apresentadas pelos alunos quanto a estilo, ambientação, simbologia, dentre outras.

A caminhada livre, sem excesso de informações, permitiu aos alunos que tivessem dúvidas e tirassem suas próprias conclusões a partir do que lhes era esclarecido. Acredita-se que, desta forma, o conhecimento foi sendo construído por cada um, ao invés de lhes ter sido fornecido um “pacote pronto”[8]

Em pouco mais de um mês de atividade os resultados obtidos foram surpreendentes, culminando com uma exposição museológica de objetos dos familiares dos alunos, com legendas elaboradas pelos próprios, e um júri simulado.

“A simulação do museu objetivou o ensino de “como visitar uma exposição”, considerando-se tudo o que foi trabalhado com relação a preservação e valor cultural”[9].

 

A ideia de se fazer um julgamento para se captar o nível de assimilação de ideias dos alunos foi motivada pelas observações detectadas na visita guiada ao bairro Floresta, onde a escola se situa. Devido à proximidade com o Centro da Cidade, a região foi e ainda é palco de grandes transformações que foram facilmente percebidas pelos alunos ao compararem o bairro existente com a realidade apresentada pela planta cadastral dos anos 40.

 

Para servir de pano de fundo ao julgamento foi escolhido o "Solar Cannã", imóvel da década de 40 que, devido a ameaça de demolição por parte dos proprietários foi embargado pela Prefeitura e a época do projeto, encontrava-se em ruínas.

 

A simulação do julgamento tendo como objeto uma realidade concreta motivou o conhecimento dos dilemas encontrados ao longo da luta pela defesa do patrimônio cultural. As turmas foram divididas em “contra a preservação do Solar” e “a favor da sua preservação”. Quatro alunos foram selecionados para encenarem a trama do julgamento. Representaram quatro irmãos: dois a favor da demolição do imóvel e os outros dois favoráveis a preservação. Um outro grupo de alunos foi designado para ser o corpo de jurados a quem caberia a decisão hipotética de preservar ou não o imóvel. Para maior conhecimento e sensibilização dos alunos foram apresentados slides com detalhes do interior e da fachada anteriores à degradação.

 

As duas duplas se empenharam na caracterização dos papéis e no julgamento presidido pela Presidente Interina do IEPHA/MG, Ruth Villamarim Soares. Defenderam com argumentos convincentes os seus pontos de vistas.

 

Os dois alunos que desejavam demolir o imóvel alegaram que era velho e que o mais correto seria a sua substituição por um prédio que teria um apartamento para cada um dos irmãos solucionando a disputa. Os outros dois "irmãos" argumentaram que a casa era cheia de lembranças do passado da família, citando cenas do convívio imaginário dentro da casa e até mesmo as cores das paredes dos quartos e os afazeres dos pais na cozinha do imóvel. Importante esclarecer, no entanto, que nenhum dos alunos conhecia o interior da Solar, o que permitiu uma representação criativa e comovente das argumentações. A atuação, extremamente convincente emocionou a todos os técnicos envolvidos por constatarem a apreensão e utilização dos conceitos discutidos durante o projeto para defenderem o patrimônio e a qualidade de vida local. Venceram os últimos.

 

Em avaliação elaborada após a atividade, a equipe considerou que a divisão das turmas

 

 ...gerou uma competição acirrada, provocando uma atitude parcial entre os alunos, os quais apesar da consciência sobre a importância da preservação passaram a querer ganhar, de qualquer forma [10].

 

Independente do resultado obtido pelo júri simulado, o mais importante de todo processo foi a grande participação das turmas que foram sensibilizadas para a descoberta, dedução, comparação e raciocínio com relação à temática, fechando com chave de ouro o Projeto Piloto:

 

A Jornada extrapolou a esfera da Escola, integrando também a comunidade (padre da Igreja N. S. das Dores, vizinhos da Escola, famílias dos alunos), a qual se mobilizou de diversas formas para a construção do trabalho.

O sucesso da atuação do IEPHA/MG foi tão grande que chegou a provocar “ciúmes” nas turmas que não foram envolvidas no Projeto. A resistência inicial, por parte de alguns professores, em trabalhar a questão do Patrimônio Cultural com seus alunos, acabou sendo superada a partir da tomada de conhecimento do

resultado do trabalho”.

(...)

“O trabalho realizado no “Barão de macaúbas” destacou-se pela flexibilidade no planejamento, o qual foi sendo construído diariamente, em respeito ao conhecimento e interesse de alunos e professores.

(...)

Considerando o objetivo do Projeto em despertar o interesse dos alunos para as questões da preservação do Patrimônio Cultural, houve uma preocupação por parte dos técnicos em não fornecer informações em excesso e sim, esclarecer os questionamentos no momento em que havia a manifestação de interesse pelos alunos, o que pode ser avaliado como bastante salutar.

A atuação integrada dos diversos técnicos envolvidos possibilitou uma linguagem unificada, acessível aos alunos, os quais puderam sentir o resultado do trabalho de uma equipe coesa.[11].

 

Finalizada a experiência, nas duas escolas o IEPHA/MG, devido a grande repercussão advinda, deu prosseguimento à educação patrimonial através do Projeto de Pesquisa "Memória de Minas - Educação e Patrimônio Cultural", numa tentativa de se criar uma atividade permanente integrada às ações comunitárias e ao projeto de realização de inventários da instituição. Este novo projeto tinha como principal objetivo “a socialização do conhecimento das questões referentes ao Patrimônio Cultural, assegurando às comunidades uma verdadeira participação na construção da sua história e, consequentemente, na melhoria de sua qualidade de vida”. Apenas um piloto foi realizado em 1995, na cidade de Leopoldina, onde se empreenderam ações educativas com a participação da comunidade na investigação reconhecimento e manutenção dos referenciais culturais do município. Foram ministrados encontros, palestras, fóruns de debate, o tombamento da Escola Estadual Botelho Reis e o inventário do acervo cultural do município. Nos anos que se seguiram, ações isoladas foram empreendidas em trabalhos de pesquisa para tombamento, inventário e restauração de imóveis tombados. No entanto, estas ações não se traduziam em um projeto efetivo da instituição refletindo muito mais a disposição de alguns técnicos.

 

IV - AS EXPERÊNCIAS DE 2001 a 2006 –

Uma Publicação e o Projeto Trens de Minas

 

        Em 2001, foi realizada uma oficina sobre Educação Patrimonial na sede da Fundação João Pinheiro onde se discutiu as ações passadas da instituição e foram propostas novas ações em parceria com a Fundação João Pinheiro e Secretaria de Estado da Educação.

 

No ano de 2002, houve uma nova tentativa de se empreender um projeto de educação patrimonial, agora em convênio com a Secretaria de Estado da Educação e Fundação João Pinheiro, estabelecendo “um elenco de ações conjuntas visando a disseminação de conceitos, conhecimentos, experiências e recomendações para a exploração do tema Educação Patrimonial nas escolas de nosso estado”. O Projeto gerou uma publicação, (Reflexões e Contribuições para a Educação Patrimonial) com textos de diversos autores, que se tornou referência nacional na área.

