PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS
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sexta-feira, 5 de junho de 2026
CATAS ALTAS E SANTA BÁRBARA - MINAS GERAIS
Municípios de Santa Bárbara e Catas Altas
Autor: Carlos Henrique Rangel.
3.1– A ocupação do Território Mineiro
3.1.1 – Primeiras Expedições
Porque o sertão é bem o centro solar do mundo colonial. Gravitam-lhe em torno, escravizados à sua influência e vivendo de sua luz e de seu calor, todos os interesses e aspirações. (MACHADO, Alcântara, Vida e morte do bandeirante. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980. p.231).
A partir de meados do século XVI, após décadas de colonização litorânea os primeiros exploradores iniciaram suas jornadas pelos chamados sertões da colônia em busca, principalmente de riquezas.Partindo dos territórios baianos, esses aventureiros iniciaram o reconhecimento de boa parte da região norte de Minas Gerais.
(...) o sertão não é um lugar, mas uma condição atribuída a variados e diferentes lugares. Trata-se de um símbolo imposto – em certos contextos históricos – a determinadas condições locacionais, que acaba por atuar como um qualificativo local básico no processo de sua valoração. Enfim, o sertão não é uma materialidade da superfície terrestre, mas uma realidade simbólica: uma ideologia geográfica. Trata-se de um discurso valorativo referente ao espaço, que qualifica os lugares segundo a mentalidade reinante e os interesses vigentes neste processo. (MORAES, Antônio Carlos Robert. O sertão: um “outro” geográfico. Terra Brasilis: Revista de História do Pensamento Geográfico no Brasil. Rio de Janeiro: Anos III-IV, n. 4-5, 2002-2003, p.13).
Inicialmente a colonização do sertão mineiro se fez pelo avanço do gado subindo o Rio São Francisco e afluentes, deslocado os indígenas que fugiam da exploração dos colonos.
Dos seus focos, cujo principal é a Bahia, as fazendas, e com elas o povoamento, vão–se espraiando paulatinamente para o interior. A sua expansão é por contiguidade, e as populações fixadas no sertão conservam um contato intimo e geograficamente contínuo como seu centro irradiador. Da Bahia, tomemos este exemplo, o movimento da dispersão, começando já em fins do séc. XVI alcança o rio São Francisco em meados do seguinte; sobe-lhes as margens, tanto direita, como esquerda, povoando todo o curso médio do rio com tantas fazendas que provocam em 1711 admiração de Antonil.(PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia – São Paulo: Brasiliense, 1980, p.55,56).
Em paralelo ao avanço do gado, segmentos sociais menos favorecidos também adentraram nos sertões em buscavam terras para ocuparem. Logo em seguida, motivados pelas narrativas indígenas sobre a existência de um serra resplandecente, grupos organizados de aventureiros iniciaram o avanço por terras ainda desconhecidas pelos colonizadores.
Além de resplandecente era a serra de cor amarelada e despejava ao rio pedras dessa mesma cor, que conheciam pelo nome de “pedaços de ouro”. Tamanha era sua quantidade que os índios, quando iam à guerra, apanhavam os ditos pedaços para fazer gamelas, em que davam aos porcos de comer (...). (HOLANDA, 2000, p. 45).
Assim, várias expedições destacaram-se ao longo dos séculos XVI e XVII, seja devido às informações registradas sobre o território, seja por seus resultados positivos.
Em 1554, Francisco Bruza Espinosa aventurou-se pelo sertão acompanhado pelo Padre da Ordem Jesuíta, João de Aspilcueta Navarro, e doze homens brancos. Segundo Navarro -cronista da expedição - o grupo partiu de Porto Seguro dirigindo-se para o Rio Jequitinhonha e, deste rio, à Serra Geral, hoje denominada Grão Mogol, chegando finalmente ao Rio São Francisco, onde fundou uma aldeia perto do rio de nome Monail.
Mais tarde - em 1573 - a expedição de Sebastião Fernandes Tourinho, também tendo como ponto de partida o arraial de Porto Seguro, chegou ao Rio Doce, retornando dessa região com notícias sobre pedras esverdeadas. No ano seguinte, uma nova expedição formada por cento e cinquenta(150) portugueses e quatrocentos (400) índios, sob o comando de Antônio Dias Adorno, subiu o Rio Caravelas encontrando pedras verdes.
No século XVII, seguindo os passos de Fernandes Tourinho, Marcos de Azevedo partiu do Espírito Santo, chegando ao Rio Doce e à Barra do Suaçuí. Após atravessar uma lagoa, encontrou a região das esmeraldas, de onde extraiu as pedras que enviou à Coroa Portuguesa.
Ainda na primeira metade do seiscentos temos a expedição de João Pereira - 1643 - seguida pela de Álvaro Rodrigues em 1655. Lourenço Castanho Taques e sua Bandeira consolidaram em 1668, os caminhos para o sertão mineiro.
3.1.2 – A Expedição de Fernão Dias e a consolidação da conquista do território mineiro
No século XVI, durante os primeiros anos da ocupação do interior da Capitania de São Vicente, a população vivia de certa forma à margem da religião e ignorando ou desprezando o “Santo Oficio”. Paralelamente os sacerdotes enviados às comunidades viviam, em sua maioria, desrespeitando os preceitos da religião.
De homens dessa fragilidade não há esperar uma reação contra a cobiça e a luxúria, pecados específicos das terras novas. A emenda virá dos jesuítas. Porque só eles podem mostrar, como Anchieta, por baixo da roupeta feita de retalhos de velas náuticas, a carne devastada e emudecida pelas penitências. Fortes da autoridade que lhes outorga uma vida intemerata, não atendem nem à qualidade dos pecadores, nem à violência das medicinas. À porta da casa em que o sacerdote transviado se reúne com a amásia, Nóbrega se põe a bradar, escandalizando a amotinando a população inteira, que Jesus está sendo crucificado mais uma vez debaixo daquele teto. Outra vez, admoesta em público o ouvidor poderoso, responsável pelo descaminho da mulher de um desgraçado. (MACHADO, Alcântara, 1980, p.196).
A partir do século XVII intensificam-se as expedições de preação dos índios aldeados nas missões jesuíticas espanholas, seguidas em sua maioria, de matança de índios e padres missionários.
No sul, particularmente em São Paulo, os colonos desenvolveram formas específicas de apresamento, inicialmente privilegiando a composição de expedições de grande porte, com organização e disciplina militares. Foram estas as expedições que assolaram as missões jesuíticas do Guairá (atual estado do Paraná) e Tape (atual Rio Grande do Sul), transferindo dezenas de milhares de índios guarani para os sítios e fazendas dos paulistas (MONTEIRO, John Manuel. O Escravo Índio, esse Desconhecido. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil.3 ed. São Paulo: Global, 1998. p. 108 e 109).
Entretanto, mesmo havendo desrespeito aos preceitos cristãos e muitas vezes aos próprios jesuítas, a povoação de São Paulo não se diferenciava do restante da colônia, onde a religiosidade convivia com o desregramento moral. Existiam inúmeras confrarias religiosas, nas povoações paulistas destacando-se as de Nossa Senhora do Rosário, a da Santa Misericórdia, a de São Miguel, a de Santo Antônio e a do Santíssimo Sacramento.
As expedições ao sertão empreendidas pelos paulistas foram motivadas pela necessidade de mão-de-obra indígena para as lavouras dos arraiais, uma vez que não possuíam condições para importar escravos africanos. Essencialmente guerreiras em sua fase de preação, as bandeiras, no entanto possuíam um capelão, único membro sem experiência com armas.
Motivado pelas expedições pioneiras e seus relatos, o paulista Fernão Dias Paes organizou sua Bandeira com o objetivo de descobrir as riquezas do sertão do Sabarabuçu.
Eram essas bandeiras organizadas diferentemente das expedições de captura de índios. Enquanto estas compunham-se (...) de centenas e até milhares de brancos, mamelucos e índios, em verdadeiras operações de guerra, as bandeiras de pesquisa mineral compunham-se de contingentes mais reduzidos, assumiam um caráter naturalmente menos agressivo em relação às eventuais tribos nativas que encontravam pelo caminho e carregavam, além de suprimentos, armas e munições, também ferramentas de mineração – almocafres, com que remexiam os cursos de água, e bateias, gamelas usadas na lavagem das areias. (SANTOS, Márcio. As estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil. Belo Horizonte: Estrada Real, 2001, p.31).
Em trinta(30) de janeiro de 1672, o Governador Geral concedeu a Fernão Dias a patente de Governador das Esmeraldas, ao promover a sua expedição. Nesta época, o velho sertanista declarava na Câmara de São Paulo “... que ia aventurar pelas informações dos antigos.”
