PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

PROTEUS EDUCAÇÃO PATRIMONIAL 22 ANOS

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

TEXTO PARA EDUCAÇÃO PATRIMONIAL - A LEMBRANÇA DOS AFETOS DA ALMA:

A LEMBRANÇA DOS AFETOS DA ALMA: “De fato, não estando agora alegre, recordo –me de ter estado contente. Sem tristeza, recordo a amargura passada. Repasso sem temor o medo que outrora senti, e, sem ambição, recordo a antiga cobiça. Algumas vezes, pelo contrário, evoco com alegria as tristezas passadas; e com amargura relembro as alegrias. (Santo Agostinho). ----------------------- Sim, eu lembro. Não como aconteceu,.. Eu sei... Como penso que foi. Como a mente mente a si mesma dizendo que foi. Toda lembrança é idealizada. Lembrar é recriar e muitas vezes inventar o passado com as cores do presente. Ah... E podem ser cores cinzas de dores remoídas e cheias de remorsos e ressentimentos. Mas também podem ser coloridas com cores fortalecidas pela saudade do que foi. Assim, quando despertamos as lembranças por meio das coisas de lembrar, estamos despertando a releitura atual do que passou. Sempre atual. Diferente de outras lembranças anteriores e futuras. A lembrança é alimentada, lapidada, ampliada com as emoções, situações e motivações do presente acontecendo. Nesse sentido, as coisas de lembrar, sejam elas materiais ou imateriais, são motivadoras emocionais capazes de recriar e inventar mundos e sensações. Os objetos e coisas de lembrar são despertadores de ideais, de frustrações, mágoas, alegrias, esperanças e de utopias. Falam a todos os seres humanos de formas e graus diferentes todos os dias, individual e coletivamente. Tendo essa visão da lembrança, as coisas de lembrar: Igrejas, casarões, ruas, praças, parques, fazendas, espaços diversos, objetos individuais e coletivos, ritualísticos ou do cotidiano, festas, ritos, celebrações, músicas e os fazeres tradicionais, não falam de um passado real que passou, falam das impressões deste passado em nós. Falam do que somos hoje e do que gostaríamos de ter sido e queremos ser. O passado passou e não pode ser lembrado como passou. Será sempre uma idealização dinâmica. Coisas de lembrar falam do que somos e sentimos agora. As lembranças são motivadas sempre pelo agora. Coisas de lembrar são caixas de surpresas de nós mesmos, para o bem ou para o mal. Lembranças são dinâmicas, individuais e sempre contemporâneas. E se somam às lembranças dos outros indivíduos dos nossos grupos menores e dos grupos maiores da sociedade. Definem e ditam a relação com a coletividade e as coisas de lembrar. Coisas de lembrar são obras abertas que estão sempre prontas para nos falar. Não nos esqueçamos, que somos nós do presente, que atribuímos valores aos bens culturais por meio do passado que habita em nós através das lembranças sempre ressuscitadas e idealizadas no cotidiano. Deixem que os bens culturais falem. Deixem falar as lembranças. Ouçam! Ouçam! Ouçam! (Carlos Henrique Rangel).

EXERCÍCIO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: QUEM É VOCÊ?

QUEM É VOCÊ?
Em meus cursos sobre Educação Patrimonial, às vezes aplico um exercício que denomino: Quem é você? Primeiro Passo: Peço aos participantes que escrevam em uma folha avulsa: 1-Seu nome, 2- onde nasceu, 3- nome dos pais, 4 - onde mora, 5 - a escola onde estudou, 6 - seu sexo, 7 - o nome da igreja da sua comunidade, 8 - sua profissão, 9 - a comida que mais gosta, a festa que considera mais importante na cidade, 10 - o nome da esposa, esposo namorado ou namorada, 11 – o nome do lugar que mais gosta na cidade, 12 – O nome da praça principal da cidade. Segundo Passo: Depois, peço que recortem cada resposta e dobrem os papeizinhos. Terceiro Passo: Feito isso, peço que retirem oito papeizinhos do conjunto que montou. Quarto Passo: Em seguida, peço que abram os papeizinhos que sobraram e os deixe à vista. Quinto Passo: Dando prosseguimento ao exercício, escolho um participante e começo a lhe fazer perguntas. No entanto, ele só poderá responder se tiver a resposta em uma das tirinhas que sobraram. Por exemplo: Qual o seu nome? Se ele não tiver a ficha contendo o seu nome, ele não poderá dizer como se chama. Faço outras tantas perguntas e a falta de algumas respostas nas tirinhas vai desconcertando o participante. Objetivo do Exercício: O exercício tem como objetivo mostrar que, o que convencionamos achar que somos, depende de todas essas coisas. Depende também dos bens que ocupam o cenário onde atuamos que fazem parte do nosso cotidiano. Quando não sabemos destas coisas, não sabemos quem somos. UMA CONCLUSÃO: Refletindo sobre esse exercício, constatei, com espanto, que o meu trabalho enquanto preservacionista é, na verdade, um alimentador do ego, um estimulador da ilusão do que pensamos ser. Por outro lado, só podemos vencer a ilusão do ser que pensamos ser, entendendo a origem desta ilusão. *Carlos Henrique Rangel.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O CASO CINE METRÓPOLE - A COMISSÃO ESPECIAL Excrecência administrativa contra o tombamento.