 

“A meta da Secretaria da Educação, nesse campo, é estimular ações voltadas para o conjunto do patrimônio histórico e cultural de Minas Gerais. Mas é importante ressaltar que esta não deve ser atividade apenas das instituições e pessoas interessadas na preservação de edificações ou conjuntos arquitetônicos que representam fases da história de Minas. O patrimônio da sociedade mineira vai muito além, das manifestações artísticas ao conhecimento técnico e científico, dos recursos naturais ao aparato turístico de cada região.”[12]

 

Em 2006 o IEPHA/MG realizou um programa de educação patrimonial dentro do subprograma Preservação do patrimônio Cultural do programa “Trens de Minas”, visando, desta forma suprir esta carência de intercâmbio e conscientização tão importante para o bom desempenho da instituição, dos municípios e comunidades na proteção do acervo ferroviário mineiro. Paralelamente, desenvolveu várias ações educativas: cursos, palestras, fóruns, atendimentos presenciais e via e-mail/site, produção de informativos, estórias educativas e jogos auxiliando os municípios mineiros na realização dos seus projetos de educação patrimonial.

 

 


V - O PROGRAMA EDUCAÇÃO MEMÓRIA E CIDADANIA

 

De 2007 a 2010, a Diretoria de Promoção do IEPHA/MG, Gerência de Difusão, desenvolveu um grande programa de educação patrimonial - “Programa Memória e Cidadania” – cujos pilotos aconteceram em 2007 nas cidades de Paracatu e em seguida, em 2008, Pitangui, envolvendo comunidades quilombolas, associações de bairros, Conselho Municipal do Patrimônio, Secretaria Municipal de Educação, Secretarias Municipais de Cultura, entidades públicas e privadas diversas e escolas estaduais e municipais. O foco central era o desenvolvimento de projetos elaborados em conjunto entre os vários seguimentos da sociedade local. Nos anos 2008 a 2010 o projeto atingiu as cidades de Entre Rios, Jeceaba, São Brás do Suaçuí, Pirapora, , Sacramento, Berilo e novamente a cidade de Pitangui.

 

Paralelamente nos anos 2008 e 2010 foram realizadas atividades do projeto com as escolas tombadas de Belo Horizonte, que contemplou as escolas estaduais, Barão do Rio Branco, Barão de Macaúba, Olegário Maciel, Afonso Pena, Instituto da Educação e D. Pedro II.

 

OS PROJETOS

 

  • Projeto em Paracatu – 2007/2008.
  • Projeto em Pitangui – 2008/2009.

2009 – Trabalho com os alunos do “Projovem” vinte e quatro professores e alunos envolvidos.

  • Projeto Escolas Tombadas 2008 a 2010.
  • Projeto em Entre Rios, São Brás e Jeceaba – 2008.
  • Projeto em Pirapora – 2009.
  • Projeto em Sacramento – 2010.

Participaram da oficinas cinquenta e sete agentes culturais.

  • Projeto em Sabará /Ravena e Berilo – 2010.

 

1 - Os objetivos dos projetos:

 

- Promover a sensibilização cultural através de ações junto às comunidades (palestras, cursos, cartilhas e boletins), para que absorvam os conceitos e conheçam a realidade local com relação ao Patrimônio Cultural e possam desenvolver coletivamente ações para valorização e preservação das produções culturais em conjunto com o IEPHA/MG.

- Estimular a apropriação e o uso, pela comunidade, do Patrimônio Cultural que ela detém.

- Estimular o diálogo entre a sociedade e os órgãos responsáveis pela identificação, proteção e promoção do Patrimônio Cultural, propiciando a troca de conhecimentos acumulados sobre estes bens culturais.

- Levar as questões relativas à preservação do patrimônio Cultural para dentro das escolas, contribuindo para que o corpo docente atue como agente multiplicador.

- Incentivar a participação das comunidades nas decisões referentes à preservação revitalização e conservação dos marcos culturais.

- Estimular a autoestima dos vários segmentos sociais através da valorização e reconhecimento de suas produções culturais.

- Propiciar o fortalecimento da identidade cultural individual e coletiva.

- Promover o estudo e a compreensão da cultura local, destacando sua importância e sua singularidade.

- Promover o estudo sobre os bens culturais e seus problemas, buscando soluções.

- Incentivar atividades que ampliem a participação de diversos segmentos da comunidade visando ao prosseguimento das ações do projeto.

- Promover a participação das comunidades nas atividades a serem desenvolvidas pela instituição.

- Tornar acessível, aos indivíduos e aos diferentes grupos sociais, os instrumentos e significados.

- Experimentar e desenvolver metodologias de Educação Patrimonial, que permitam um processo contínuo de conhecimento e compreensão e avaliação dessas ações.

- Promover a produção de novos conhecimentos sobre a dinâmica cultural e seus resultados, incorporando-os às ações de identificação, proteção e valorização do Patrimônio Cultural no nível das comunidades locais e das instituições envolvidas.

 

2 - O trabalho consistiu das seguintes etapas:

 

2.1 - Etapas Preliminares: Definição das ações a serem desenvolvidas.

  • Preparação do material didático a ser trabalhado: apostilas, folhetos explicativos, boletins informativos, cartilha e outros.
  • Reunião da equipe da Diretoria de Promoção com o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, a Secretária de Cultura e Educação dos municípios para explicar as  intervenções do IEPHA/MG e definir  as ações do programa junto às comunidades.

 

2.2 - Etapa I: Definição da área de atuação /público alvo e cronograma.

 

  • Escolha das escolas e comunidades a serem trabalhadas.
  • Pesquisa e montagem de dossiê sobre a comunidade a ser trabalhada.
  • Definição do cronograma das atividades.

 

2.3  - Etapa II: Contatos e Divulgação.

 

  • Reunião com os representantes dos educadores, comunidades, conselheiros e agentes culturais para definição dos participantes da oficina, (em sua maioria agentes culturais, conselheiros e professores).
  • Divulgação do Projeto e ações: Utilização dos meios de comunicação disponíveis para a divulgação da intervenção em todas as suas etapas, através de convites, ofícios, matérias e entrevistas em jornais, rádio, televisão.

     

2.4 - Etapa III: Atividades junto à comunidade: Oficinas e Palestras

As oficinas teriam duração de 16 horas com exposição de conceitos, dinâmicas de grupo, visitas orientadas a locais pré-determinados com mapas e folhas didáticas contendo exercícios para serem realizados em campo e a elaboração em conjunto de projetos a serem desenvolvidos nas escolas e nas comunidades.

O destaque nos exercícios da Visita Orientada são as folhas com detalhes de edificações situadas ao longo do trecho a ser percorrido, para serem descobertos e identificados pelos participantes da oficina. O exercício tem como objetivo estimular a percepção do espaço, muitas vezes ignorado no cotidiano.

 

2.4- Etapa IV: Monitoramento dos projetos: 

 

 

2.6 - Etapa V: Conclusão dos trabalhos:

 

  • Todos os projetos monitorados pelo IEPHA/MG culminaram em um grande evento realizado em local público das cidades.
  • Avaliação dos Projetos e definição de novas etapas do Programa.