É difícil contestar, além disso, a existência de uma continuidade entre a versão quinhentista das montanhas que reluzem e a Sabaraboçu mítica de Fernão Dias. A localização da mesma Sabaraboçu, aproximadamente na latitude da capitania onde primeiro a procuraram, será expressamente admitida, aliás, quando se organizarem as buscas pelo caminho de São Paulo. E é bem sabido que a preferência dada a este último caminho, quando se cogitou na entrada do governador das esmeraldas, seguiu-se quase imediatamente ao malogro da expedição de Agostinho Barbalho Bezerra, cuja tentativa deveria ser retomada e rematada pelo primeiro. Ora, Barbalho, que também levava expressamente a missão de descobrir o Sabaraboçu, saíra do Espírito Santo, capitania vizinha à de Porto Seguro, afundando-se nos matos do Rio Doce. (HOLANDA, Sergio Buarque de. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. Brasiliense; São Paulo: Publifolha, 2000,p. 46).
Como já foi exposto, as bandeiras paulistas possuíam o costume de percorrer os sertões à procura de índios para escravizar e vender. Esses sertanistas conseguiam sobreviver nas matas alimentando-se de caças diversas, frutas nativas e “raízes de vários paus”.
(...) a eficácia do sertanismo paulista provinha da adaptabilidade ao meio natural e às agruras do sertão através da apropriação do modus operandiindígena, resultando em soluções socioculturais condizentes com a necessidade de sobrevivência. (ANDRADE, Francisco Eduardo de. A Invenção das Minas Gerais Empresas, descobrimentos e entradas nos sertões do ouro da América Portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora: Editora PUC Minas, 2008, p.158).
Consequentemente, quando se organizou a expedição de Fernão Dias, as terras a serem visitadas não eram de todo desconhecidas. Matias Cardoso de Almeida, sertanista paulista que, segundo Carvalho Franco, desde 1664 conhecia os caminhos que levavam ao norte foi nomeado em 13 de março de 1673,Capitão-mor da bandeira de Fernão Dias. A indicação feita pelo próprio Fernão Dias justificava-se por ele ser grande conhecedor daqueles sertões e de seus habitantes, com quem já havia se confrontado.
Não achando quem o quisesse acompanhar foi Mathias Cardoso uma das pessoas que mais prontamente se lhe ofereceram com 120 escravos seus, armas e munições à sua custa indo adiante a plantar matimentos naquele sertão onde teve grandes encontros digo vários encontros com os bárbaros, e uma batalha em que houve muitos feridos. (BIBLIOTECA NACIONAL. Documentos Históricos. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional – Typ. Arch. De Hist. Brasileira, 1935. V.30,p. 8).
Desde a década de 1660 era costume dos sertanistas paulistas plantarem roças e criações nos sertões para apoiarem e suprirem suas entradas.Com seus cento e vinte (120) índios, munições e armas, o Capitão-mor Matias Cardoso partiu de São Paulo antes do chefe – Fernão Dias - levando sementes e criações para o interior, onde iria montar as roças que supriam as necessidades da bandeira.Uma destas “roças” - Roças de Matias Cardoso- plantadas no Vale do Paraopeba foi oprovável embrião do arraial deSão Pedro do Paraopeba ,marco inicial da ocupação do futuro município de Belo Vale.
No dia vinte e um (21) de julho de 1674, Fernão Dias partiu para o sertão com quarenta (40) homens brancos, indo ao encontro da tropa de Matias Cardoso.Comprova essa data a carta encaminhada a Bernardo Vieira Ravasco em 20 de julho de 1674:
Senhor: - Nam fis aviso a Vossa Senhoria de nam poder partir o anno passado por falta de embarcaçção e também pela reprehençam que tive na carta ultima que me mandou até a ora de minha partida que amanhã a sábado vinte e hum de julho de seiscentos e setenta e quatro com quarenta homens brancos, afora eu, e meu filho, e súbditos meus brancos e tenho quatro tropas só de nossos meus com toda a carga de mais importância no serro aonde está o capitan Mathias Cardoso, esperando por my, o qual me mandou pedir gente escotyra com pólvora e chumbo, que me foi outra vez forçoso refazer para levar para my. (...) (TAUNAY, A. A Grande Vida de Fernão Dias Paes. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1955. Vol. 6 e 7. 308p. (Documentos Brasileiros, 83), 1955, p.212-214).
Essa“odisseia”em busca das minas do Sabarabuçu duroupouco mais de sete anos. Nesses anos de procura das pedras verdes a Bandeira plantou roças por onde passava. Segundo o historiador Carvalho Franco, em função destas roças surgiram os arraiais do Sumidouro, Roça Grande, Tacambira, Itamerendiba, Mato das Pedrarias, Esmeraldas e Serro Frio.
Mas a coleta, a caça e a pilhagem não eram as únicas formas que tinham de encontrar alimento. Ao longo dos caminhos percorridos, plantavam roças de subsistência, que iam colher ao voltar ou que deixariam para outros sertanistas usufruírem. A presença de tais roças é constante nos roteiros da penetração paulista. Quando Fernão dias Pais entrou pelo sertão atrás de esmeraldas, deixou o genro, Manoel de Borba Gato, no Rio das Velhas, “fazendo plantas de mantimentos para os achar prontos quando voltasse”.(...) Há a hipótese, muito convincente, de que a grande difusão do milho na área de influência paulista se deveu sobretudo à facilidade com que se podem transportar os grãos do cereal nas longas jornadas. As ramos da mandioca, ao contrário seriam muito mais incômodas para carregar, e a demora das viagens alterariam em muito sua capacidade germinativa.(HISTÓRIA da Vida Privada no Brasil: Cotidiano e vida privada na América portuguesa/organização Laura de Mello e Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 1997. – (História da vida privada no Brasil); Vol.1,P.47,48).
O trajeto percorrido pela bandeira de Fernão Dias ficou conhecido como Caminho Velho e anos mais tarde comporia a Estrada Real juntamente com o Caminho Novo.
Tendo partido do Território paulista, a expedição avançou pelo território mineiro cruzando a Serra da Mantiqueira próximo à nascente do Rio Grande pela garganta do Embaú – interiorizando no chamado caminho geral do sertão. Esse percurso propiciou a ocupação da região.
Para quem seguia em direção a Minas, partindo de São Paulo, era necessário atravessar a serra da Mantiqueira através de gargantas, que nada mais eram do que passagens que possibilitavam a travessia, muitas vezes seguindo cursos de rios em vales. (VILLANUEVA, Ana. Os Marcos Geográficos como referências na Ocupação do Território Paulista. O caso do morro do Lopo e os núcleos urbanos no Cainho de Atibaia no século XVII.p. 1,2. Disponível na Internet: http://www.ifch.unicamp.br/ciec/revista/artigos/dossie5.pdf . Acessado em 11 de julho de 2013.)
A expedição percorreu grande parte do território mineiro, culminando com o encontro de pedras verdes. Fernão Dias Paes faleceu às margens do Rio das Velhas, no lugar chamado Sumidouro, pouco depois de haver encontrado as pedras, as quais acreditou tratar-se de esmeraldas, o que, entretanto, não se confirmou.
(...) para cujo efeito fabricou, três feitorias naquele sertão mui abundantes de mantimentos, e as deixou conservadas por sua morte com assistência de índios próprios, e de um homem branco de confiança, a quem recomendou o cuidado das esmeraldas, com que facilitaram aqueles desertos para os exames da prata cujo descobrimento se procura. (...) (RAPM, Ano XX,1924,p.164,165).
No rastro de Fernão Dias, outras expedições se seguiram na exploração do novo território em busca das tão cobiçadas riquezas minerais.
A empresa de Fernão Dias era precursora dos fatos que dariam origem às Minas Gerais; ela surgia como uma ruptura real para a criação do novo, embora tal novidade viesse enraizada na tradição dos feitos descobridores lusos e luso-brasileiros dos séculos XVI e XVIII. (ANDRADE, Francisco Eduardo. A invenção das Minas Gerais: empresas, descobrimentos e entradas nos sertões do ouro (1680 – 1822). 2002. Tese (Doutorado em História). FFLCH/USP, São Paulo, 2002, p. 62).
O ouro foi encontrado em meados dos anos noventa do século XVII, na região da atual cidade de Ouro Preto, e essas descobertas tornaram-se frequentes até a metade do século seguinte, levando à ocupação do território mineiro.
José Rabelo Perdigão, secretário do governador Arthur de Sá que esteve nas minas entre 1701 e 1702, informou que o primeiro descobridor de ouro em Ouro Preto teria sido Manuel Garcia.
Segundo João Antônio Antonil, em sua obra datada de 1711, os primeiros descobrimentos de ouro ocorreram no Serro do Tripuí, no Ribeirão de Ouro Preto, feitos por um mulato:
(...) e o primeiro descobridor dizem que foi Mulato que tinha estado nas minas de Paranaguá e Curitiba. Este, indo ao Sertão com uns Paulistas a buscar índios e chegando ao cerro Tripuí, desceu abaixo com uma gamela para tirar água do ribeiro que hoje chamão do Ouro Preto, e metendo a gamela na ribanceira para tomar água, e roçando-a pela margem do rio, vio depois que nela havia granitos da cor do aço, sem saber o que eram, nem os companheiros, aos quais mostrou os ditos granitos, souberam conhecer e estimar o que se tinha achado tão facilmente e só cuidaram que aí haveria algum metal não bem formado, e por isso não conhecido.(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2011,Cap. II, p. 219).
