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terça-feira, 20 de janeiro de 2026
O CASO CINE METRÓPOLE - A COMISSÃO ESPECIAL Excrecência administrativa contra o tombamento.
O CASO CINE METRÓPOLE - A COMISSÃO ESPECIAL
Excrecência administrativa contra o tombamento.
Lembrei agora da "Comissão Especial" criada pelo governo mineiro para analisar o tombamento do Cine Metrópole de Belo Horizonte.
O cinema havia sido tombado pelo Conselho Curador do IEPHA/MG, mas o governador Tancredo Neves não queria assinar o Decreto, que o indisporia com o Bradesco, comprador do prédio e com o vendedor, o proprietário do cinema Antônio Luciano.
No entanto, o Governador não poderia "destombar" o Cinema sem um justificativa ou sem apoio.
Criou-se então, essa Comissão absurda formada por uma boa equipe de apoiadores do Governador que queria ser Presidente.
Afonso Ávila foi convidado para compor essa ilibada equipe, mesmo sabendo que ela era uma excrecência administrativa.
De cara, na primeira reunião, deixou a sua posição de que a decisão do Conselho Curador deveria ser respeitada.
Os outros membros - todos com ótimos currículos e sabedoria - não endossaram a sua opinião com receio de contrariar o Governador e medo de tomarem uma decisão que manchasse os seus maravilhosos nomes.
Afonso Ávila abandonou a Comissão.
O único que o fez.
Os outros membros, somente decidiram pela não indicação do tombamento, quando tiveram em mãos o Ofício da Presidente do IEPHA/MG, Suzy de Mello sugerindo o não-tombamento do cinema devido às descaracterizações que sofrera.
COPIA DO OFÍCIO DE SUZY DE MELO DE 13 DE JULHO DE 1983 REFERENTE AO CINE METRÓPOLE:
Destaque para o item 3. b:
"b- Que o tombamento provisório do Cine Metrópole seja cancelado pelo Senhor Governador do Estado desde que o (s) proprietários se comprometam formalmente a tomar as seguintes providências:
(vejam as providências no oficio).
Nenhuma das medidas sugeridas foram executadas e isso era esperado.
Esse oficio permitiu que a Comissão Especial "subscrevesse" as recomendações da Presidente Suzy de Mello sem que tocassem na palavra maldita: "destombamento."
Fonte: Metrópole: a trajetória de um espaço cultural, Prefeitura Municipal de Belo Horizonte - Belo Horizonte, 1983. p. 68 a 69.
O tombamento poderia ter sido mantido mesmo estando o prédio descaracterizado.
Havendo empenho do Governo, soluções poderiam ser encontradas para a gestão do bem cultural em parceria com os proprietários.
Por outro lado, a própria Presidente do IEPHA/MG desrespeitou Conselho Curador quando não lhe apresentou sua posição.
A Comissão Especial que em suas várias reuniões não conseguiu assumir uma posição com relação ao caso, agradeceu com alívio o ofício da conceituada presidente do IEPHA/MG.
Em 21 de julho de 1983, a Comissão Especial criada pelo governo em total desrespeito às decisões do Conselho Curador, subscreveu totalmente as ponderações e recomendações do ofício da Presidente do IEPHA/MG, encaminhando o documento ao governador.
Se conhece os grandes seres humanos em momentos difíceis.
De todos os importantes nomes da absurda Comissão Especial, Afonso Ávila foi o único que não se humilhou baixando a cabeça para os planos políticos de Tancredo Neves.
Dez anos depois, nenhum dos membros entrevistados se lembrava do que tinha acontecido.
A amnésia constrangedora de quem sabe que manchou o seu currículo com um ato vergonhoso.
Os covardes se esconderam por trás de um oficio desesperado de uma Presidente acossada e adoentada para decidirem o que já estava decidido desde a criação da Comissão.