O CASO CINE METRÓPOLE - A COMISSÃO ESPECIAL Excrecência administrativa contra o tombamento.
Lembrei agora da "Comissão Especial" criada pelo governo mineiro para analisar o tombamento do Cine Metrópole de Belo Horizonte. O cinema havia sido tombado pelo Conselho Curador do IEPHA/MG, mas o governador Tancredo Neves não queria assinar o Decreto, que o indisporia com o Bradesco, comprador do prédio e com o vendedor, o proprietário do cinema Antônio Luciano. No entanto, o Governador não poderia "destombar" o Cinema sem um justificativa ou sem apoio. Criou-se então, essa Comissão absurda formada por uma boa equipe de apoiadores do Governador que queria ser Presidente. Afonso Ávila foi convidado para compor essa ilibada equipe, mesmo sabendo que ela era uma excrecência administrativa. De cara, na primeira reunião, deixou a sua posição de que a decisão do Conselho Curador deveria ser respeitada. Os outros membros - todos com ótimos currículos e sabedoria - não endossaram a sua opinião com receio de contrariar o Governador e medo de tomarem uma decisão que manchasse os seus maravilhosos nomes. Afonso Ávila abandonou a Comissão. O único que o fez. Os outros membros, somente decidiram pela não indicação do tombamento, quando tiveram em mãos o Ofício da Presidente do IEPHA/MG, Suzy de Mello sugerindo o não-tombamento do cinema devido às descaracterizações que sofrera. COPIA DO OFÍCIO DE SUZY DE MELO DE 13 DE JULHO DE 1983 REFERENTE AO CINE METRÓPOLE: Destaque para o item 3. b: "b- Que o tombamento provisório do Cine Metrópole seja cancelado pelo Senhor Governador do Estado desde que o (s) proprietários se comprometam formalmente a tomar as seguintes providências: (vejam as providências no oficio). Nenhuma das medidas sugeridas foram executadas e isso era esperado. Esse oficio permitiu que a Comissão Especial "subscrevesse" as recomendações da Presidente Suzy de Mello sem que tocassem na palavra maldita: "destombamento." Fonte: Metrópole: a trajetória de um espaço cultural, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte - Belo Horizonte, 1983. p. 68 a 69. O tombamento poderia ter sido mantido mesmo estando o prédio descaracterizado. Havendo empenho do Governo, soluções poderiam ser encontradas para a gestão do bem cultural em parceria com os proprietários. Por outro lado, a própria Presidente do IEPHA/MG desrespeitou Conselho Curador quando não lhe apresentou sua posição. A Comissão Especial que em suas várias reuniões não conseguiu assumir uma posição com relação ao caso, agradeceu com alívio o ofício da conceituada presidente do IEPHA/MG. Em 21 de julho de 1983, a Comissão Especial criada pelo governo em total desrespeito às decisões do Conselho Curador, subscreveu totalmente as ponderações e recomendações do ofício da Presidente do IEPHA/MG, encaminhando o documento ao governador. Se conhece os grandes seres humanos em momentos difíceis. De todos os importantes nomes da absurda Comissão Especial, Afonso Ávila foi o único que não se humilhou baixando a cabeça para os planos políticos de Tancredo Neves. Dez anos depois, nenhum dos membros entrevistados se lembrava do que tinha acontecido. A amnésia constrangedora de quem sabe que manchou o seu currículo com um ato vergonhoso. Os covardes se esconderam por trás de um oficio desesperado de uma Presidente acossada e adoentada para decidirem o que já estava decidido desde a criação da Comissão. Um mês depois da decisão da Comissão Especial, em 23 de agosto, o Governador em despacho deixou de tombar o Cine Metrópole. Saiu-se muito bem da história, uma vez que balizava sua decisão nas