No entanto, Bento Fernandes Furtado em 1750atribuiu a primazia dos descobrimentos do ouro a Antônio Dias de Oliveira, feito ocorrido por volta do ano de 1698, marcando o início da corrida para as Minas.
Outra expedição - a de Antônio Rodrigues Arzão - que buscava o Pico do Itacolomi chegou à Serra do Brigadeiro e ao Rio Casca, onde descobriu ouro e encontrou indígenas hostis, além da febre, que dizimou boa parte do seu efetivo. A referida expedição, ajudada pelos índios Puris, partiu para o Espírito Santo, retornando mais tarde a São Paulo.
Arzão confiou o segredo das minas descobertas a seu concunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira. Esse paulista e seu sócio - Miguel Garcia - partiram em abril de 1694, para Itaverava. Constatando a incapacidade do lugar para sustentar o grupo, Bueno de Siqueira dirigiu-se para a região das Congonhas, deixando Itaverava para seu sócio, Miguel Garcia.
Em 1695, o Coronel Salvador Fernandes Furtado de Mendonça chegou a Itaverava, associando-se a Miguel Garcia. Um ano depois, este sertanista descobriu o Ribeirão do Carmo, rico em ouro coberto por granito, chamado Ouro Preto.
(...) os prospectores paulistas fizeram trabalho pioneiro em Minas Gerais, primeiro encontram ouro aluvial no leito dos rios e riachos. (...) Quando os rios estavam na enchente, grossos demais para o trabalho, os faisqueiros voltavam sua atenção para as margens e sua vizinhança imediata – tabuleiros – onde era frequente encontrarem também ouro. Quando tais depósitos se exauriam, ou os recém-chegados encontravam-no já trabalhado pelos seus predecessores, os prospectores seguiam adiante, procurando ouro nas fendas e rachaduras das encostas vizinhas – grupiaras ou guapiaras. Todos os mais recuados trabalhos em ouro forma do tipo plácer, e só quando o ouro de aluvião se foi fazendo escasso foi que os mineradores cavaram túneis e poços nas encostas (...)
(BOXER, Charles Ralph. A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial, 2.ed. ver., São Paulo, Companhia Editora nacional, 1969. p. 60-1. In: CUNHA, Alexandre Mendes. Minas Gerais, da Capitania à província: Elites políticas e a a administração da fazenda em um espaço em transformação. Tese de Doutorado. Niterói UFF, 2007. p.66 Disponível na Internet:http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese2007_CUNHA_Alexandre_Mendes-S.pdf . Acessado em 14 de maio de 2013).
Por fim, em 1700, o sertanista Borba Gato após negociações pela sua reabilitação com o Governador do Rio de Janeiro - Artur de Sá e Meneses - revelou a localização do ouro de Sabarabuçu.Essa localização estava em segredo há vinte quatro anos em decorrência de seu exílio forçado após o incidente que resultou na morte de D. Rodrigo Castelo Branco, ainda nos tempos da Bandeira de Fernão Dias.
A economia colonial brasileira havia-se desenvolvido, até então, na zona litorânea. Os engenhos de açúcar ocupavam uma faixa de solos ricos, primitivamente cobertos de florestas, que abrangia apenas 30 a 60 km junto ao mar. As notícias que se propagavam sobre as descobertas nas gerais, os rendimentos consideráveis das pintas atraíram para aquela área elementos da população de todas as partes da Colônia. O entusiasmo contagiou todas as camadas sociais. Nas frotas comprimiam-se centenas de reinóis e até estrangeiros se infiltraram nas entradas de roldão dos primeiros anos. O fenômeno, comum historicamente quanto ao papel polarizador de população dos achados auríferos, deslocou rapidamente para o interior da colônia o centro de gravidade do povoamento, localizado até então no litoral leste.(CANABRAVA, Alice Piffer. João Antônio Andreoni e sua Obra, in ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil. Introdução e Vocabulário por A. P. Canabrava, 2a. ed., São Paulo: Ed. Nacional, s/d., (Roteiro do Brasil, 2,p. 83).
Os primeiros povoados em território mineiro surgiram nas regiões auríferas, precisamente a região central do atual Estado de Minas Gerais.
A produção aurífera está geograficamente condicionada à localização dos depósitos, e os núcleos urbanos, que surgiram em função dessa atividade, como por exemplo, Sabará, Caeté, Catas Altas, dentre outros, adquiriram geralmente, um caráter especializado do seu produto. A importância desses núcleos media-se pela quantidade de minério que podia ser extraído de suas proximidades. O ouro pagava as necessidades da vida cotidiana, as esplêndidas decorações das igrejas, a pompa das festas religiosas e civis enfim, era a atividade que dava sustentáculo às demais e possibilitava a manutenção do sistema colonial. (Negrito nosso) (FUNDAÇÃO João Pinheiro. Assessoria Técnica da Presidência. Circuito de Santa Bárbara; Roteiro Turístico.Belo Horizonte, 1982, p.16).
Paralelas à atividade mineradora, outras atividades econômicas aconteceramao longo dos caminhos que levavam às Minas, principalmente aquelas destinadas ao abastecimento de gêneros alimentícios favorecendo o surgimento de povoados e vilas . Em 1709, a Coroa portuguesa criou a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro subdividindo-a em comarcas com vilas e freguesias e assim podendo exercer maior controle sobre as riquezas da terra.Emseis (06) de abril de 1714, ocorreu uma divisão das comarcas mineiras:
Em 6 de abril de 1714, se fez a divisão das comarcas com assistência do S. M. Engenheiro Pedro Gomes Chaves e do Cap. Mor Pedro Frazão de Brito, e se assentou que a Comarca de Vila Rica (atual Ouro Preto) se dividisse dali por diante da de Vila Real (Sabará) indo pela Estrada do Mato Dentro, pelo ribeiro que desce da Ponta do Morro entre o sítio do Cap. Antônio Ferreira pinto e do Cap. Antônio Correia Sardinha e faz barra no Ribeirão de São Francisco, ficando a igreja das Catas-Altas para a Vila do Carmo (Mariana). E pela parte da Itabira, se fará divisão no mais alto morro dela, e tudo que pertence às águas vertentes para a parte do sul tocará à dita Comarca de Vila Rica; e para a parte do norte, tocará à Comarca de Vila Real. (negrito nosso).
(MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais,1979, vol.01, p.67).
Mais tarde – em dois (02) de dezembro de 1720 – o território mineiro foi elevado àcapitania de Minas separado de São Paulo, composta pelas comarcas de Rio das Mortes, Serro Frio,a Comarca do Rio das Velhas- a qual pertencia os arraiais de Santa Bárbara, Termo de Vila de Caeté - e a Comarca de Ouro Preto a qual ficou vinculado o arraial de Catas Altas – Termo de Mariana.
A partir de 1720 restavam poucos descobertos a fazer nos rios. Os mineiros, sem necessitar de novas concessões, subiram pelas encostas dos vales, junto às suas datas, até atingir o alto dos morros. Os trabalhos vultosos que o ouro de montanha exigia revelavam-se incompatíveis com a atividade errante dos primeiros tempos. Os homens passaram a radicar-se a terra. Organizava-se a sociedade, a justiça civil começava a firmar-se. Desde 1720, grande parte da população das Minas já não vivia nômade. A concentração e a estabilidade dos trabalhos levaram os senhores a construir suas casas próximo às minerações e constituíram-se as primeiras famílias regulares.
Junto às primeiras lavras, com o tempo, desapareceram as primitivas "casas de sopapo". Em seu lugar os mineradores levantaram seus casarões. Paralelamente, estruturavam-se os povoados como centro de gravidade das zonas mais ricas, neles os tropeiros podiam mais facilmente estabelecer-se como comerciantes; tais lugarejos aparecem como retaguarda imediata do trabalho mineratório. O local da primitiva Capela – situada em cima do morro, bem à vista das várias minerações – já não servia como núcleo para as vilas em desenvolvimento. O casario desceu para o vale a procura de local mais apropriado ao seu crescimento. (COSTA, Iraci Del Nero. As populações das Minas Gerais no século XVIII um Estudo de demografia histórica. Revista Crítica Histórica, Ano II, n.º 4, dez/2011. Disponível na Internet: http://www.revista.ufal.br/criticahistorica/attachments/article/122/As%20popula%C3%A7%C3%B5es%20das%20Minas%20Gerais%20no%20s%C3%A9culo%20XVIII.pdf. Acessado em 15 de janeiro de 2014).
3.2 – Os municípios de Santa Bárbara e Catas Altas
Os municípios de Santa Bárbara e Catas Altas estão localizados na microrregião de Itabira, Mesorregião Metropolitana de Belo Horizonte. Santa Bárbara dista noventa e oito (98) quilômetros de Belo Horizonte pelas BRs 381/262 e pela MG 436. Possui vinte e sete mil oitocentos e cinquenta (27 850) habitantes distribuídos em área de 684,210 km².