Um mês depois da decisão da Comissão Especial, em 23 de agosto, o Governador em despacho deixou de tombar o Cine Metrópole. Saiu-se muito bem da história, uma vez que balizava sua decisão nas sugestões da conceituada Presidente do IEPHA/MG e dos membros da Comissão Especial.
Após este desfecho do Governador, a Cinemas e Teatros Minas Gerais, em 29 de agosto entrou com novo pedido de alvará para demolição do Metrópole na prefeitura.
As obras de demolição iniciaram em 5 de setembro ainda sem a autorização da licença expedida apenas em 23 de dezembro.
O destruição do Cine Metrópole foi a maior derrota do IEPHA/MG em toda a sua trajetória.
O caso Metrópole, uma das mais emblemáticas derrotas dos preservacionistas em Minas Gerais, mostrou a fragilidade das instituições e a necessidade de expandir a discussão para todos os segmentos da sociedade.
Somente a representatividade, a conscientização e o envolvimento das comunidades podem fazer frente à ganância, o poder e prepotência dos especuladores imobiliários.
O tombamento ainda é um dos grandes instrumentos na defesa do patrimônio cultural, mas é apenas o começo da proteção e da responsabilidade compartilhada entre a sociedade, governo e proprietários.
Preservar implica em cuidar, revitalizar, dar novo uso compatível com as características do bem cultural.
Quis o destino que a consciência da cidade para valorização de seu acervo cultural fosse tocada pela destruição de um cinema chamado Metrópole.
Ponto de encontro de várias gerações, o cinema que tantos divertiu nas décadas de 40 a 80, perdeu-se na vertigem do tempo e do progresso descaracterizador.
No entanto, o Cine Metrópole persiste na memória dos que o defenderam ou que apenas assistiram passivamente à sua destruição, permanecendo vivo para história da capital como um exemplo, um marco, um alerta para o futuro.
OBS:
Temos que avaliar o contexto do Caso Metrópole.
Estávamos às vespera da campanha das diretas já.
Tancredo era o maior candidato das forças democráticas.
Precisava de apoio e claro, precisa se manter longe de polêmicas que pudessem prejudicar a sua campanha.
Havia ainda a própria dúvida da importância de um prédio cuja fachada e decoração tinha menos de 40 anos.
Minha opinião pessoal é que realmente não cabia tombamento estadual. a importância do Cinema com bem isolado era muito local. Enquanto remanescente dos templos da setima arte, junto com outros exemplares de Belo Horizonte e do Estado, não havia dúvidas sobre a sua importancia.
Mas, nessa época não havia Conselho Deliberativo Municipal em BH.
O IEPHA não poderia se ausentar desta proteção. Tinha que tombar.
E foi o que fez.
Suzy, claro, defendia o seu tombamento.
Infelizmente, não teve estrutura e nem apoio para segurar a decisão do Conselho Curador do IEPHA.
Devomos lembrar a composição da Comissão Especial criada pelo Governador, que contava como membro, o Diretor Executivo do IEPHA/MG, o Engenheiro Rodrigo Andrade. Além de figuras importantes como Murilo Rubião, Sará Ávila, J. d'ângelo...
Nenhum deles pediu para sair. Apenas Afonso Ávila deixou clara a sua posição e depois saiu da comissão.
Havia ainda, forte oposição do Ministério Público Estadual e da Prefeitura Municipal de BH, cujo prefeito era Hélio Garcia.
Mais tarde, Governador de Minas.
Suzy logo após encaminhar o fatídico ofício, entregou o cargo.
Também não entendi o porque do ofício sugerindo o não tombamento. Poderia ter saído sem se queimar. Não acredito que ela era tão ingênua para achar que suas condições seriam atendidas após a queda do cinema. Talvez realmente acreditasse que as descaracterizações internas efetuadas pelo proprietário fossem irreversíveis... Não sei... Me estranha muito essa visão vinda de uma Professora de Arquitetura tão prestigiada...
* Carlos Henrique Rangel.
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