sugestões da conceituada Presidente do IEPHA/MG e dos membros da Comissão Especial. Após este desfecho do Governador, a Cinemas e Teatros Minas Gerais, em 29 de agosto entrou com novo pedido de alvará para demolição do Metrópole na prefeitura. As obras de demolição iniciaram em 5 de setembro ainda sem a autorização da licença expedida apenas em 23 de dezembro. O destruição do Cine Metrópole foi a maior derrota do IEPHA/MG em toda a sua trajetória. O caso Metrópole, uma das mais emblemáticas derrotas dos preservacionistas em Minas Gerais, mostrou a fragilidade das instituições e a necessidade de expandir a discussão para todos os segmentos da sociedade. Somente a representatividade, a conscientização e o envolvimento das comunidades podem fazer frente à ganância, o poder e prepotência dos especuladores imobiliários. O tombamento ainda é um dos grandes instrumentos na defesa do patrimônio cultural, mas é apenas o começo da proteção e da responsabilidade compartilhada entre a sociedade, governo e proprietários. Preservar implica em cuidar, revitalizar, dar novo uso compatível com as características do bem cultural. Quis o destino que a consciência da cidade para valorização de seu acervo cultural fosse tocada pela destruição de um cinema chamado Metrópole. Ponto de encontro de várias gerações, o cinema que tantos divertiu nas décadas de 40 a 80, perdeu-se na vertigem do tempo e do progresso descaracterizador. No entanto, o Cine Metrópole persiste na memória dos que o defenderam ou que apenas assistiram passivamente à sua destruição, permanecendo vivo para história da capital como um exemplo, um marco, um alerta para o futuro. OBS: Temos que avaliar o contexto do Caso Metrópole. Estávamos às vespera da campanha das diretas já. Tancredo era o maior candidato das forças democráticas. Precisava de apoio e claro, precisa se manter longe de polêmicas que pudessem prejudicar a sua campanha. Havia ainda a própria dúvida da importância de um prédio cuja fachada e decoração tinha menos de 40 anos. Minha opinião pessoal é que realmente não cabia tombamento estadual. a importância do Cinema com bem isolado era muito local. Enquanto remanescente dos templos da setima arte, junto com outros exemplares de Belo Horizonte e do Estado, não havia dúvidas sobre a sua importancia. Mas, nessa época não havia Conselho Deliberativo Municipal em BH. O IEPHA não poderia se ausentar desta proteção. Tinha que tombar. E foi o que fez. Suzy, claro, defendia o seu tombamento. Infelizmente, não teve estrutura e nem apoio para segurar a decisão do Conselho Curador do IEPHA. Devomos lembrar a composição da Comissão Especial criada pelo Governador, que contava como membro, o Diretor Executivo do IEPHA/MG, o Engenheiro Rodrigo Andrade. Além de figuras importantes como Murilo Rubião, Sará Ávila, J. d'ângelo... Nenhum deles pediu para sair. Apenas Afonso Ávila deixou clara a sua posição e depois saiu da comissão. Havia ainda, forte oposição do Ministério Público Estadual e da Prefeitura Municipal de BH, cujo prefeito era Hélio Garcia. Mais tarde, Governador de Minas. Suzy logo após encaminhar o fatídico ofício, entregou o cargo. Também não entendi o porque do ofício sugerindo o não tombamento. Poderia ter saído sem se queimar. Não acredito que ela era tão ingênua para achar que suas condições seriam atendidas após a queda do cinema. Talvez realmente acreditasse que as descaracterizações internas efetuadas pelo proprietário fossem irreversíveis... Não sei... Me estranha muito essa visão vinda de uma Professora de Arquitetura tão prestigiada... * Carlos Henrique Rangel.