O município de Catas Altas,que pertenceu a Santa Bárbara até o ano de 1995, situa-se na base da Serra do Caraça, borda leste do Quadrilátero Ferrífero, distando cento e vinte (120) quilômetros da capital mineira. Possuiárea de 240,223 km² euma população estimada em cinco mil quinhentos e doze (5.512) habitantes.
Em Catas Altas, o conjunto das rochas do Quadrilátero Ferrífero está disposto longitudinalmente na direção geral N-S. Os processos tectônicos que resultaram em dobramento e falhamento dessas rochas, localmente determinaram a feição da serra do Caraça. Nesta área, a amplitude altimétrica varia dos 800 aos 2.070 metros.
A sucessão dos eventos tectônicos sobre as diversidades litológicas dessas rochas e as condições climáticas ao longo dos tempos, conferiram ao município dois ambientes geomorfológicos distintos, que estão intrinsecamente relacionados ao relevo, à drenagem, à cobertura vegetal e ao uso do solo.(CAMPOS, Lélia Jeber. Coord. IGA – Instituto de Geociências Aplicadas. Monografia de Catas Altas/MG. Belo Horizonte, julho de 2001, p. 7,8).
Segundo lenda narrada Pelo historiador Salomão de Vasconcelos, as lavras da Serra do Caraça foram descobertas em 1695 por dois presumíveis paulistas de nomes Simão e Souza que, acompanhados de seis índios faiscaram a região dando nome de “catas-altas” de onde retiraram nove (09) arrobas de ouro. Comprovadamente a ocupação da região, ocorreu nos primeiros anos do século XVIII. Segundo o historiador Diogo de Vasconcelos, o sertanista paulista, Antônio Silva Bueno foi o pioneiro nas prospecções mineradoras na região, encontrando ouro às margens do Ribeirão de Santa Bárbara –na base da Serra do Caraça - surgindo então, o arraial de Santo Antônio do Ribeirão de Santa Bárbara por volta de 04 de dezembro de 1704, dia dedicado à Santa Bárbara. Em poucos anos surgiram as igrejas de Santo Antônio iniciada em 1713, das Mercês, do Rosário e do Bonfim. Em 16 de fevereiro de 1724 a prosperidade da localidade motivou a elevação à freguesiasubordinada a Caeté - Comarca do Rio das Velhas - tendo como seu primeiro vigário colado, o Padre Manoel de Souza Tavares.
Paralelamente, no início do setecentos– 1702/1703 - o sertanista português Domingos Borges e seus companheiros Antônio e Francisco Bueno descobriram na região oriental da Serra do Caraça as minas que denominaram “Catas Altas,” embrião do povoado de mesmo nome – Catas Altas do Mato Dentro – cuja capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição de Catas Altas ocupou ponto central da localidade.Segundo o Cônego Raimundo Trindade essa capela já possuía, em 1710, um vigário: o padre André do Couto Leal. A Igreja de Catas Altas vinculou-se a Vila do Carmo – Mariana – em seis (06) de abril de 1714, quando se deu a divisão das comarcas de Vila Rica (Ouro Preto) e Vila Real – Sabará. O povoado foi elevado à freguesia em dezesseis (16) de fevereiro de 1718 e a paróquia colativa no mesmo ano do povoado de Santa Bárbara - 1724 - tendo como primeiro vigário colado o padre Domingos Luís da Silva.
Freguesia de natureza colativa pelo alvará de 16 de fevereiro de 1724, sendo seu primeiro vigário colado o Padre Domingos Luís da Silva (Anais da Biblioteca nacional, vol. XXXIX). Outros colados: Antonio Batista, apresentado por C. R. de 18 de fevereiro de 1751, colado a 29 de agosto do mesmo ano; João Oliveira Magalhães, apresentado por C. R. de 15 de maio de 1763, colado no mesmo ano a 13 de outubro. (TRINDADE, Cônego Raimundo. Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana. Rio de janeiro, SPHAN, 1945, n.º 13, p. 9,92).
Em três (03) de setembro de 1745, uma provisão criou um tabelião no arraial de Catas Altas.
Nos primeiros anos da exploração aurífera pouco se investiu na agricultura, mas gradualmente essa atividade surgiu em fazendas que possuíam engenhos de açúcar e ou criação de gado em paralelo com a exploração do ouro. Isso se deu principalmente pela escassez de alimentos que assolou as minas nos primeiros anos e devido à alta dos preços destes. Na região de Santa Bárbara a atividade agrícola será de pouca relevância até meados dos oitocentos.
Os primeiros a estabelecer plantações em torno das lavras foram os ricos senhores de muitos escravos que, forçados pela carência dos gêneros ou pelos altos preços, desviaram certo número de braços da indústria extrativa pra as roças. Produziam, assim, para a sua própria subsistência e para o sustento de seus familiares e escravaria. (ZEMELLA, Mafalda P. O abastecimento da Capitania de Minas Gerais no século XVIII. São Paulo, USP, 1951, p.234).
Em função da riqueza aurífera, as vilas da região de Santa Bárbara desenvolveram expressiva arquitetura colonial incentivada pelas irmandades religiosas que patrocinavam artesãos, arquitetos e pintores que trabalhavam na construção das igrejas e capelas. Destacam-se deste período a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré de Santa Rita Durão, a Igreja Matriz de Santo Antônio em Santa Bárbara, a Matriz de Santo Amaro em Brumal e a Matriz de Nossa Conceição de Catas Altas.
O período de prosperidade da região durou poucas décadas, evidenciando-se a decadência já em meados do século XVIII.Nesta época - 1750 - a população da freguesia de Catas Altas era de três mil oitocentos e trinta e oito (3.838) habitantes distribuídos em quatrocentos e cinquenta (450) domicílios.
No período pós-independência do país, as vilas e cidades da região se conformavam com a diminuição do ouro, diversificando a economia. A produção agropecuária começou a se destacar principalmente no plantio de milho, mandioca e na criação de gado, porcos e carneiros. Surgiram engenhos de aguardente e rapadura; fundições de ferro e estabelecimentos de produção de tecidos.
Nos primeiros anos do século XIX tornou-se fisicamente visível a decadência das povoações de Santa Bárbara e Catas Altas, comprovada pela descrição de vários viajantes. Em 1800, o Dr. José Vieira Couto assim descreveu o arraial de Catas Altas do Mato Dentro:
(...) é um arraial tão grande como o de Santa Bárbara, porém, muito mais decadente(...). A povoação fica na maior parte ao comprido, e se alonga pela estrada, vício geral de quase todos os arraiais de Minas que foram todos formados sem gôsto, e como para pouco tempo, à beira dos rios que davam ouro ou pela estrada, ao comprido, à maneira de feira. (BARBOSA, 1971, p.120,121).
Alguns anos depois -1817- o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire deixou suas impressões sobre a região:
Catas Altas de Mato Dentro é sede de uma paróquia considerável. Os habitantes atuais dessa povoação, como os de Antônio Pereira, não se entregam à agricultura; e quando um trabalho de algumas horas lhes rendeu três ou quatro vinténs vão descansar. (...).
Catas Altas, Inficionado e grande número de outras povoações dos distritos auríferos da Província de Minas, foram edificadas com muito esmero do que a maioria das que se vêem em França, e mesmo na Alemanha; foram outrora ricas e prósperas, mas atualmente não apresentam, como toda a zona circunjacente, senão o espetáculo do abandono e da decadência. (...).
Após caminharmos cerca de cinco léguas por uma região inculta e deserta, chegamos à povoação de Santa Bárbara, situada sobre o córrego do mesmo nome. Essa povoação depende da justiça de Caeté e da comarca do Rio das Velhas, e é a sede de uma paróquia que compreende seis sucursais e cerca de 12.000 habitantes. É fácil perceber que Santa Bárbara teve outrora grande importância; mas esse vilarejo está atualmente de tal forma abandonado, que um proprietário que aí possui várias casas garantiu-me que ninguém queria habitá-las, mesmo de graça. (Negrito nosso)(SAINT-HILARE, Auguste de. Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. D universidade de São Paulo, 1975, p.89).
As observações de Saint-Hilaire sobre Santa Bárbara, segundo a pesquisadora Martha Rebelatto, se devia a sua característica urbana:
Muitas famílias que possuíam moradia em fazendas afastadas eram também proprietárias de residências em Santa Bárbara. Com as dificuldades enfrentadas com a diminuição do ouro de fácil extração, é bem possível que essas pessoas tenham abandonado, mesmo que temporariamente, suas casas, no povoado de Santa Bárbara, com o intuito de economizar nos gastos com a manutenção.Desse modo, é compreensível a observação de Saint-Hilaire de que Santa Bárbara passava por certo abandono populacional, pois o proprietário que tivesse sua renda vinculada ao campo facilmente optaria por investir nele e não na cidade, onde, provavelmente, não tinha nenhum investimento que lhe gerasse renda. (REBELATTO, 2012, p.21).