 

2.7 - Etapa VI: Relatório Final.

 


VI – Atividades Correlatas do IEPHA/MG

 

Outro grande avanço no processo de municipalização e participação das comunidades na preservação do acervo cultural foi a valorização dos projetos locais de educação patrimonial, que pontuam os municípios no ICMS Patrimônio Cultural - atual Lei 18.030/2009. 

 

Exigência consolidada a partir da Deliberação Normativa 01/2005 do IEPHA/MG, as ações de educação patrimonial passaram a fazer parte do cotidiano dos municípios mineiros, visando a promoção sensibilização e valorização do patrimônio cultural.

 

Nesses anos de atuação, várias foram as iniciativas educativas dos municípios, desde a realização de cartilhas do Patrimônio Cultural, a jogos, revistas, camisetas, cds interativos, almanaques, chaveiros, postais, calendários, imãs de geladeira, etc.

Destacamos as cartilhas de Pitangui, Ubá, Juiz de Fora, Uberlândia, Campo Belo, Conselheiro Pena, Aricanduva, Divino das Laranjeiras, Rio Piracicaba, Monte Alegre, Conselheiro Lafaiete, Tiradentes, Sete Lagoas, Contagem, Congonhas, Iturama, São Thomé das Letras, Três Corações, Canápolis Ouro Preto e tantos outros municípios.

 

Para auxiliar os municípios na elaboração dos trabalhos, foram ministrados cursos ao longo dos anos em cidades diversas do Estado.

 

A - A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM MINAS GERAIS A PARTIR DE 2005

2005 – 362 projetos e relatórios

2006 – 663 projetos e relatórios

2007 – 623 projetos e relatórios

2008 – 614 projetos e relatórios

2009 – 644 projetos e relatórios

2010 – 646 projetos e relatórios

B - CURSOS MINISTRADOS PELO IEPHA/MG AO LONGO DOS ANOS 2005 -2010

 

Ano   Cursos      Municípios       Agentes Culturais

                                                 Participantes              

2005        10             59                  -

2006        18           165                614

2007        09             85                290

2008        10             87                495

2009        17           116                572                         

2010        15           111                990

______________________________

TOTAL:  79            623              2961

 

C - EVENTOS DIVERSOS: SEMINÁRIOS, CURSOS, OFICINAS, FÓRUNS

2006

Somando eventos, seminários, cursos, oficinas, fóruns (foram 29): 312 Municípios.

Agentes Culturais envolvidos: 1105 agentes culturais.

2007____________________________________________________________________

Total de Municípios participantes dos cursos, fóruns e seminários: 221 Municípios.

Total de agentes culturais envolvidos: 1096 Agentes Culturais.

____________________________________________________________________                                                   

2008

Total de Municípios participantes dos cursos, fóruns e seminários: 193 Municípios.

Total de agentes culturais envolvidos: 1879 Agentes Culturais.

 

2009

Total de Municípios participantes dos cursos, fóruns e seminários: 359 Municípios.

Total de agentes culturais envolvidos: 2079 Agentes Culturais.

__________________________________________________________________

2010

Total de Municípios participantes dos cursos, fóruns e seminários até outubro de 2010: 111 municípios.

Total de agentes culturais envolvidos: 1366 Agentes Culturais.

 

TOTAL DE PARTICIPANTES de 2006 a 2010: 7525 AGENTES CULTURAIS

NOTAS


[1] IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – Documento Básico, 03 de out. de 1983, pág. 2.
 
[2] ACERVO, Informativo bimestral editado pela Superintendência de Pesquisa, Tombamentos e Divulgação. Belo Horizonte:  IEPHA/MG julho de 1981, pág. 4.


[3] IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – Ação Comunitária, 1983.


[4] IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – Documento Básico, 03 de out. de 1983, pág. 1 a 10.


[5] IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – 16 de julho de 1983.


[6] IEPHA/MG. Projeto Educação, Memória E Patrimônio, 1994.


[7] IEPHA/MG. Relatório do Projeto “Educação, Memória e Patrimônio” dezembro/1994. p. 16 a 20.


[8] IEPHA/MG. Relatório do Projeto “Educação, Memória e Patrimônio” dezembro/1994. p. 23 e 24.


[9] IEPHA/MG. Relatório do Projeto “Educação, Memória e Patrimônio” dezembro/1994. p. 27.


[10] IEPHA/MG. Relatório do Projeto “Educação, Memória e Patrimônio”. Dezembro /1994. p. 26.


[11] IEPHA/MG. Relatório do Projeto “Educação, Memória e Patrimônio” . Dezembro/ 1994. p.27, 30.
 
[12] Hingel, Murílio de Avellar. Apresentação. Secretaria de Estado da Educação. Reflexões e Contribuições para a Educação Patrimonial. Grupo Gestor (Org.) – Belo Horizonte: SEE/MG, 2002. pág. 5 e 6.  

 

2. - O PAPEL DA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

 

 

 O patrimônio cultural pode ser entendido como um conjunto de coisas de seres humanos. Coisas de gente, criadas para facilitar a vivência em grupo e a sobrevivência nos espaços que lhes foram destinados. Pode ser entendido também, como produto de uma construção coletiva dinâmica e viva produzida ao longo do tempo em um espaço definido. Ou seja, vinculado à memória e à construção de uma identidade e por este motivo deve ser preservada. Essa preservação e conseqüente conservação, manutenção e continuidade depende do envolvimento de todas as pessoas individualmente e coletivamente.

 

Cada Ser Humano é o que deve ser. E pode ser mais. E o que é se relaciona com o que foi. Com os que foram. Com o que construíram os que foram...

O que é se relaciona com o passado. Com as coisas do passado. Com o que foi feito no passado e continua presente.

 

O Ser é fruto e construção de outros seres. Somatória, complemento, continuidade. Cada Ser Humano carrega em si o seu mundo e para onde for, onde estiver, sua família, sua rua, sua igreja, sua praça, seu bairro, sua crença, sua terra, lá estarão. Cada Ser é um representante vivo de sua cultura. Do seu Patrimônio. Cada Ser Humano é plural. O produto de uma cultura diversa e rica. De um modo de ser, fazer e viver. Cada Ser importa.

 

Ações educativas ou sensibilizadoras das comunidades detentoras de bens culturais ocorrem desde os primeiros tempos do IPHAN, órgão federal de proteção do patrimônio cultural, criado em 1936 em caráter provisório e consolidado a partir da Lei Federal n.º 378 de 13 de janeiro de 1937 e pelo Decreto Lei n.º 25 de 30 de novembro, também de 1937. No entanto, estas ações careciam de objetividade e planejamento que permitissem uma continuidade.

 

No Estado de Minas Gerais, após a criação do órgão Estadual de proteção do patrimônio cultural – o IEPHA/MG – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – (criado em setembro de 1971), a situação não foi tão diferente. No início dos anos 80 (1983) a instituição criou o programa PAC – Política de Ação com as Comunidades - cujo principal objetivo era o de romper com o paternalismo estatal. A política de atuação do PAC partia do pressuposto de que todo bem cultural é “uma referência histórica necessária à formulação e realização do projeto humano de existência” [1].

“A condição necessária, para que este modo de atuação funcione plenamente, é a de que as comunidades locais possam se assenhorar, não apenas de seus valores culturais, mas também, dos tributos que lhes escapam das mãos.

(...)

Deste modo, a criação e o desenvolvimento de entidades locais, encarregadas do patrimônio local e sustentados pelas próprias comunidades, aparece como variável estratégica, capaz de equacionar o problema da deterioração do acervo cultural de Minas.

Uma das metas, fundamentais da Política de Atuação com as comunidades do IEPHA/MG é, precisamente, a de fomentar a criação e o desenvolvimento daquelas entidades. Neste sentido, cumpre-lhe oferecer às comunidades locais, subsídios para que possam se organizar de modo adequado.”[2]

 

O PAC, antes mesmo da chegada do conceito ao Brasil, já era efetivamente um programa de Educação Patrimonial. Mais tarde, em 1994, o IEPHA/MG criou o projeto “Educação Memória e Patrimônio” que durou cerca de quatro meses em duas escolas estaduais – Escola Estadual Barão de Macaúbas em Belo Horizonte e Escola Estadual Zoroastro Vianna Passos em Sabará.

 

Recentemente, durante o ano de 2007, o IEPHA/MG desenvolveu dois programas pilotos nas cidades de Pitangui e Paracatu utilizando uma nova metodologia de trabalho voltada principalmente, para a capacitação e monitoramento de projetos criados pelos diversos grupos sociais envolvidos.

 

Paralelamente, foi executado a partir de 1995, o ICMS Patrimônio Cultural programa de descentralização da proteção do patrimônio cultural vinculado à lei estadual 13.803/00 atual lei 18030/09, denominada “Lei Robin Hood”, o qual repassa recursos do ICMS (Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços) para os municípios que investem na preservação do patrimônio cultural, pontuando, também, ações planejadas de Educação Patrimonial.

 

Por ser ainda uma ação nova, muitas dúvidas pairam sobre o tema Educação Patrimonial e principalmente quanto ao seu desenvolvimento.

 

Educar é alimentar e ser alimentado. É se dá ao outro e também receber. Educar é troca. É transbordar, mas também se preencher. Ou seja:

eu dou o que tenho e recebo o que você tem. A transformação é mutua. Eu serei outro. Você será outro. O que fizermos juntos será melhor e diferente.

 

Por isso entendemos a Educação Patrimonial como um trabalho permanente de envolvimento de todos os segmentos que compõem a comunidade, visando a preservação dos marcos e manifestações culturais, compartilhando responsabilidades e esclarecendo dúvidas, conceitos e, ao mesmo tempo, divulgando trabalhos técnicos pertinentes e seus resultados.

 

Ela visa, principalmente, fortalecer a autoestima das comunidades através do reconhecimento e valorização de sua cultura e seus produtos. A Educação Patrimonial é um trabalho de “auto-despertar” motivado, que tem como temática toda a produção cultural de uma comunidade ou grupo social. Esse processo educacional, formal e informal, utiliza situações e ações que provocam reações, interesse, questionamentos e reflexões sobre o significado e valor dos acervos culturais e sua manutenção e preservação.

 

A Educação Patrimonial deve nos motivar, enquanto indivíduos, a pensar, a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. Principalmente, ela deve trabalhar todos os sentidos humanos:

- Deve trabalhar o olhar para que possamos entender e compreender o que se vê, para compreender o gostar e o não gostar do que se vê.

- Deve trabalhar a audição para que se possa saber ouvir e refletir sobre o que se ouve.

- Deve educar o olfato para saber o mundo e seus cheiros e seus significados e para onde estes nos remetem.

- Deve educar a percepção tátil para sentir as coisas. Sua temperatura, textura, maleabilidade, função estética.

- Deve trabalhar os modos de se expressar e os de dizer para que sejamos capazes de exprimir os sentimentos, duvidas, anseios e idéias, com propriedade através da fala, da escrita e do próprio corpo.

 

A Educação Patrimonial visa a fazer com que o ser humano compreenda a si mesmo, suas angustias, dores, medos, anseios e entender o porquê das coisas: o porquê de estar aqui. Entender a sua vida, seu modo de vida, seu mundo particular, seu mundo coletivo e a ligação e relação de tudo isto.

Principalmente, a Educação Patrimonial deve ajudar na compreensão do papel do indivíduo neste universo social e cultural.

 

Assim, a Educação Patrimonial deve ser entendida como um conjunto organizado de procedimentos e ações que tem como principal objetivo a valorização dos indivíduos e das comunidades e toda a sua produção cultural. É um processo de auto-educação e sensibilização que visa a eliminar a miopia cultural, despertando sentimentos e conhecimentos adormecidos que fortalecerão o senso de pertencimento de compreensão de responsabilidade dos indivíduos enquanto elementos de um grupo, sociedade, comunidade e lugar, utilizando para esse fim o seu acervo cultural.

 

Os princípios norteadores das ações de Educação Patrimonial são a descoberta e a construção em conjunto, motivadas pela observação, apreensão, exploração e a apropriação criativa do conhecimento, na busca da compreensão da condição individual e coletiva e o aprimoramento da vida em sociedade. Ou seja:

 

  • Sensibilizar a sociedade para uma mudança de atitude: de espectadores da proteção do patrimônio para atores desse processo.
  • Através da educação, produzir a compreensão; através da compreensão, proporcionar a apreciação e através da apreciação a proteção.

 

 

Com a Educação Patrimonial pretendemos contribuir para a formação do indivíduo enquanto parte de uma coletividade. Ou seja, uma peça importante e participativa para o desenvolvimento sadio das comunidades.

 

Com a Educação Patrimonial pretendemos alcançar a preservação de nosso patrimônio cultural pela sociedade como um todo – poder público, iniciativa privada e comunidades. Assim poderemos aprender a conhecer as diversidades culturais; aprender a fazer, participar, vivenciar essas diversidades culturais; aprender a viver em sociedade e respeitar as diversidades culturais e aprender a ser, desenvolvendo a capacidade crítica, emocional e criativa.

 

No entanto, por mais lúdicas e espontâneas que sejam as atividades e ações de Educação Patrimonial, elas não podem dispensar o planejamento. Não podem ser aleatórias. Devem seguir um plano/projeto estruturado, com princípio meio e fim, com: apresentação, justificativa bem definida, definição do público–alvo, objetivos claros, metodologia detalhada em atividades e ações, cronograma, orçamento, com definição da equipe que vai trabalhar e dos produtos que se pretende alcançar.

 

Ao final do projeto, avaliações e relatórios devem ser produzidos para otimizar as ações futuras deste ou de outros projetos que, porventura, sejam elaborados. Desta forma, nossas atuações na Educação Patrimonial serão cada vez mais eficientes e alcançarão o objetivo principal que é o envolvimento das comunidades na preservação do patrimônio cultural e consequentemente na sua construção enquanto cidadãos.