Saint-Hilaire destacava a mineração como a principal atividade do município de Catas Altas e também responsável por problemas ambientais já detectados naqueles anos iniciais do século XIX:
Os mineradores, deslumbrados acreditam que essas miríficas jazidas eram inesgotáveis; despendiam imprudentemente todo o ouro que extraiam e rivalizavam em luxo e prodigalidade (...) e revolvendo extensões de terra, despojando-as do seu húmos pela operação das lavagens, esterilizavam-nas para sempre (...). Não longe do Inficionado encontra-se o povoado de Morro da Água Quente, cujo nome é dado a fontes termais que existiam outrora em suas proximidades. Foram destruídas pelas escavações aí feitas, na esperança de encontrar ouro em maior abundância que alhures (...). Chegando a Catas Altas, o que chamava a nossa atenção eram os morros áridos, sulcados em todos os sentidos pela mão dos mineradores (...). (SAINT-HILARE, Auguste de. Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. D universidade de São Paulo, 1975, p. 88-89).
O viajante inglês, John Mawe que visitou o arraial de Catas Altas um ano depois de Saint-Hilaire – 1818 - assim o descreve:
Catas Altas conta pelo menos dois mil habitantes e está situada em lugar muito povoado. Seus edifícios públicos são bem construídos; as habitações particulares têm bom aspecto, mas apresentam todos os sinais de decadência.(MAWE, John. Viagem ao Interior do Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1978).
Johann Emanuel Pohl, viajante que esteve na região à época,apresenta o mesmo quadro de decadência que ainda deixava vislumbrar um passado de civilidade e fartura das urbes de Santa Bárbara e Catas Altas:
Sobre Santa Bárbara:
...assobradados e muito de tamanho considerável e construídos com bom gosto, são enfileirados um junto do outro, em geral, porém maltratados e decadentes. (...) antigamente, quando a extração era ainda considerável, este arraial florescia. Hoje a exploração do ouro é feita debilmente e os moradores vivem mais da criação de gado e da cultura dos frutos do campo. (POHL, Johann Emanuel. Viagem no Interior do Brasil. Belo Horizonte: E. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1951, p. 381).
Sobre Catas Altas:
O arraial de Catas Altas de Mato Dentro recebeu esse nome das profundas catas feitas na serra, as quais são o único vestígio da antiga extração de ouro que, segundo se diz, produzia abundantemente. Atualmente, só são exploradas as lavras do Capitão-mor Inocêncio, de produção apenas regular. O arraial fica numa encosta da Serra de Maquiné, em terreno muito acidentado, e é um dos maiores arraiais da província. As casas, enfileiradas em duas ruas, uma na direção sul-norte e a outra menor, de oeste para leste, são na maioria térreas e possuem vendas. Devem elevar-se a umas 200. As igrejas, em número de três, estão em decadência, como a maior parte dos edifícios do arraial, desde que diminuiu a extração do ouro. A mais bela é a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, que se acha numa praça aberta, ornada com duas torres. Vêm-se por todo lado, neste arraial, vestígio da riqueza e abastança de outrora. Atualmente, o meio de vida dos moradores reside geralmente mais no comércio, na lavoura e na criação de gado do que na busca de ouro, que há muitos anos se encontra bastante diminuída. (POHL, Johann Emanuel. Viagem no Interior do Brasil. Belo Horizonte: E. Itatiaia, 1976, p. 381, 382).
Consolidada a decadência aurífera da região foi necessário buscar novas alternativas econômicas.A agricultura de subsistência que se desenvolveu logo em seguida ocorreu em sítios, fazendas e roças. Entretanto, a mineração não estava esquecida. Em 1824, instalou-se na região a empresa inglesa “Brazilian Mining Association” , iniciando a mineração aurífera subterrânea. As companhias inglesas que trabalharam em Minas Gerais, exploraram ouro no subsolo durante todo século XIX, introduzindo as novidades tecnológicas e a moderna organização do trabalho empreendida nas companhias mineradoras da Inglaterra.
No início do século XIX, a evolução populacional de Catas Altas, embora apresentasse oscilações, não sugeria uma tendência à decadência ou à estagnação econômica (...). A maioria dos habitantes residia na área rural, sobrevivendo graças à produção de bens agrícolas e da pecuária voltada ao abastecimento do mercado regional ou intra-regional. Os homens de Catas Altas se dedicavam à lide agrícola, enquanto as mulheres desenvolveram um artesanato voltado para a produção de tecidos grosseiros. Os cativos também compunham um segmento importante da sociedade de Catas Altas: em algumas épocas chegaram a representar 41,5% da população total e pertenciam em sua maior parte aos pequenos proprietários, senhores de até cinco escravos. (VENANCIO, Renato Pinto. Os expostos de Catas Altas: estratégias de sobrevivência em uma comunidade camponesa. Minas Gerais: 1775-1875. História e Cidadania. Anais do XIX Simpósio Nacional de História – ANPUH. Belo Horizonte MG, junho 1998, vol. 2, p.462).
A população remanescente passou a se dedicar à agricultura e à criação de gado,beneficiando-se da posição estratégica como caminho para a região nordeste da província de Minas Gerais. O Bispo Dom Frei José da Santíssima Trindade em visita a Catas Altas em 11 de julho de 1821, deixou as seguintes impressões;
O arraial não é dos mais povoados, porém corresponde à população da Freguesia. A igreja matriz está colocada em bom lugar e com boa perspectiva. (...).
No Arraial desta matriz tem as capelas de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e de Santa Quitéria, pobremente ornadas, mas sem indecência; e a ermida de São Francisco, chamada da Presídia da Arquiconfraria, muito pobre e sem ornato. Em distância de meia légua, acha-se a capela do Morro D’ Água Quente, dedicada ao Senhor Bom Jesus; e a outra parte, a do Brumadinho, e ambas com decência. (...).
A distância de légua e meia da matriz, tem o hospício da Senhora Mãe dos Homens, na sua capela, na Serra do Caraça, onde se acham, hoje os padres missionários de São Vicente de Paulo, cuja capela é muito devota e não menos paramentada, e o hospício sendo pequeno, hoje tem-se aumentado. (TRINDADE, José da Santíssima, Dom Frei. Visitas Pastorais de Dom Frei José da Santíssima Trindade (1821-1825). Belo Horizonte: Centro de EstudosHistóricos e Culturais. Fundação João Pinheiro; Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, 1998, p. 85).
Em 1823, Santa Bárbara possuía um mil oitocentos e trinta (1.830) habitantes ocupando trezentos e trinta (330) “fogos” •. Catas Altas, em 1832 possuía criatórios de gado vacum, cavalar e muar. O café era seu principal produto agrícola e duas fábricas de “minerais” – Bananal e Pitangui – empregavam o serviço de oitenta escravos e cinco homens livres.
A agropecuária tornou-se o pilar econômico de Santa Bárbara justificando a sua elevação à vila pela Lei Provincial n.º 134, de dezesseis (16) de março de 1839, desmembrada de Caeté. A instalação ocorreu no ano seguinte, em vinte e oito (28) de janeiro de 1840. Dezoito anos depois, a Lei Provincial n.º 881, de seis (06) de junho de 1858, elevou a vila à Cidade de Santa Bárbara do Mato Dentro. Quanto a Catas Altas do Mato Dentro, em 1823, possuía duzentos e cinquenta e três (253) fogos e uma população de mil quatrocentos e sessenta e quatro (1.464) habitantes. Pouco mais de duas décadas depois – 1845 - a população chega a três mil (3.000) habitantes.
Durante a primeira metade do oitocentos, eram poucas as atividades industriais na região de Santa Bárbara, destacando-se as manufaturas domésticas e de tecidos grosseiros; a indústria de beneficiamento de produtos agropecuários e de açúcar e a fabricação de cerâmicas e materiais de ferro. Essas fábricas de tecido e as siderúrgicas de Santa Luzia, Santa Bárbara, Caeté e Itabira eram famosas pela qualidade de seus produtos e muitas delas resistiram até a metade do século XX. Entre os anos de 1854 e 1855, Santa Bárbara possuía dezesseis (16) lojas ou vendas; uma (01) botica; duas (02) duas tabernas ou venda de molhados e seis (06) vendas de molhados. Nesse mesmo período, Catas Altas possuía: dezenove (19) lojas ou vendas; uma (01) botica; duas (02) tabernas ou venda de molhados e sete (07) lojas ou venda de molhados.
No ano de 1861, a mineração obteve novo impulso com a instalação da empresa inglesa Santa Bárbara Minning Company na atual região de Florália e Bateias – Município de Santa Bárbara. Os europeus adquiriram a fazenda “Mina de Ouro de Pari” ou “Veio de Pari” no distrito de Piracicaba reativando a mineração com novas bases. Infelizmente a empreitada não vigou. O viajante inglês Richard Burton a encontrou em franca decadência seis anos depois. Também esse viajante detectou os sinais de pobreza ao descrever o arraial de Catas Altas em 1867:
Visitamos facilmente a cidade, que data de 1724; depois que as minas acabaram, tornou-se muito pobre, e seus habitantes ganham a vida plantando milho e criando gado. (...) A única rua, além da matriz de Nossa Sra. Da Conceição, tem três capelas, Rosário, Sta. Quitéria e Bonfim. A colunaria matriz, que dá frente para a praça em subida, bem cuidada, é abundantemente pintada; mesmo a balaustrada em torno da torre é uma ilusão destinada a não iludir. O interior é extravagante e curiosamente ornamentado, com velhas colunas retorcidas e, havendo novena em perspectiva, com papel picado e colorido estendendo-se do teto ao soalho. (BURTON, 1976, p. 265).