 

Nunca é demais repetir que, o ser humano se faz com troca, transmissão, repetição, continuação, construção dinâmica, viva, sadia...

Um ser humano se faz com espaços físicos e outros seres humanos... Influenciado pela natureza: clima, fauna, flora...

Os Seres Humanos são muitos. Parte dos que foram. Parte dos vizinhos. Parte dos que chegam. Parte de si mesmo.

Um Ser Humano é ETERNO se respeita o seu Passado, seu Presente, sua Comunidade e a si mesmo.

                                   (Carlos Henrique Rangel).




[1]1 IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – Documento Básico, 03 de out. de 1983.[1]

[2] IEPHA/MG.   Política de Ação com as Comunidades – PAC – Documento Básico, 03 de out. de 1983.


3        - A PRESERVAÇÃO REVISTA

 

Para viver e sobreviver no mundo, os seres precisam se adaptar aos espaços/lugares do mundo.

 

Os animais se relacionam com os lugares biologicamente, se moldando lentamente ao clima e ambiente. Tornam-se perfeitamente aptos para viver nos espaços que escolheram como lar.

 

O lugar se torna seu habitat sua morada definitiva e única.

 

E esse ser não poderá viver em outro lugar a não ser que seja um lugar muito parecido com o seu lugar de origem.

 

Sua história está vinculada, moldada no espaço que o construiu e adaptou.

 

O ser humano, também é um ser adaptado biologicamente, mas não só.

 

Obrigado a viver em grupo para sobreviver o ser humano criou mecanismos de comunicação para poder transmitir conhecimentos, ideias e descobertas: gestos e sons que se somam e formam sílabas, palavras e significados.

 

Esses códigos dizem algo. Passam algo. Transmitem algo.

 

 Os homens estavam por natureza desprovidos de meios para viver isoladamente, (...) é a necessidade que os obriga a juntar-se uns aos outros, a inventar a vida social em conjunto”

Jâmblico, filósofo Sofista.

 

O ser humano se adapta ao lugar culturalmente.

 

Percebeu cedo que precisava do outro. Precisava compartilhar com o outro o seu conhecimento e suas experiências para continuar no mundo.

 

O lugar o molda, mas também é transformado por ele. O lugar é domesticado, trabalhado por ele.

 

Cedo o ser humano percebeu o seu mundo e descobriu que ao contrário dos animais, precisa se adaptar aos lugares transformando-os.

 

Não possui peles fortes para protegê-lo do calor ou do frio. Não possui garras para matar ou rasgar os alimentos.

 

Para sobreviver às constantes mudanças climáticas do meio ambiente o ser humano necessita criar peles artificiais tiradas dos outros animais. É necessário cria garras artificiais como pedras pontudas ou paus trabalhados para ferir e nocautear os animais/caças e os inimigos, os “outros”. E todos esses artifícios estarão sempre em constante evolução para uma melhor adaptação ao meio.

O ser humano produz cultura. O único ser a fazê-lo. E cultura é essa soma de modos de ser, fazer e se relacionar com os espaços/lugares, utilizando o que o meio tem a lhe oferecer para sobreviver. Se há pedras, fará abrigos de pedra. Se há apenas terra, a casa será de barro. Se há gelo, que seja de gelo o abrigo a protegê-lo.

 

Cultura

Conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo, meio pelo qual o homem se adapta às condições de existência, transformando a realidade.

Cultura é um processo em permanente evolução, diverso e rico.

É o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, uma comunidade, fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais.

 

Ao contrário dos animais. Que naturalmente se molda aos lugares, precisamos aprender. Não se nasce com cultura. É necessário aprender a cultura do grupo.

 

Os modos de ser de acreditar de se relacionar com o outro. Cultura se aprende.

 

Então cultura está relacionada com o passado. Com o que foi vivenciado no passado e que deve ser transmitido para que continue e ajude o grupo a se perpetuar no mundo.

Cultura está relacionada com lembrança e com a memória e define a identidade do grupo.

 

A Cultura está em gestos e ações dos Homens. É um fazer portador de sentidos.

E os produtos culturais são consequências deste fazer, deste agir.

 

A importância cultural é dada pelos atores deste fazer.

 

IDENTIDADE

Tudo aquilo que diferencia e que identifica

o homem, um grupo social, político, étnico, religioso, etc, em relação ao Outro.

São as ações do homem para viver em sociedade ao longo da história e do dia a dia.

 

 

Minha identidade é a soma do que lembro individualmente e em conjunto. Minha memória se faz com o meu passado e consequentemente molda a minha identidade.

 

Memória: Lembranças, reminiscências, vestígios.

Aquilo que serve de lembrança.

 

Todos nós temos lembranças.

Só lembramos do que passou.

 

O ser humano precisa aprender sempre para lembrar.

Deve ensinar e transmitir para que outros possam lembrar e futuramente transmitir.

 

Mas a nossa memória é frágil e mutável. Constantemente é construída no presente. Nem tudo lembramos e para isso é importante repetir e transmitir e também atribuir lembranças às coisas e lugares. Para isso é necessário qualificar as coisas e os lugares para que esses “falem” e sejam suportes da memória do indivíduo e do grupo.

 

Lembrar pode ser a diferença entre sobreviver ou perecer.
Para não esquecer eu guardo o que pode me fazer lembrar.

 

Posso escrever, posso documentar e posso incorporar valores e lembranças às coisas para que elas me façam lembrar.

 

O que sou está no passado, no presente e nos espaços que me rodeiam.

Sou influenciado pelos lugares e pelos outros seres humanos.

 

O que sou eu aprendi e construí com os meus e guardo em minha memória.

 

MEMÓRIA

“Mais que apenas via de acesso ao passado, a memória é uma estrada para a compreensão do Eu”

(Cunha, João Paulo. Editor de Cultura do Jornal

Estado de Minas)

 

Todo ser humano é em um lugar. E nesse lugar deixa sua marca e sua essência, moldada e influenciada pelo lugar.

 

O Ser humano está no lugar. O lugar faz o Ser. O Ser também faz o lugar.

 

Então, a permanência de um grupo depende da sua cultura, que depende do lugar. Depende da memória de grupo e dos suportes da memória: os lugares que falam.

 

Essa produção cultural de um grupo é uma herança compartilhada.

 

Podemos herdar os bens culturais, mas não herdamos a sua compreensão.

 

Para compreender é preciso aprender, conhecer, vivenciar, apreciar.

 

Aquilo que eu compreendo e conheço, eu respeito.

 

“A espécie humana é a única que precisa

Ser educada” (Kant)

 

 

“Depois do pão, é de educação que o povo

Precisa” (Danton)

 

Onde tem gente tem cultura transplantada, recriada, reconstruída, adaptada, inovada e novamente criada.

 

Onde tem cultura tem bens culturais: materiais e imateriais produzidos pelo Homem para viver e sobreviver no mundo que o cerca.

Todo lugar de Homem... De muitos Homens produz cultura.

 

Cada ser humano carrega em si o seu mundo e sua cultura e é direta e indiretamente

transmissor, reprodutor, inovador e criador de cultura.

 

“A história social e pessoal, pode qualificar as coisas, os objetos, os lugares da casa, os lugares de um bairro. Até mesmo a natureza vira memória.”

(GONÇALVES FILHO, José Moura. 1991)

 

O que o ser humano é está no passado, no presente e nos espaços que o rodeiam.

Somos influenciados pelos lugares e pelos outros seres humanos.

 

O que somos aprendemos e construímos com os outros e guardamos em nossa memória e em suportes.

 

É por isso que guardamos coisas. As coisas falam. Fazem com que nos lembremos do que aconteceu no passado e que precisamos para continuar.

 

Alguns “bens”, falam só para um indivíduo ou para a sua família.

Falam de coisas que vivenciou e de coisas e seres que quer lembrar.

 

Há outros bens que falam para o grupo/comunidade/nação e transmitem o conhecimento que necessitam para que possam sobreviver com dignidade e autoestima.

 

Esses são os “bens culturais”, produtos do processo cultural de um grupo e que são importantes não por serem históricos artísticos ou arquitetonicamente únicos, mas por que são essencialmente suportes da memória do ser humano.

 

O valor de um bem cultural está nessa capacidade de “falar” ao grupo tanto coletivamente como individualmente. Está impregnado de lembranças e dá sentido ao grupo e o diferencia de um outro.

 

Esse bem só terá sentido para um grupo se for um suporte vivo de lembranças, vivências e significados.

Esse bem precisa estar vivo no cotidiano do grupo para realmente falar a esse grupo.

 

“...o conceito de bem cultural extrapola a dimensão elitista, de "o belo e o velho". E entra numa faixa mais importante da compreensão como manifestação geral de uma cultura.

É o conjunto de bens culturais materiais e imateriais, de um povo.

Suas festas, modos de fazer, criar e viver.

Suas criações científicas, artísticas, tecnológicas e documentais.  

O gesto, o habito, a maneira de ser da nossa comunidade se constituem no nosso patrimônio cultural. (...)"

(Aloísio de Magalhães)

 

Preservar os bens culturais materiais e ou imateriais de um grupo é manter a identidade deste grupo garantindo a sua continuidade. Mas isso só será possível se esse grupo continuar a “ouvir as vozes” dos bens culturais.

 

Ninguém nasce sabendo cultura e sempre será necessário ensinar o respeito às coisas que falam para podermos ouvir. É preciso romper a miopia cultural e aprende a escutar o que os lugares e os suportes da memória têm a dizer.

 

Assim, só respeito o que conheço. Só preservo o que significa algo. Só protejo o que é caro à minha memória e sobrevivência.

                                                                           Carlos Henrique Rangel.

 

4         - O QUE É MAIS IMPORTANTE

O mais importante na Educação Patrimonial é o caminho para se chegar aos objetivos.

É o que se aprende no caminho.

Aprender a olhar é mais importante que o próprio olhar.

Aprender a fazer é mais importante do que o que vai ser feito.

Aprender a sentir dará sentido ao que foi sentido. Ao que vai ser sentido.

Porque mais que um projeto a ser executado é um mundo a ser desvendado.

-    Uma nova visão.

-    Uma nova percepção do seu lugar.

-   Uma nova maneira de se relacionar com as coisas de lembrar.

-   Entender diferente o que se achava entendido.

Educação Patrimonial é a busca do entendimento de se mesmo e do seu mundo.

Porque o que somos é parte do que vimos. Do que vemos, utilizamos e vivenciamos.

Seremos seres humanos melhores se nos compreendermos, tendo como base o passado e os vestígios deste passado. Não se pode caminhar para o futuro sem olhar para trás... Para o passado que nos consolidou como somos.

As coisas nos falam sempre.

E sempre de nós mesmos...                                                   

                                                                       (Carlos Henrique Rangel).

 

5        - PENSAR ALÉM

 

Entendemos que o Patrimônio Cultural está no ar que respiramos no dia a dia. Porque como seres humanos, somos constituídos de lembranças, memórias e coisas do passado que nos movem no presente e nos remetem para o futuro. Precisamos lembrar para continuarmos e aprendermos o que dizem as coisas do passado que continuam no presente. Aprender o porquê preservar essas coisas para que elas continuem a nos dizer o que somos.

 

Mas educação patrimonial não pode e não deve se restringir às escolas. Ela deve permear todos os nossos atos e atitudes e para isso precisamos usar todos os meios disponíveis e necessários: Mídia impressa e televisiva, vídeos, campanhas publicitárias, internet, etc. Tudo que possa ser usado para valorizar, difundir e divulgar o patrimônio cultural, contribuindo para elevar a autoestima de um grupo, comunidade, cidade ou nação.

 

Algumas pessoas ainda estão pensando em educação patrimonial apenas como algo dentro das escolas. Precisamos avançar, ir além da visão simplista das coisas. Os órgãos de preservação precisam amadurecer, pensar holisticamente as "coisas" que falam. Temos que ser criativos, sem medo de errar. Na verdade, em se tratando de educação patrimonial não se erra nunca, pois sempre ficará alguma coisa.

 

                                                                     (Carlos Henrique Rangel).

 


6        - O OUTRO


Vivendo em grupo por necessidade e sobrevivência, o ser humano cedo necessitou de símbolos e códigos para se fazer entender e compreender o seu mundo e os seus iguais. Essa necessidade do outro e a convivência com este, só foi possível através de um consenso coletivo para se entenderem em relação a tudo. Desde as pequenas coisas como a nominação de um objeto, às regras de convivência. 

Se esse consenso se deu através de lideres carismáticos ou autoritários ou mesmo de forma democrática, essa não é a questão. O fato é que o consenso existiu para que fosse possíveis a convivência em grupo e a adaptação a um espaço determinado. 

A identidade desse grupo será definida pelo consenso. Pela crença em valores assimilados por todos ou pelo menos a maioria dos membros do grupo. Os que não aceitam as regras do grupo são excluídos e se tornam os “outros”. 

Também esses, denominados “outros” são necessários para a formação da identidade do grupo e a consolidação de suas crenças, costumes e ideais. A identidade de um ser ou de um grupo é definida pela contraposição à identidade de outro. O outro indivíduo, grupo, comunidade ou nação será sempre a referência até mesmo para o fortalecimento da identidade.

Ao mesmo tempo, uma comunidade por mais homogênea que seja sempre terá grupos discordantes – “os outros” que também possuem identidade própria, cultura própria, mesmo que identificados de uma forma geral com o grupo dominante. 

Essa minoria dentro de uma comunidade maior ainda assim é parte desta e merece respeito quanto a sua memória, identidade e suas produções culturais. 

O outro que me acompanha e que produz cultura comigo, o que permite a diversidade cultural merece ser reconhecido, respeitado e valorizado como parte do grupo maior.

Numa sociedade consensual a diversidade deve ser o consenso para que a o grupo se renove culturalmente e sobreviva com a autoestima valorizada e fortalecida.