Em 12 de novembro de 1878, o município de Santa Bárbara foi elevado à sede de comarca pela lei n.º 2.500 contando então - toda a comarca- com cerca de quarenta e sete mil e duzentos (47.200) habitantes. A lavoura de subsistência ocorria então, em pequenas e médias propriedades. No entanto, na região da Serra do Caraça o ouro ainda era explorado por algumas lavras como a de Pitangui, do Padre Vieira e a lavra de Boa Vista, de Francisco Vieira.
O município de Santa Bárbara entrou o século XX com um relativo processo de desenvolvimento devido à instalação da fábrica de tecidos São Domingos, da produção de farinha de mandioca, de alguma produção de vinho no então distrito de Catas Altas e da indústria de laticínios “Boa Esperança” instalada em Cocais. A agricultura se destacava na produção de arroz, feijão, milho, chá e cana de açúcar, atendendo o mercado da região.
As bôas condições climatéricas e a qualidade do solo do distr. deCattas Altas do Mato Dentro ahi fizeram prosperar muito a viticultura, devido aos exfoços do Vigario Monselhor Manoel Mendes Pereira de Vasconcellos, que foi o primeiro a iniciar em sua Quinta o platio de um vinhêdo, logo depois imitado por dous outros amantes da indústria vinícola, os srs. Fernando Mendes Campello e Domingos Vieira da Silva, cujos nomes se acham ligados á historia da vitucultura no districto. É afamada a farinha de mandioca de Cattas Altas (tão bôa como a celebre farinha de Suruhy). (SENNA, Nelson de. Annuário de Minas Geraes. Bello Horizonte, Imprensa Official do Estado de Minas Geraes, 1909, ano III, p.928,929).
Essa economia regional que se consolidava foi fortalecida no início da década seguinte com a instalação da rede ferroviária Central do Brasil. Santa Bárbara beneficiou-se de sua localização estratégica entre um cruzamento viário e ponto terminal da estrada de ferro e consolidou a sua posição de entreposto comercial adquirida ainda no século XIX. O município vendia à região noroeste da Zona da Mata e o Alto Jequitinhonha, produtos locais – vinho, aguardente, farinha de mandioca, tecidos e outros produtos importados.
A inauguração da estação ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Santa Bárbara, no dia 1º de agosto de 1911, consolida o processo iniciado no início do século XIX com a mudança nas funções e na maneira pela qual a sua população organiza a sua sobrevivência. Com o trem chega o telégrafo. A sede do município contava então com serviços e equipamentos urbanos “modernos” como luz elétrica, água encanada, um hospital e um grupo escolar. É o período da expansão dos negócios. A vida política se desenvolve e os grupos que dividem a elite local se manifestam através de seus dois jornais “A Vida” (1906) e “A Pátria” (1909). Neste campo o melhor momento dos grupos dominantes em Santa Bárbara é a posse do Conselheiro Affonso Penna em 1906, como quarto presidente da república. (FUNDAÇÃO, 1982, V.3,p.3e 4).
Mais tarde esta posição de entreposto comercial será afetada pela extensão do ramal ferroviário e a implantação da BR 262, por volta dos anos 1960, que desviou o fluxo para outras áreas.
Adiante transcrevemos as positivas observações de Nelson de Senna em seu Annuário datado de 1913, que nos fornecem um vislumbre do desenvolvimento que ocorria no distrito de Catas Altas nesse inicio do século XX:
O aprasível e formoso arraial de Cattas Altas de Matto Dentro se destaca neste mun. Pela salubridade do seo clima, sua amena temperatura, e por seos excelentes gêneros de produção local ( vinhos e farinhas), agora muito em voga com a fácil exportação, via E. de F. Central (Ramal de Santa Barbara a Sabará).(...).
A polycultura, por exemplo, que ahi se acha bastante desenvolvida, devido á energia e gênio trabalhador de seos habitantes, apresenta este districto como uma verdadeira escola do trabalho, que dia a dia se vae impulsionando, como se póde observar pela grande produção anual da farinha de mandioca, de cereais, canna, chá, vinhos, fructas, etc.
A farinha de mandioca de Cattas Altas é conhecida hoje como a primeira farinha do Estado e de melhor reputação nos mercados que a de Suruhy.
De sorte que essas diversas producções, que constituem uma grande renda para esse distr., hão de ser forçosamente muito augmentadas com a exportação directa, que a estrada de ferro ora oferece a esta zona de Minas.(SENNA, Nelson. Annuário de Minas Geraes. Belo Horizonte, Imprensa Official, 1913, p. 757 a 758).
Nesses primeiros anos do século XX, o município de Santa Bárbara englobava em seu território onze distritos: Santo Antônio do Ribeirão de Santa Bárbara, Rio São Francisco, São Gonçalo do Rio Abaixo, São João do Morro Grande, Conceição do Rio Acima, Nossa Senhora do Rosário dos Cocais, São Miguel do Piracicaba, Conceição de Catas Altas do Mato Dentro, Bom Jesus do Amparo, Socorro e Brumado. A vocação agropecuária era uma realidade inquestionável:
Em 1910, o mun. Produzio mais de 18 milhões de litros de milho, 350 mil de feijão, 700 mil de arroz, 3000 arrobas de café, 4000 litros de farinha de mandioca e muitos quintos de vinho de mesa.
- acriação do mun. Foi assim avaliada em 1913: cerca de 15 mil bovinos, 10 mil cavalares, 20 mil suínos, 5000 muares, 2000 lanigiros, 1800 caprinos. (SENNA, Nelson de. Annuario de Minas Geraes. Bello Horizonte, Imprensa Official de Minas Geraes, 1913, p.755 a 757).
Em 1911, Santa Bárbara perdeu o distrito de São Miguel do Piracicaba. Doze anos depois - em 1923 – o Estado suprimiu o distrito de Mercês de Água Limpa.
Segundo Victor Silveira, em 1925 a população do município de Santa Bárbara se compunha de trinta e quatro mil cento e setenta e dois (34.172) habitantes dedicados em sua maioria à agricultura, e pecuária, contando então com oitenta (80) fazendeiros de importância . Existia ainda uma pequena mineração de ouro, manganês e ferro. O distrito sede possuía trinta e quatro (34) casas comerciais, três (03) farmácias, dois (02) hotéis, duas (02) padarias, duas (02) alfaiatarias, um (01) hospital e um (01) grupo escolar. O distrito de Catas Altas possuía sete (07) casas comerciais no mesmo período.
No ano de 1938 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN -tombou a Igreja Matriz de Santo Antônio em Santa Bárbara, Processo nº 168-T-38; Inscrição nº 109, Livro Belas-Artes, Volume 1, folha 20, de 13 de Junho de 1938.
Seu grande monumento de vulto nacional é a matriz de Santo Antônio, edificada no século XVIII em madeira e barro. Com as torres laterais enquadrando a bela fachada, possui um dos mais suntuosos conjuntos ornamentais do período colonial, ilustrando bem o protótipo português de igreja forrada de ouro. A imaginária e a talha são de excelente qualidade observando-se nesta última a evolução de estilos, do barroco joanino doa altares da nave ao rococó do altar-mor. Os retábulos joaninos são bem próprios dessa região, Brumal e Cocais. Destaca-se ainda a pintura do forro da capela-mor, de autoria de Athaíde, considerada pelos especialistas como obra-prima no gênero, e a do forro da nave, também de grande qualidade, atribuída um discípulo do mestre. (FUNDAÇÃO João Pinheiro. Assessoria Técnica da Presidência. Circuito de Santa Bárbara; roteiro turístico. Belo Horizonte, 1982, p.91).
Na década seguinte - 1939 -ano do tombamento da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Catas Altas pelo IPHAN - temos a descrição do distrito colonial de Catas Altas feita por Salomão de Vasconcelos:
Situado em uma das mais aprazíveis e formosas localidades do centro-norte mineiro, que acabamos de visitar pela primeira vez, é Catas-Altas um velho, um velhíssimo povoado do tempo das conquistas, onde retumbaram outrora os hinos do progresso e da febre do ouro; terra de potentados e de nobres; berço de homens notáveis do passado, nas letras, na política e na comunhão social; com seus templos magníficos e suas moradas senhoris, que guardam ainda hoje em seu seio restos preciosos do mobiliário antigo, arquivos particulares, lembranças carinhosas de família. De sua fundação, porém e dos legítimos descobridores, pouco ou quase nada se conhece. (...).
Está Catas-Altas, como dissemos, em um dos mais belos e aprazíveis recantos da região centro-norte mineiro, demorante ao sopé da majestosa cordilheira do Caraça.
Foi um dos mais ricos e populosos arraiais daqueles tempos, onde viviam os magnatas do ouro e os grandes senhores de escravos. (...).