Esse outro também ele é parte do grupo e mesmo o outro culturalmente diferente, aquele de outro grupo/nação, também esse merece respeito. Ser diferente não é ser pior ou melhor. É apenas diferente. Outra forma de ser e de se relacionar com o mundo e seus lugares.
O outro é o meu céu e meu inferno. É o meu contraponto.
O outro sou eu diferente.

                                                         (Carlos Henrique Rangel).

 

7         DESCENTRALIZAÇÃO

 

É no âmbito municipal, nas localidades e comunidades é que se encontra a verdadeira proteção.

É junto aos vivenciadores e com os vivenciadores é que se protege o patrimônio cultural.

Se quisermos de fato efetivar e consolidar essa proteção temos que descentralizar nossas ações.

Temos que ir ao encontro destes detentores do patrimônio cultural.

Levar nossos cursos, nossas angústias, nossas dúvidas e certezas a onde estão as comunidades e os seus agentes culturais.

Devemos aprender a ouvir e principalmente a ensinar e compartilhar conhecimento com os agentes culturais, entendendo que não são inimigos e sim parceiros e construtores da proteção do patrimônio cultural.

Chega da preguiça centralizadora e limitada dos burocratas sem visão.

 

(Carlos Henrique Rangel).

 

 

8        - UMA VISÃO SOBRE A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

 

O público alvo, objeto de uma ação de Educação Patrimonial não é uma caixa vazia esperando para ser preenchida.

Ele detém conhecimentos sobre si mesmo e sobre o seu mundo e necessita apenas, ser estimulado a ouvir/sentir o que se encontra em seu interior, na essência de sua comunidade e nos espaços e coisas que a permeiam e rodeiam.

As ações de Educação Patrimonial precisam estimular esse conhecimento latente que se encontra no grupo a ser trabalhado, fazendo com que se lembre ou se redescubra nos objetos, lugares, ações, manifestações e recriações, fruto do seu grupo/comunidade/bairro/cidade/nação.

Esses estímulos sensoriais, visuais, auditivos, olfativos, gustativos e sentimentais devem se realizar por meio:

- De atividades e exercícios que provoquem e estimulem no indivíduo, o entendimento de seu ambiente familiar, seu cotidiano e a relação das coisas materiais e imateriais com essa vivência do dia a dia.

- De atividades e ações que possam despertar essa intimidade perdida ou adormecida, entre os bens culturais materiais e imateriais, o indivíduo e sua coletividade.

- De visitas orientadas a lugares e bens culturais de importância coletiva onde o grupo será provocado, por meio de exercícios e atividades, a descobrir/redescobrir, conhecer e se reconhecer no bem cultural.

Conceitos básicos devem ser trabalhados sim, mas não com o intuito de se transformarem em conhecimento de segunda mão, repetidos sem sentido. Esses conceitos devem ser o alicerce da redescoberta individual e coletiva do conhecimento latente adormecido no consciente e inconsciente desses homens e mulheres envolvidos no projeto de Educação Patrimonial.

Ao final do Projeto de Educação Patrimonial, mudanças ocorrerão tanto no grupo trabalhado como nos instrutores envolvidos e será diferente de indivíduo para indivíduo.

                                                                                                     

                                                                          (Carlos Henrique Rangel).

 

9 - CHOVENDO NO MOLHADO:

 

É necessário pensar a proteção do patrimônio cultural, não como um objetivo em si mesmo, mas como uma prioridade de sobrevivência e continuidade de um povo. 

 

E isso tem que ser decidido não por um grupo de "iluminados" detentores de diplomas e títulos. 

 

E sim pelo povo...Pelas várias comunidades produtoras de culturas e seus produtos: os bens culturais - materiais e imateriais.

 

O reconhecimento legal a um bem cultural não é garantia de sua continuidade. 

 

Somente a legitimação deste bem cultural pelo seu grupo criador/recriador é que realmente o fará continuar pela eternidade possível.

 

Somente o seu reconhecimento, utilização, recriação, lhe dará o devido respeito e legitimidade enquanto objeto de lembrar e depositário da identidade de uma comunidade... Caixa de sua memória e autoestima.

 

Por isso repito: Não adianta declarar um bem como patrimônio legal de um povo sem a devida concordância, participação e colaboração deste povo. 

 

Não adianta tombar/Registrar um bem cultural se não houver um comprometimento compartilhado do órgão tombador e das comunidades envolvidas, em seu cuidado diário, em sua conservação, utilização, recriação, promoção e divulgação...

 

Enfim: Educação Patrimonial constante, permanente desde o início do processo de proteção e para todo o sempre.


                                                                               (Carlos Henrique Rangel).

 

10 - ESSAS COISAS...

 

As coisas nos falam mesmo quando não temos a capacidade de ouvi-las por não entendermos sua linguagem. Mesmo quando falam de memórias de outros, conseguimos ouvir seus sussurros de um tempo que não é nosso e do qual não participamos ou vivenciamos. Sabemos que trata de memórias de homens mesmo que não sejam as nossas.

Um Rio pode ser uma metáfora do tempo, esse que passa sempre e mesmo sendo o Rio é sempre um novo rio.

 

As coisas ou o que resta das coisas berram memórias e mesmo o rio, reflete o tempo dos homens em suas margens, em seu espelho d’água, esse caminho que leva o Homem e que também é marcado pelo Homem.

 

São os homens que atribuem vozes às coisas. Que lhes impregnam de significados para fazer lembrar mesmo que seja inconsciente.

 

Coisas que falam duram mais...

Homens que ouvem as coisas estes também vivem mais e melhor.

 

(Carlos Henrique Rangel).

 

 

11 - LUGAR COMUM: 
CONHECIMENTO E VALOR


Ao homem cabe definir o que lhe é caro. O que lhe toca, fala e o impulsiona para o infinito futuro. 

É característica humana conhecer ou pensar conhecer para aceitar , acomodar, sentir-se bem e continuar.

Conhecer e atribuir valores são essenciais ao homem para uma vivência sadia com o seu meio e os seus. E isso pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente. Coletivamente ou individualmente. Sempre de forma diferente, por que diferentes são os homens e as relações destes com o seu meio/mundo. 

Uma relação que é real e ao mesmo tempo mística. Ao mesmo tempo fantasiosa e construída individualmente e coletivamente nos espaços domesticados.

Os valores são transportados, atribuídos aos lugares e as coisas, quase aleatoriamente ao longo dos anos e das vivências. Definem o caráter dos homens, influenciam o seu modo de ser, crer, e ver o mundo e vice-versa. Os lugares e as coisas influenciam e ao mesmo tempo são qualificados, valorados compreendidos, modificados material e imaterialmente pelos homens.

E a razão de tudo isso é viver bem.
Sentir-se bem e em segurança física e espiritual. “Eu me sinto bem no lugar que quero e me quer bem.”

O que conheço e me faz bem e me é caro, eu quero que dure, que permaneça. Por que a sua permanência está vinculada a minha sobrevivência, a minha continuidade.

Se o elo se rompe por incompetência do grupo humano em transmitir o conhecimento atribuído aos lugares e coisas, assistiremos a crise desta sociedade. Onde a ruptura acontece entre conhecimento e valor, a dispersão impera. Não há mais coesão social e um povo que não lembra está fadado ao desaparecimento. Um povo que não lembra não importa. 
E se não importa, já não é mais um povo.

Para não esquecer os valores e ou atribuir novos valores é preciso lembrar sempre: transmitir, repetir, reconhecer, conhecer, repassar...
Está nas mãos dos homens a sua continuidade e permanência. 
Sem passado e tradição não há continuidade e renovação sadia. Sem suportes da memória não há como lembrar e continuar com autoestima. Sem autoestima é o fim.
O que queremos?

 

(Carlos Henrique Rangel).

 

 

12 - GENTE E PATRIMÔNIO:

 

Quem quer trabalhar com Patrimônio Cultural  tem que gostar de gente.

Entender de gente.

E gente com muitas gentes.

Afinal, são as gentes - as pessoas - é que produzem, utilizam, vivenciam e qualificam as coisas - materiais e imateriais - transformando-as em bens culturais.

Quem trabalha com Patrimônio e quer ser um multiplicador, orientador, transmissor, tem que gostar de pessoas e, claro, precisa saber do que está falando.

Tem que ser humilde para entender que ninguém sabe tudo. Principalmente quando se trata de suportes da memória.

Se for humilde, saberá ouvir.

Saberá orientar, ensinar, compreender, motivar, incentivar e principalmente, aprender.

Quem trabalha com Patrimônio Cultural precisa gostar de gente.

De muita gente.

De gentes diferentes.

De culturas diversas.

De terras e vivências diversas.

 

                                                        (Carlos Henrique Rangel).

 

13 - O SENTIDO DAS COISAS:

Ainda sobre o sentido das coisas.

Somos acumuladores.

Isso nos resume em relação aos outros seres vivos que frequentam esse planeta.

A vida nos trouxe ao mundo sem nada e logo já somos de alguém e esse alguém também passa a ser nosso.

O tempo - essa caixa sem fundo - guarda nossas coisas invisíveis e enriquece as coisas visíveis que vamos acumulando, com memórias e sentimentos.

Acumulamos lembranças e coisas que lembram para no sentirmos parte do mundo.

Para nos sentirmos indivíduos entre indivíduos.

Por mais caras que sejam todas essas coisas que nos falam de nós e dos nossos, elas não partirão conosco.

Ficarão.

As vivências invisíveis nunca ficarão.

São pessoais demais.

E mesmo que a contemos aos nossos continuadores, nunca passaremos a eles o que realmente vivemos.

As coisas tangíveis ficarão

E poderão significar algo ou não para os que ficam.

Algumas ou muitas, serão descartadas.

Outras, espalhadas entre nossos descendentes.

Perdidas entre os entes queridos e fora do contexto.

Ganharão novos contextos, novos significados para nos significarem a esses continuadores que nos amavam.

Somos acumuladores porque queremos nos diferenciar.

Nos sentir importantes.

Únicos entre outros seres únicos.

Somos criaturas que se fazem em coisas tangíveis e intangíveis. Individuais e coletivas.

E tudo isso nos ajuda a viver entre outros seres que se lembram em coisas.

Na verdade, somos colecionadores de nós mesmos como indivíduos ou como grupo.

Isso nos diferencia em relação aos outros seres, para o bem e para o mal.

Homens é o que somos.

E basta.

Lembrar é ser... Somos porque lembramos.

                                                                                           (Carlos Henrique Rangel).

 

14 - O FUTURO DO PASSADO: 

É sempre bom lembrar que o futuro do passado se encontra no presente.

Nada realmente é só do passado e só terá futuro se significar para as gerações que vivem o presente acontecendo.

Por isso se faz importante pensar o patrimônio cultural com total anuência e envolvimento dos seus criadores e vivenciadores.

Se décadas atrás, as escolhas do que deveria ser preservado eram feitas quase exclusivamente por intelectuais e técnicos das instituições de preservação e poucos questionavam essas ações, hoje - pelo menos em teoria - já sabemos que essas escolhas precisam ser motivadas e feitas com e pelas comunidades.

Afinal, são elas - as comunidades - que estão junto a esses bens culturais e sabem das memórias que carregam e que acumulam no dia a dia.

São elas que atribuem valores a esses lugares, moradias, monumentos, objetos, fazeres e ações.

Não há futuro para as coisas que foram do passado se elas não agregarem as diversas memórias e vivências cotidianas da vida acontecendo.

Apesar de algumas redundâncias e repetições, há falas que precisam virar mantras para ver se mudamos a mentalidade das instituições do patrimônio cultural e tornemos em prática o respeito aos fazedores e vivenciadores dos bens culturais.

 

                                                                              (Carlos Henrique Rangel).

 

15 - PENSANDO O PATRIMÔNIO CULTURAL - MATERIAL, IMATERIAL E NATURAL: 

 

 Não se pode pensar o Patrimônio Cultural apenas como o construído ou mesmo com o acréscimo da natureza, sem se pensar nos seres humanos atuais e suas vivências cotidianas e produções imateriais. 

 

 O dia a dia que produz a cultura renovada de forma lenta e dinâmica que vai além das coisas do passado. 

 

 Afinal, as coisas do passado e as coisas naturais estão aqui e agora e são agregadoras de novos significados a todo instante. Sem o ser humano que lhe dê significado e utilidade contemplativa e prática, não se pode falar de Patrimônio Cultural. 

 

Patrimônio não se sustenta sem seus vivenciadores/criadores. 

 

 A verdade é que os processos de proteção devem ser mais amplos. 

 

 O ideal é que houvesse apenas um processo de Proteção que abarcasse o Patrimônio material, imaterial, espaços de convivência e patrimônio natural. 

 

Ou seja um processo de Tombamento/Registro com amplo envolvimento das comunidades vivenciadoras/criadoras e que pensasse a atuação manutenção, educação patrimonial e salvaguarda a curto, médio e longo prazo. 

 

 O Processo já deveria conter um Plano de salvaguarda, revitalização, recriação, restauro e educação com ampla participação da comunidade envolvida. 

 

                                                                                    (Carlos Henrique Rangel).

 

16 - O PASSADO PRESENTE:

Sim,  eu vivo o hoje como única realidade.

Mas que seria do hoje se não fosse o ontem impregnado nessa pele e nas coisas de lembrar?

Mesmo que estejam no hoje, foram do ontem e acumulam os invisíveis dramas das existências que se foram e também do que acontece no agora.

Me apego a essas coisas que lembram, carregadas de suores e lágrimas que repetem o meu nome.

Querendo ser mais, é no cotidiano das moradas, nas casas de orar e nos objetos açoitados pelo tempo que me construo no dia a dia.

Minha alma que se renova sempre é uma anciã mascate vendendo minha história que carrego no meu alforje.

Sim, eu vivo no presente como única realidade.

Mas que seria de mim sem esse amado fardo da memória?

Esse lugar comum a mim e aos meus que berram meu nome em todos os meus sentidos?

Sim, eu vivo o hoje carregado de passado, passado a limpo todos os dias.

(Carlos Henrique Rangel).