Da Importância primitiva do povoado, di-lo também e ainda hoje o seu extenso e aglomerado casario; atestam-na os grandes sobrados e as velhas quintas, ainda existentes, sua longas ruas estivadas de lajedos e de pedras redondas, seus templos seculares. (VASCONCELOS, Salomão. Catas Altas. In. : Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. São Paulo, Ano VI, vol. LXII, novembro/dezembro, 1939, p. 209 a 220).
Em 1943, o município de Santa Bárbara perdeu os distritos de Bom Jesus do Amparo, Cocais e Morro Grande que se uniram para formar o novo município de Barão de Cocais.Em 1950, Santa Bárbara possuía dezenove mil e vinte e dois (19.022) habitantes e a maior parte da sua população ativa - dois mil seiscentos e sessenta (2.660) habitantes - dedicavam-se a agricultura, silvicultura e pecuária, produzindo milho, mandioca, batata inglesa, alho, batata-doce, cana de açúcar, banana, café e criando bovinos, equinos e suínos. Cerca de mil cento e quarenta e cinco (1.145) indivíduos trabalhavam na mineração de ferro. O distrito-sede possuía então, setecentos e vinte e oito (728) edificações, sendo que trezentos e quinze (315) destas eram servidas de rede de esgoto. Em 1959, a área urbana de Santa Bárbara possuía oitenta e três (83) estabelecimentos comerciais varejistas.
A partir dos anos 1960, a mineração de ferro e carvão vegetal começou a se destacar na economia local devido principalmente à instalação de grandes siderúrgicas no Estado de Minas Gerais.
Verificou-se, assim, que a Região do Circuito de Santa Bárbara participou intensamente do novo processo de industrialização por que passou o país e o Estado de Minas. O desenvolvimento siderúrgico na zona central do Estado representou um verdadeiro renascimento econômico desta área e, consequentemente, contribuiu para o fortalecimento econômico de Belo Horizonte, que, a partir dessa época, começou a desempenhar o papel de pólo econômico de seu “hinterland”. O melhoramento do sistema de transportes foi outro fator decisivo para o desenvolvimento econômico da capital e da região. (FUNDAÇÃO,1982, p.32).
O município perdeu em 1960,o distrito de São Gonçalo do Rio Abaixo, mas ainda assim a agricultura exercida por pequenos proprietários continuou em destaque produzindo mandioca, feijão, milho e cana de açúcar.
Ao nível mais estrito da produção alimentícia, ocorreram também importantes transformações. Em 1960, 58% dos estabelecimentos onde havia lavoura - mandioca, feijão, milho, cana, etc. – tinham menos de 5 ha de lavoura. No final da década, tendo aumentado em quase 50% o número de estabelecimentos onde se cultivava a terra (atingindo 607, dentre o total de 655 estabelecimentos, considerada a área dos municípios de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo) 73% destes possuíam menos de 5 há cultivados, e 17% possuíam entre 5 e 10 há. Considerando-se apenas a área de Santa Bárbara após o desmembramento, tem-se que 84% dos estabelecimentos com lavouras cultivavam menos de 5 há, e 97% menos de 10 há. Co tal fracionamento das áreas de cultivo, vale a hipótese de que o objetivo principal da agricultura municipal é o auto-abatecimento dos produtos diretos. (FUNDAÇÃO, 1980, v.3, p.9).
Essa produção teve continuidade na década seguinte onde também a pecuária assistiu a um crescimento de seus rebanhos bovinos, suínos e seu criatório de galinhas. Também a atividade de silvicultura se destacou nesse período. Quanto a atividade comercial, houve uma diminuição durante os anos 1970, o que acarretou a perda de importância regional. No entanto paralelamente a esse declínio do comércio, o município começou a se destacar na produção de insumos para a atividade siderúrgica.
A indústria se compunha de vinte e seis (26) empresas, que empregavam duzentas e oitenta e duas (282) trabalhadores. Existiam seis (06) indústrias de extração mineral–agora a mais importante das atividades econômicas do município - as indústrias de minerais não-metálicos;as de mecânica; as de perfumaria;as de sabão e velas;as de vestuário; as de calçados e artefatos de tecidos e as de produtos alimentícios.Uma grande mineradora - prestadora de serviços para a Companhia Vale do Rio Doce - emprega duzentos e vinte (220) indivíduos, dos quais vinte e cinco (25) trabalhavam no transporte de minério.
Nas décadas seguintes a economia do município não sofreu grandes diversificações, a não ser com relação a um maior investimento em projetos turístico-culturais que se refletiu na atividade comercial. As principais atividades nos anos 1980/1990 são a extração mineral; indústria metalúrgica; indústria do vestuário, calçados e artefatos de tecidos e o comercio varejista.
A cidade se desenvolveu muito nos últimos anos. Sua localização privilegiada, entre Belo Horizonte, João Monlevade, Itabira, mariana e Ouro Preto, tornou-se um polo aglutinador de ações modernizadoras.
A política de implementação de projetos turístico-culturais potencializa a atividade comercial, faz crescer a construção civil, moderniza a administração pública. (PREFEITURA de Santa Bárbara. Proc.010/CDMPC/98. Processo de Tombamento da Escola Nossa Senhora do Sagrado Coração. Santa Bárbara, 1998, p.09).
Atualmente o município de Santa Bárbara conta com uma população de vinte e sete mil e oitocentos e setenta e seis (27.876) habitantes, ocupando além do distrito sede, os distritos de Florália, Barra Feliz, Brumal e Conceição do Rio Acima, além dos subdistritos e comunidades rurais: Santana do Morro, Galego, Sumidouro, Vigário da Vara, Cruz dos Peixotos, Barro Branco, André do Mato Dentro, Cachoeira de Florália, Costa Lacerda e Mutuca. Sua economia tem como base a mineração,a produção de manga, café, goiaba, limão, tangerina; a criação de bovinos para corte e leite e a criação de galináceos.
A exploração mineral retomada a partir dos anos 1950 teve como consequência grandes transformações econômicas e sociais no distrito de Catas Altas, que passou a receber um relativo número de migrantes. No centro histórico surgiram novas edificações e conjuntos habitacionais foram construídos na entrada da futura sede do município.
Durante os anos 1970,Catas Altas praticamente manteve as mesmas características urbanas do período colonial, feições que na década seguinte levaria à proteção do núcleo histórico em nível estadual. Nessa época sua população era de três mil trezentos e quatro (3.304) habitantes.
Alcançando o grande largo da igreja com sua fachada imponente, é ela também impacto com as esculturas da serra, a caraça que se delineia. Entretanto, com seus antigos nomes: Rua do Campo da Lã, Rua Direita, caminho do Santo Antônio, mais além, pintalgando o Arraial do Socorro, a saída para Água Quente. Bordejando o Largo, um casario pobre, baixo, raras pessoas, aparentemente sem curiosidade para com os turistas, silenciosas, indiferentes. Ao lado direito da igreja, um colonial maior, de muitas salas quartos que dizem ter tido a glória de ter hospedado o Imperador Pedro II e até pouco guardado aquele que ocupara, hoje sede da companhia de mineração que explora o ferro nas faldas da dita Maquiné. (REVISTA Minas Gerais. Belo Horizonte, Ano II, jan./fev. 1970, p. 2 a 5).
Em 1989 o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG - tombou os Centros Históricos de Santa Bárbara, Catas Altas e Brumal, reconhecendo a importância histórica,arquitetônica e artística dessas antigas povoações de origem colonial. Essa proteção fica claramente justificada no texto a seguir retirado do Processo de Tombamento do Centro Histórico de Santa Bárbara:
(...) A arquitetura no geral é típica das cidades mineiras da época, destacando-se entretanto alguns exemplos notáveis, como a Matriz de Santo Antônio e edificações civis como os prédios da Cadeia, da Prefeitura, da Farmácia, do antigo Correio, da Casa Natal de Afonso Pena e outras de menor porte, onde existe uma apurada técnica construtiva, com soluções autênticas que as nivelam aos melhores exemplares da arquitetura mineira tradicional.
A preservação do traçado urbano primitivo e a existência de notáveis obras de arquitetura justificam o seu tombamento estadual que se fará segmentado para facilitar seu desenvolvimento futuro. (IEPHA/MG – PT 55 - Processo de Tombamento do Centro Histórico, Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Capela de Arquiconfraria do Cordão de São Francisco e Capela do Bonfim, Santa Bárbara, MG. Belo Horizonte, 1989, p.12 e 13).
A bela moldura do centro histórico de Catas Altas representada pela Serra do Caraça apresentava as cicatrizes de séculos de mineração que somente foi encerrada nas proximidades da área urbana, no final dos anos 1980.
Seis anos depois do reconhecimento com patrimônio cultural do Estado, Catas Altas foi elevada a município pela lei n.º 12030 de 21 de dezembro de 1995, desmembrado de Santa Bárbara. Atualmente o município de Catas Altas conta com uma população estimada emcinco mil quinhentos e doze (5.512) habitantesdistribuídos em uma área de 240,042 km².
A economia de Catas Altas ainda hoje tem a sua principal sustentação na mineração de ferro - existiam em 2001 três indústrias de extração mineral - no turismo,no artesanato, na produção de vinho, na produção agrícola – café, arroz, cana de açúcar, feijão e milho. Na pecuária o destaque era a criação de bois e galináceos. No Comércio, são pequenos os estabelecimentos, no geral armarinhos e mercearias.
A ECONOMIA DOS MUNICÍPIOS DE SANTA BÁRBARA E CATAS ALTAS
SÉCULOS XVII, XVIII, XIX, XX e XXI
Ano Produção
1695 Início do garimpo de ouro na região.
1702 a 1704 Garimpo de ouro. Surgimento dos povoados.
Primeiras décadas do século XVIII Santa Bárbara e Catas Altas: Garimpo de ouro e surgimento de fazendas de engenho de açúcar e criação de gado.
Primeira metade do Século XIX Decadência da mineração. A agricultura de subsistência que se desenvolveu logo em seguida ocorreu em sítios, fazendas e roças. A produção agropecuária começou a se destacar principalmente no plantio de milho, mandioca e na criação de gado, porcos e carneiros.
Santa Bárbara:A agropecuária tornou-se o pilar econômico de Santa Bárbara.
Durante a primeira metade do oitocentos, eram poucas as atividades industriais na região de Santa Bárbara, destacando-se a as manufaturas domésticas e de tecidos grosseiros, a indústria de beneficiamento de produtos agropecuários e de açúcar e a fabricação de cerâmicas e materiais de ferro.
1824 Região:Em 1824, instalou-se na região a empresa inglesa “Brazilian Mining Association” , iniciando a mineração aurífera subterrânea.
1832 Catas Altas: Criatórios de gado vacum, cavalar e muar. O café era seu principal produto agrícola e duas fábricas de “minerais” – Bananal e Pitangui – empregavam o serviço de oitenta escravos e cinco homens livres.
1861 Santa Bárbara:A mineração obteve novo impulso com a instalação da empresa inglesa Santa Bárbara Minning Company na atual região de Florália e Bateias – Município de Santa Bárbara.
1867 Catas Altas: Plantação de milho e criação de gado.
1878 Santa Bárbara e Catas Altas: A lavoura de subsistência ocorria, então, em pequenas e médias propriedades.
Início do Século XX Catas Altas: Instalação da fábrica de tecidos São Domingos, da produção de farinha de mandioca e de alguma produção de vinho no então distrito de Catas Altas e da indústria de laticínios Boa Esperança instalada em Cocais. A agricultura se destacou na produção de arroz, feijão, milho, chá e cana de açúcar.
1910 Santa Bárbara: Agricultura: feijão, milho, arroz, café, mandioca, vinhedos. Pecuária: bovinos, cavalares, suínos, muares, lanígeros, caprinos. Produção de vinho e farinha de mandioca.
1913 Santa Bárbara: Pecuária: bovinos, cavalares, suínos, muares, lanígeros, caprinos. Fábrica de Tecidos.
1917 Santa Bárbara: Produção de ferro, tecidos, vinho, cana de açúcar.
1925 Santa Bárbara: Agropecuária, pequena mineração de ouro, manganês e ferro. Comércio: 34 casas comerciais, 03 farmácias, 02 hotéis, 02 padarias, 02 alfaiatarias.
1950 Santa Bárbara: Agropecuária: milho, mandioca, batata inglesa, alho, batata-doce, cana de açúcar, banana, café, criação de bovinos, equinos e suínos. Mineração: de ferro.
1959 Santa Bárbara:Possuía 83 comércios varejistas.
1960 Santa Bárbara: Agricultura: mandioca, feijão milho, cana de açúcar. Mineração de ferro e carvão vegetal.
Década de 1970 Santa Bárbara: Agricultura, Pecuária: bovinos, suínos e galináceos.
Produção de insumos para a atividade siderúrgica. 26 indústrias: 06 de extração mineral, indústrias de minerais não metálicos, indústria de mecânica, perfumaria, sabão e velas, indústria de vestuário, de calçados e artefatos de tecidos, uma mineradora.
1976 Santa Bárbara:Indústria Extrativa de minério, óxido de ferro, manganês, bauxita, ferro.
Década de 1980 Santa Bárbara: Agricultura, Pecuária: bovinos, suínos e galináceos. Produção de insumos para a atividade siderúrgica. 26 indústrias: 06 de extração mineral, indústrias de minerais não metálicos, indústria de mecânica, perfumaria, sabão e velas, indústria de vestuário, de calçados e artefatos de tecidos, uma mineradora. Comércio varejista e projetos turístico-culturais.
1983 Santa Bárbara: Agricultura: alho, amendoim, café, cana de açúcar, cebola, feijão, mandioca, milho, tomate. Pecuária: bovinos.
Indústria Extrativa de beneficiamento e transformação mineral.
Ano Produção
2000 Catas Altas:Em 2000, a agroindústria de Catas Altas produzia além do vinho, fubá, licores, doces, quitandas queijos, aguardente, farinha de mandioca e rapadura.
Primeiras décadas do século XXI Catas Altas:Em 2001, existiam 03 indústrias de extração mineral, turismo, produção de café arroz, cana de açúcar, feijão e milho, criação de bovinos e suínos. No Comércio, são pequenos os estabelecimentos, no geral armarinhos e mercearias.
Santa Bárbara: Sua economia tem como base a mineração, a produção de manga, café, goiaba, limão, tangerina; a criação de bovinos para corte e leite e a criação de galináceos.
Figura 11: Tabela de Economia. Fonte: IEPHA/MG.
CAMINHOS REAIS DE SANTA BÁRBARA E CATAS ALTAS
ESTRADAS REAIS
Fonte: SANTOS, Márcio. As estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil. Belo Horizonte: Estrada Real, 2001.
CAMINHO PARA O DISTRITO DIAMANTINO
Vila Rica, vila do Ribeirão do Carmo, Camargo, Inficionado, Catas Altas, Santa Bárbara, Cocais, Itambé, Senhora do Pilar, Conceição, Córregos, Itapanhoacanga, Vila do Príncipe, Milho Verde, São Gonçalo, Tijuco.
CAMINHOS DO MAPA DA CAPITANIA DE MINAS GERAIS COM A DIVISA DE SUAS COMARCAS – 1788
Caminho de Ouro Preto ao Serro e Diamantina
- Vila rica, Mariana, Catas Altas, Santa Bárbara, Itambé, Gaspar Soares, Conceição, Corgos (Córregos), Vila do Príncipe, São Gonçalo, Tejuco.
Caminho de Ouro Preto a Minas Novas e Chapada do Norte
- Vila rica, Mariana, Catas Altas, Santa Bárbara, Itambé, Gaspar Soares, Conceição, Corgos (Córregos), Vila do Príncipe, Guanhães, Rio Vermelho, Arasuaí, Fazenda Santo Antônio, Piedade, Vila do Fanado, Chapada (do Norte), Água Suja Registro Passagem da Bahia.
Figura 12: Tabela de Economia. Fonte: IEPHA/MG.
FONTE:
SANTOS, Márcio. As estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante no Brasil. Belo Horizonte: Estrada Real, 2001.
ROCHA, José Joaquim da.Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais: Descrição Geográfica, Topográfica, Histórica e Política da Capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995.
POPULAÇÃO
DOS MUNICÍPIOSDE SANTA BÁRBARA E CATAS ALTAS
SÉCULOS XVIII, XIX, XX, XXI
Ano Santa Bárbara Catas Altas
Início do Século XVIII - 5.000
1750 - 3.838
1813 - 2.444
1817 12.000 -
1818 12.697 2.488
1821 12.697 2.890
1822 - 2.899
1823 1.830 1.464
1826 - 2.311
1831 1.515 2.089
1832 - 2.089
1833/1835 2.338 2.422
1837 12.875
1830 almas a sede. 1.464 almas
1838 - 2.421
1845 Cerca de 4.000 3.000
1857 - 2.244
1862 - 1.599
1872 4.382 7.784
1873 - 7.768
1878 47.200 -
POPULAÇÃO
DOS MUNICÍPIOS DE SANTA BÁRBARA E CATAS ALTAS
SÉCULOS XVIII, XIX, XX, XXI
Ano Santa Bárbara Catas Altas
1900 62.423 -
1917 2.000 -
1925 34.172 -
1940 10.050 -
1950 19.239 2.429
1960 15.446 2.417
1968 - 2.000
1970 - 3.304
1976 8.282 3.814
1977 20.068 -
1980 18.050 3.867
1983 18.050 -
1991 25.931# 4.148
1996 27.068# 5.512
2000# 24.1808 4.241
2004# 25.239 -
2007# 26.185 4.561
2010# 27.876 4.846
2013 29.595* 5.136
Figura 13: Tabela de População.
* População Estimada. Fonte: IBGE, IGA. Monografia de Catas Altas, 2001, p.33e outras. # Fonte: IBGE.
sábado, 16 de maio de 2026
quarta-feira, 6 de maio de 2026
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